
GANYMDES JOS
Capa e vinhetas de
Eduardo Santaliestra
A LADEIRA DA SAUDADE
Coleo Veredas



EDITORA
MODERNA

Coordenao editorial: Maristela Petrili de Almeida Leite
Preparao de texto: Mirna G. Fernandes
Capa e vinhetas: Eduardo Santaliestra
Composio: Linoart
IMPRESSO E ACABAMENTO: Bartira Grfica e Editora Ltda
CIP-Brasil. Catalogao-na-Publicao
Cmara Brasileira do Livro, SP
           Oliveira, Ganymdes Jos Santos de, 1936 -
O47L            A ladeira da saudade / Ganymdes Jos. - So Paulo : Ed. Moderna, 1983.
             1. Literatura infanto-juvenil     I. Ttulo.
83-0308                                       CDD-028.5
             ndices para catlogo sistemtico
           1. Literatura infanto-juvenil     028.5
           2. Literatura juvenil     028.5
ISBN 85-16-00308-6
Todos os direitos reservados
EDITORA MODERNA LTDA.
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So Paulo - SP - Brasil - CEP 03303-904
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www.moderna.com.br
2002
Impresso no Brasil
       










ndice
Uma garota que sonhava de olhos abertos        3
O confuso mundo dos eus        4
As dores de cabea de dona Flvia        7
A tia que andava igual a um pato        8
Preparativos otimosupermaravilhosos        11
Vo rasgando o azul        13
A cidade-prespio de torres de igrejas        15
O sobradinho do Beco da Lapa        17
As Tetets        19
O teatro de fantoches do Grupo Pedra-Sabo        24
Quem  Dirceu?        27
Porque voc, Marlia.        29
A Ladeira da Saudade        32
O amor  uma realizao que leva tempo        34
Uma grande histria de amor        37
Cantando e namorando a lua no cu negro        39
Meditaes e linhas escritas numa carta        41
Um cinzento dia de chuva        44
Caminhando devagar, mos nos bolsos        45
Encontro junto ao chafariz        47
Os cus da antiga Vila Rica        49
O sangue negro de Aleijadinho        50
Heris da terra de horizontes mais bonitos do Brasil        53
O sobrado ficou mais alegre        56
Agora, este  um pas livre        58
O abrao no boneco de Gonzaga        61
Os filhos pensam que os pais so quadrados        63
Em direo s terras das Minas Gerais        66
AUTOR E OBRA        67




















Este livro  para todos os jovens - de corpo
ou de esprito - que ainda acreditam que o
romantismo  a maior riqueza da alma.
       
Uma garota que sonhava de olhos abertos
      O nibus parou no ponto da esquina. Com a brecada, o pessoal encurralado foi para a frente e voltou para trs.
      - Licena, licena! - pediu ela ao homem gordo que
mal podia mover-se, to apinhado estava o coletivo.
      Por fim, ela conseguiu saltar. Cinco da tarde do vero de janeiro; l fora parecia geladeira porque dentro estava igual a um forno. Depois, fechada a porta, 
o nibus vermelho e branco seguiu o caminho.
      O movimento de carros na avenida era grande. Ela precisou ficar na esquina  espera de que o sinal verde abrisse. Dezesseis anos, morena magra, cabelos compridos, 
macios como seda, tinha olhos pretos e nariz atrevido.
      -        Oi, boneca! - brincou um rapaz de camiseta.
      Llia virou o rosto e ficou olhando para o sinal que continuava vermelho. Ser que at o sinal demorava, para irrit-la ainda mais? J no chegava Marcos Csar, 
aquele filhinho-de-papai?
      Finalmente, o sinal verde acendeu, e ela atravessou correndo. Sim, estava irritadssima! Marcos Csar no passava de um criano, de um careta que no sabia 
o que queria da vida. Na vspera, ele tinha telefonado convidando-a para um cinema. Depois de muito pensar, Llia acabou topando, porque na tarde do dia seguinte 
no tinha o que fazer e as frias estavam uma chatice. Ento, quando chegou a hora, vestiu uma camiseta olmpica, enfiou-se nas calas desbotadas, ps uma sandlia, 
pegou a bolsa e saiu.
      Enfrentar o nibus j havia sido a primeira prova. Por que no fazia logo dezoito anos para ter seu prprio carro?
      Pois bem, depois de um nibus superlotado, apeou na Paulista, quase em frente ao cine Bristol. Marcos Csar estava esperando-a na entrada. Beijinhos no rosto, 
eles atravessaram a galeria, puseram-se na fila para retirar as entradas. Marcos Csar estava calado. Ela perguntou o que era. Ele despejou a verdade: havia brigado 
em casa, o pai jogou-lhe na cara que estava cansado de dar-lhe mesadas e, portanto, no tinha um tosto no bolso. Llia no ligou, ela mesma comprou os ingressos.
      Mas nem dentro do cinema ele parou de reclamar. Quando passou um desconhecido e olhou para ela, Marcos Csar implicou dizendo que ela dava bola pra todo o 
mundo. Ao terminar o filme, os dois se pegaram em discusso. Ele acusando-a de cabea-oca, namoradeira. Ela chamando-o de irresponsvel, de filhinho-de-papai, que 
no tinha coragem para assumir-se. Depois, havia tomado aquele nibus entupido e...
      As ruas vazias e assombreadas por rvores frondosas devolveram-lhe a tranqilidade. A multido deixava-a nervosa; por isso, detestava ir ao centro da cidade.
      Um pardal passou voando baixo. Llia viu uma criana jogando bola no jardim, e um pequins latiu quando ela passou. Tinha os olhos to pretos e latia to fanhoso 
que a menina no pde deixar de rir.
      Mais adiante, a rua bifurcava e formava uma ladeira. Lugar sossegado. Muitas rvores nos pomares dos casares elegantes. A calada cimentada tinha, junto ao 
muro recoberto por hera, uma faixa onde pendoavam as vermelhas coroas-de-cristo. Ela escutou uma cigarra ensaiando o cntico e, com isso, o corao bateu mais leve. 
Llia, ento, diminuiu os passos para melhor apreciar o sol filtrando-se atravs do vaivm das folhas empurradas pelo vento. Semi-cerrando os olhos, viu a claridade 
transformar-se em mil pontos estrelados, que emprestavam um movimento mgico ao mundo.
      "Indo e vindo com a brisa de vero, meu corao bate e confessa, como a cigarra sonolenta: 'Estou cansado... estou cansado!'" - pensou ela, lembrando-se dos 
versos que havia escrito em seu dirio dias atrs. Llia gostava de poesias, adorava as longas horas de meditao e, mais que ningum, amava a natureza.
      Outro ponto de atrito com Marcos Csar! Ele sonhava em ser engenheiro nuclear, s falava de cincias exatas, dizia ser uma burrice gastar a cabea com a poesia, 
com a natureza, com as flores e com a alma. Para ele, a nica coisa importante era o dinheiro. Talvez, por isso, vivia mal dentro de casa, brigando com os pais porque 
a mesada diminua toda a vez que o preo do dlar subia...
      Encolhendo os ombros, ela apressou os passos e virou na esquina prxima.
      A casa ficava escondida atrs de um muro de pedra forrado de avencas. Ali, uma placa dourada: Dr. Rui Muniz - mdico. Llia tirou a chave da bolsa, abriu o 
porto e entrou. L dentro, um outro mundo. Ela reconhecia cada rvore, cada flor. O quintal crescera com ela, pois o pai havia mandado plantar as rvores. De quem 
tinha Llia herdado o amor pela natureza? Do pai, naturalmente! Pois a me, sempre que olhava para as plantas, era para criticar, dizendo: "Se eu fosse voc, Rui, 
mandava cortar todas essas porcarias e cimentar o cho. rvores s servem para jogar folhas no cho e dar trabalho para a limpeza!" Dr. Rui dava uma risada e nem 
respondia. Adiantava contestar o esprito rido da me, igual ao do Marcos Csar?
      Pulando e sacudindo o rabinho cortado, aproximaram-se dois foxes.
      - Ei, parado a, Pitanguinha! Sossegue, Mirabel! - disse ela, dali a pouco, entrando na cozinha com os dois cachorros no colo.
      - Llia, no deixe esses bichos lamber o seu rosto que sua me no gosta! - desaprovou Alice, a empregada magricela.
      Llia fez que no escutou. Alice era um rob da me, falava exatamente tudo o que a me ordenava, era pontual como um despertador. Uma boa pessoa, porm. De 
cabelos grisalhos, mulata, olhar doce, trabalhava para a famlia desde o nascimento de Llia. Isso queria dizer que conhecia a menina como a palma da mo, isto , 
no adiantava bronquear, porque Llia continuaria deixando os cachorrinhos lamber seu rosto.
      - Cad mame?
      - Ela...
      - ...foi fazer massagem para perder os dois centmetros de celulite na cintura! - emendou Llia, soltando os cachorros.
      - No caoe de sua me, sua malcriada! - disse Alice, fingindo-se zangada.
      - Eu no estou caoando. Estou s dizendo a verdade e isso no  crime algum! Sabe o que vou fazer agora, Alicinha do meu corao? Tomar um banho de duas horas. 
E, se o Marcos Csar telefonar, diga a ele que morri.
      Saiu correndo para a sala, enquanto Alice movia negativamente a cabea. Dali a pouco, Llia voltou a aparecer na mesma porta por onde tinha sado e acrescentou:
      - No, no diga que morri, no. Diga s que eu no quero ver nunca mais a cara dele em minha frente! A desculpa  cafona, mas serve. Diga que no quero ver 
esse sujeito... nem pin-ta-do de ouro!
      Dando uma piscadinha, subiu correndo a escada para o quarto.

O confuso mundo dos eus
      Llia estava deitada na cama coberta por uma colcha estampada com girassis. Ela adorava o amarelo, a cor do sol, a cor do fogo. Por isso, em seu quarto, desde 
o carpete s cortinas, o ouro-velho era o tom dominante. Nas paredes bege-claro enfileiravam-se trs posters de antigos astros do cinema, pois Llia era vidrada 
em cinema. Ao lado da cama, uma estante tomava quase toda a parede da esquerda. Ali estavam seus discos, lbuns, livros e um modernssimo conjunto de som. s vezes, 
ela curtia msica moderna, mas, quando o seu amarelo ficava turvo, preferia os clssicos, que a ajudavam a sair da depresso.
      Baixinho, estava tocando o Concerto nmero 23, de Mozart.
      De bruos, as pernas dobradas para cima, ela mordia a ponta da esferogrfica, enquanto olhava para o dirio aberto sobre a cama. No alto, a data e o dia da 
semana. Abaixo, havia escrito: "Tarde de sol, bem depois das seis e meia, um caloro danado. Por que a vida  to difcil?"
      Aps haver grifado a palavra difcil, Llia mordeu mais forte a esferogrfica como se forasse uma resposta.
      De repente, tocada por uma sbita inspirao, foi escrevendo e dizendo em voz alta:
      "Em meu corao jovem h tantos caminhos que no consigo percorrer! Por que sou assim to contraditria? Agora estou triste. . . agora estou alegre.. . Aqui 
estou radiante mas, ali adiante, sou toda lgrimas! Por que no sou sol-amarelo-calor-e-luz? Por que no aprendo a caminhar sem ter destino at o encontro dos braos 
que me amem? Braos que me aqueam... braos que tirem de mim todo o sol que tenho para dar ao mundo!"
      Mozart era excelente para ajud-la a encontrar caminhos, no escuro poo de seu universo. Chopin tambm.
      - Os artistas devem ter conhecido esta angstia que estou sentindo agora - disse, pensativa, fechando o dirio. -  Ceclia Meireles, por que voc no vem 
me ajudar a entender este meu corao maluco?
      A melodia chegou ao fim e, com um salto, ela desligou o aparelho. Exatamente quando a porta era aberta, e Alice apontava:
      - Sua me...
      - ...mandou dizer que o jantar est na mesa. Ei, Alice, voc viu?
      - Viu o qu, Llia? - perguntou a empregada, surpresa.
      - A cintura de mame. Ficou mais fina? Ela j pode concorrer com as vedetes, rebolando nos programas de televiso?
      - Ora, que falta de respeito! - ralhou a empregada, fechando a porta, enquanto Llia caa na risada. Em seguida, emendando um suspiro, deu uma olhada no espelho. 
A me no gostava que se sentasse despenteada  mesa. A, deu um beijo no urso azul-descorado em cima do criado-mudo.
      - Adoro voc! Voc  o nico que me entende nesta casa! - assim dizendo, saiu, fechou a porta e desceu.
      A escada era forrada com passadeira grossa, ningum ouvia os passos de quem subisse ou descesse. O pai, sentado, lia o jornal. O televisor estava ligado, sem 
som.
      - Oi! - cumprimentou ela, dando-lhe um beijo na testa. Depois, afundou-se no sof e, pegando uma almofada, abraou-a. - Ressuscitou muita gente hoje, papai?
      Dr. Rui dobrou o jornal, esticou o brao e passou-o sobre o ombro da filha. Sorriu. Olhou-a de perto.
      - Voc sabe que seu pai  obstetra. Portanto,  muito difcil ressuscitar... gente!
      - E nens no so gente? Quando eles nascem antes do tempo, no  preciso coloc-los na incubadora? Isso no  ressuscitar?
      O mdico respirou fundo.
      - Deve ser fantstico ver nascer um nenezinho de sete meses pouco maior que a mo da gente! - disse Llia, os olhos brilhando. - Como  que uma coisinha dessas 
pode ficar "destamanho"? - e olhou para o prprio corpo.
      -  isso mesmo que eu sempre me pergunto! - concordou o pai. - Voc tambm, quando nasceu, era pouco maior que a minha mo e, agora, est... "destamanho".
      A filha sorriu. O pai era jovem, bonito, moreno de cabelos ralos, com entradas, o que lhe dava maior charme. Tinha olhos negros - e os olhos ela havia herdado 
dele. A pele muito clara tomava um assombreado pela barba escura que ele cortava todas as manhs.
      - Pela segunda vez aviso que o jantar est na mesa - disse a me, surgindo no vo da porta. - Vocs gostam mesmo de comer comida fria, no ?
      O sorriso morreu no rosto de Llia, que se endireitou no sof.
      - Quantas vezes tenho de repetir para voc parar com essa mania de abraar almofadas como se fossem bonecas, Llia? - criticou dona Flvia. - Voc j est 
com 16 anos, no  mais uma criancinha, precisa ter boas maneiras!
      - Vamos jantar - props o pai, levantando-se. 
      Llia foi atrs. No sentia fome. De repente, tinha-lhe voltado a mesma dor de estmago que sentira depois de brigar com Marcos Csar. Por que a me lhe provocava 
essa sensao? A me era linda - Llia no negava. Tinha longos cabelos castanho-claros, finos, olhos castanho-esverdeados e um rosto nobre; o par perfeito para 
o pai. Mas por dentro a me no era bonita! Para Llia, todas as pessoas tinham dois eus: o eu de fora, o fsico, que todo o mundo v, e o eu de dentro, o invisvel, 
que s aparece quando as pessoas so honestas, espontneas, dedicadas... como acontecia com o pai. A me, ao contrrio, nunca deixava transparecer aquele eu. Ou 
ser que o eu de dentro dela era mesmo mando, exigente, determinado? Podiam existir pessoas bonitas por fora e feias por dentro? Talvez pudesse, porque Llia conhecia 
pessoas extremamente feias, porm com um eu interior maravilhoso!
      - Que complicao! - murmurou a garota, sentando-se.
      - O qu? - perguntou a me.
      -         Nada, nada, eu estava falando comigo mesma...
      Jantaram em silncio. Alice trazia os pratos, levava os pratos, e Llia acompanhava com os olhos. J estavam na sobremesa, quando a me resolveu abrir a boca.
      - Marcos Csar telefonou h meia hora - disse em tom de acaso.
      - Prefiro no falar desse assunto, mame - respondeu Llia, afastando o prato.
      - No sei por que essas brigas! - insistiu dona Flvia. -  um rapaz to educado! E tem mais:  de boa famlia. Ele vive dizendo que h de ser um famoso engenheiro 
nuclear, e eu no duvido que consiga!
      - Que bom para ele!
      - Voc, quando quer, sabe ser cnica! - observou a me com um olhar reprovador.
      O pai olhou para ambas. Aquela olhada fez com que Llia refreasse a lngua. Procurando controlar-se, respondeu:
      - Mame, Marcos Csar pode ser um rapaz maravilhoso, lindo de morrer, sei que todas as meninas desmaiam por causa dele; alm disso, nasceu em bero de ouro 
e talvez venha a ser mais importante que o jogador de futebol mais bem pago deste pas. Mas, apesar de tudo isso, mame querida, eu no quero mais ouvir falar dele!
      Atrapalhada, dona Flvia olhou para o marido.
      - Meu Deus, por que essa deciso trgica?
      -  que cheguei  concluso de que ele no faz a
minha cabea, e fim!
      - Posso trazer o cafezinho? - aparteou Alice por que, conhecendo a famlia como conhecia, se no entrasse na conversa, sabia que a coisa complicaria.
      - Sim, traga, por favor - concordou Dr. Rui.
      Llia, porm, no quis caf. Primeiro, olhou para o pai. Depois, para a me. E, pedindo licena, retirou-se para o quarto. No queria ouvir nem conversas, 
nem crticas, nem conselhos. Queria apenas ouvir a msica de Mozart e ficar sozinha, curtindo as suas divagaes.

As dores de cabea de dona Flvia
      Deitada na rede branca de algodo, Llia lia um livro e tomava refresco. Para no ter de ficar segurando o copo, ela deixava-o no cho e tomava o refresco 
por um comprido tubo de plstico. Assim, podia ler tranqilamente e, de vez em quando, beber um golinho.
      O livro era de Jorge Amado.
      Quando chegou ao fim do captulo, naquela tarde quente de comeo de fevereiro, Llia fechou o livro e ficou olhando para um pedao de cu azul.
      - Os gnios no deviam morrer nunca! - disse, estalando os dedos para Mirabel, que, sem esperar o segundo convite, pulou na rede.
      Nisso, o telefone tocou. Mais que depressa, Llia endireitou o corpo. Aquela campainha a deixava com os nervos  flor da pele. Na terceira tocada, ouviu que 
Alice entrava resmungando na sala.
      - J sabe, hein? - gritou Llia da rede. - Se for Marcos Csar, eu no estou em casa!
      Revirando os olhos, a empregada pegou o fone e emitiu um al contrariado. Sim, era a voz masculina que Llia no queria escutar. Alice deixou que o rapaz falasse 
por alguns minutos e, depois, arrematou:
      - No, ela no est, no sei onde foi e nem a que horas volta!
      Llia ps a mo na boca para segurar a risada, pois, quando mentia, Alice fazia uma cara muito feia. Segundos depois, carrancuda, a empregada desligava o telefone:
      - Sujeitinho malcriado, me bateu o telefone na cara!
      - Na cara, no: no ouvido, Alice - respondeu Llia. - Viu s como ele ? E, depois disso, voc ainda quer que eu namore um cara desses?
      - Eu no quero coisa nenhuma! - Alice empinou o nariz. - Voc  quem sabe de sua vida, no eu! - e voltou para a cozinha.
      O relgio da sala continuou tiquetaqueando. Dali a pouco, ouviu-se um ronco de automvel. Era dona Flvia que entrava com o carro novinho em folha, cinza-prola, 
estofamento claro. "Mame nasceu para usar coroa!" - pensou Llia, acompanhando o movimento do carro at estacionar. "Por que ela no  to bonita por dentro como 
 por fora?"
      Em seguida, dona Flvia entrou pelos fundos, passando pelo alpendre onde Llia estava. Elegantssima em um vestido cor de champanhe, sapatos e bolsa claros, 
o penteado impecvel. Llia forou um sorriso:
      - Oi, me, estava boa a festa?
      - Uma droga! Oh, que dor de cabea...! Lendo?
      - , passando o tempo...
      - Vou tomar um comprimido e cair na cama - disse Dona Flvia, desaparecendo pela porta.
      Llia continuou olhando para aquela direo. Por que no conseguia sorrir descontrada para a me como sorria para o pai? Era difcil! Entre ela e dona Flvia 
havia uma barreira. Quando Llia tentava rir franco para ela, tinha medo, sentia-se ridcula. Por que a me tambm no ria largo para a filha? Elas pareciam duas 
sombras com medo de se cruzarem.
      Chateada com aqueles pensamentos, Llia tentou concentrar-se na leitura, mas no conseguiu. A, o telefone tocou de novo.
      - Eu no vou atender! - gritou Alice, l da cozinha. - No quero mentir pra mais ningum!
      - Tambm no atendo porque no quero falar com ele! - respondeu a garota cruzando os braos.
      O telefone continuou tocando, tocando, fino, irritante. At que, abrindo de supeto a porta do banheiro, dona Flvia saiu irritada, pisando forte:
      - Vocs duas esto surdas? Por que eu que tenho de atender o telefone? Ser que no tenho nem filha nem empregada?
      Ergueu o fone, colocou-o no ouvido e, ao reconhecer a voz do outro lado, a expresso serenou. Com os olhos fechados, foi respondendo mais com acenos de cabea 
do que com palavras:
      - ...sim ...sim ...amanh de manh? timo! Rui vai esper-la no aeroporto. No, no  incmodo nenhum, ser um grande prazer, claro. At logo!
      Depois de desligar, dona Flvia dirigiu-se at a cozinha.
      - Alice! - disse, decidida. - Vamos deixar bem claro que nesta casa a empregada  voc. Isso significa que eu no quero mais atender telefonemas, entendeu?
      Alice, porm, no era de escutar sermes. Botando as mos na cintura, rebateu:
      - Pois fique a senhora sabendo que eu no gosto de mentir!
      - Mentir?
      - Aquele tal de Marcos Csar quase derrete essa droga de telefone, tocando de cinco em cinco minutos, e a Llia no quer conversar com ele. Ento, eu tenho 
de mentir, dizendo que ela no est em casa!
      Ouvindo aquilo, as tmporas de dona Flvia latejaram ainda mais. Dando meia-volta, foi at ao alpendre, onde Llia continuava se balanando na rede.
      - Vamos acertar definitivamente um ponto, Llia - disse, enrgica - ou voc conversa com o Marcos Csar a respeito desse namoro ou...
      - Eu j acabei com esse namoro! - declarou a filha, cortando a frase da me. - Voc tambm j sabe disso. Ento, que mais quer que eu faa? O Marcos Csar 
continua telefonando, telefonando, no tenho mais nada para conversar com ele!
      - Os Santamaria so gente fina, educada, de tradio.
Ser que voc no entende, menina?
      - Entender o qu, mame? - desafiou Llia, fechando o livro com um estrondo. - Gente fina, educada e de tradio devia saber aceitar um no, que diabo!
      - No seja grosseira, Llia!
      Llia coou a cabea e respirou fundo:
      - Mame, por favor, no vamos discutir! Voc est com dor de cabea, e voc mesma vive repetindo que eu sou a outra dor de cabea de sua vida. Por favor, entenda: 
eu no quero mais nada com o Marcos Csar por mais fino, educado e importante que ele seja. J falei isso diretamente, mas ele no quer me entender!
      Por alguns momentos, dona Flvia continuou de p, imvel. Estava plida, mordia os lbios, abria e fechava as mos nervosamente. Depois, levando as mos  
testa, comeou a gemer.
      - Estou mal... estou me sentindo muito mal... minha cabea vai arrebentar...
      Llia sabia que era pura chantagem. Quando no conseguia impor sua vontade atravs da fora, dona Flvia sempre apelava para alguma encenao daquele tipo. 
Quando criana, Llia ficava impressionada e cedia. Mas, com o passar do tempo, tendo compreendido as artimanhas, Llia parou de ceder.
      -  melhor voc deitar-se e descansar um pouco, mame - sugeriu a filha, sem levantar-se da rede. - Tome um bom analgsico que,  noite, voc estar nova em 
folha. No se esquea que hoje  noite tem o aniversrio na casa do Dr. Mangabeira!
      Ao ouvir aquilo, dona Flvia olhou firme para a risadinha da filha. Sim, sim, tinha passado horas no cabeleireiro preparando-se especialmente para a festinha 
e no podia, agora, permitir que uma simples dor de cabea arruinasse todos os seus planos.
      Desapontada pela derrota, dona Flvia virou nos ps e desapareceu enquanto, suspirosa, Llia dava beijos na Mirabel.

A tia que andava igual a um pato
      Tia Ninota chegou s nove da noite do dia seguinte, conforme combinara, por telefone, com dona Flvia. Dr. Rui e a esposa foram ao aeroporto de Cumbica esper-la. 
Quando viu o carro entrando, Llia desceu a escada pulando. A casa estava toda iluminada. Na cozinha, Alice acabava de ferver o leite.
      - Eles esto chegando! Eles esto chegando! - falou Llia, toda assanhada, olhando pelo vitr.
      - J escutei, no sou surda! - declarou a empregada secamente.
      Dando meia-volta, Llia atravessou a sala de jantar, onde a mesa estava posta, e correu at o alpendre, onde viu o carro apagando os faris. Abriu-se a porta, 
e Dr. Rui apeou da direo. Do outro lado, dona Flvia descia e ajudava tia Ninota.
      - Obrigada, minha filha! - agradeceu a tia, colocando os ps no cho. - Depois dos quarenta,  bom a gente estar sempre perto dos jovens...
      Era baixinha, magra, de rosto to redondo que parecia feito a compasso. Olhos pretos, vivos, cabelo curto, ondeado, grisalho, vestido simples, de tecido grosso, 
meias, sapatos ortopdicos, salto mdio, ps abertos como se o equilbrio dependesse daquela posio. Andava marchando igual a um pato com o traseiro arrebitado. 
Llia comeou a rir e teve de fazer fora para ficar sria quando a tia aproximou-se.
      - Minha querida! - exclamou tia Ninota, abrindo os braos. - Como voc cresceu! Como est bonita!
      Llia deu-lhe beijos nas bochechas. Depois, os olhinhos vivos a examinaram melhor.
      - Cada vez mais linda, cada vez mais linda esta garota! Aposto que anda fazendo disparar o corao de muito garoto por a, no ?
      Em vez de responder, Llia olhou para a me, e dona Flvia suspirou como se dissesse: "Voc ouviu isso?"
      Entraram. Llia abraando a tia pela cintura, o mdico carregando a malinha, e dona Flvia abanando-se. Depois de a tia haver ido ao banheiro, assentaram-se 
 mesa para a refeio.
      - No precisavam ter-se preocupado - disse ela. - Serviram um bom lanche no avio.
      - A que horas a senhora saiu de Belo Horizonte, tia? - quis saber Llia, analisando melhor,  luz, as feies da tia-av. Era a nica tia sobrevivente do Dr. 
Rui e, portanto, tia indireta da menina.
      - Acho que s oito, se no me engano. Ora, este meu relgio de pulso anda to maluco quanto a minha cabea! - comentou tia Ninota, dando uma olhada no relojinho. 
- Voc ainda no conhece o novo aeroporto de Bel, o de Lagoa Santa? Menina,  a coisa mais linda que j vi em toda a minha vida, um modernssimo conjunto de granito 
e vidros, que at parece coisa de outro planeta! Voc vai ficar vidrada!
      - E como vai a capital dos mineiros, titia? - perguntou o mdico, achando graa na animao da visita.
      - Cada vez mais linda! - respondeu a velha, servindo-se de sopa.
      Llia calou-se e continuou olhando, observando a tia, que gesticulava animadssima como um dnamo. Apesar de ser a nica tia que possua - pois seus pais no 
tinham irmos - Llia no topava muito a velha. Na verdade, considerava-a implicante, aquele tipo de pessoa que, quando tem algo a dizer, no manda recados: vai 
pessoalmente.
      No dia seguinte, Dr. Rui saiu cedo para o hospital e, s nove horas, dona Flvia levou tia Ninota at ao mdico que, de trs em trs meses, dava-lhe uma checada 
no corao. A casa ficou, pois, vazia, e Llia dormiu at s dez.
      Os dois carros chegaram ao meio-dia: primeiro o de dona Flvia e, atrs, o do Dr. Rui. Tia Ninota estava muito falante. Pelo jeito, o resultado dos exames 
devia ter sido satisfatrio, porque ela se mostrava mais animada do que na vspera. Na verdade, tratava-se apenas de um exame de rotina porque, anos atrs, tia Ninota 
tinha tido uns pequenos problemas cardacos.
      O almoo transcorreu alegre. Eles conversaram animados e s duas horas, enquanto a tia e dona Flvia repousavam, o mdico voltou ao servio.
      Aquela tarde, Llia havia programado ir at ao shopping center para comprar um disco e assistir a um filme. Para isso, l pelas trs horas, aprontou-se, pegou 
a bolsa e desceu. Alice estava na cozinha, e a empregada que passava roupa trs vezes por semana tinha acabado de chegar.
      - Vai sair sem tomar caf? - perguntou Alice, preocupada.
      - Vou comer uns doces por a - respondeu Llia. - Avise mame que fui ao cinema, t?
      A empregada encolheu os ombros, e Llia saiu.
      O passeio daquela tarde deixou-a alegre, despreocupada. Verdade que pensou algumas vezes em Marcos Csar. Mas cada vez afastava mais o pensamento, raciocinando 
que era melhor ser livre do que ter um namorado complicado daqueles. Ela divertiu-se bastante, o filme foi uma comdia, e o disco que comprou era da Gal. Fazia tempo 
que sonhava com aquele elep. Quando chegou em casa, j ao entrar, Llia percebeu que havia alguma coisa errada. Alice, que adorava fofocas, foi logo despejando 
tudo:
      - Menina, voc teve uma sorte em ter sado que nem imagina! Sabe que assim que voc virou as costas dona Cludia veio visitar a sua me?
      - A me do Marcos Csar esteve aqui? - perguntou Llia, admirada. - Uai, o que ela queria?
      - Por acaso voc pensa que eu fico atrs das portas escutando a conversa dos outros, menina? - perguntou a empregada, ofendida.
      - Acho, no; eu tenho certeza porque j vi muitas vezes - afirmou Llia.
      - Bem... eu fico mesmo! - concordou Alice, coando a cabea. - Dona Cludia disse que o Marcos Csar est muito abalado por causa da briga entre vocs, no 
quer sair de casa... o mdico falou que  esgotamento nervoso.
      - Oh, esgotamento nervoso com aquele tamanho, com aquele corpo? - repetiu Llia. - Eu posso imaginar muito bem o que as duas falaram de mim! - dizendo isso, 
s faltou despejar fogo pelos olhos. - Alice, prepare-se, por que vai subir um cogumelo atmico nesta casa!
      - Menina maluca, o que voc vai fazer? - perguntou a empregada, tentando segurar Llia pelo brao.
      - Eu vou tomar umas certas providncias - respondeu Llia, atravessando a porta. - Pode ficar atrs da porta para escutar tudinho!
      A empregada suspirou, revirou os olhos e, como era de seu costume, foi mesmo encostar o ouvido na porta para saber o que ia acontecer.
      Saiu uma briga daquelas! Em nome da boa educao, dona Flvia exigia que a filha fosse fazer uma visita a Marcos Csar.
      - No precisam falar em namoro - insistiu. - Trata-se apenas de uma visita a um amigo doente, e no h nada demais nisso!
      Llia, porm, no concordava. Agarrada ao disco, teimou, explicou, insistiu que uma visita no adiantaria nada. Muito ao contrrio, s complicaria as coisas. 
E, como a me no cedia aos argumentos, a menina acabou gritando:
      - O dia em que Marcos Csar estiver com esgotamento nervoso... minha av  bicicleta de trs rodas! - e retirou-se correndo para o quarto enquanto, na cozinha, 
Alice fazia sinal de bem-feito.
      Trancando-se no quarto, Llia jogou-se na cama e cobriu a cabea com o travesseiro. Bufava indignada. "Por que a me achava que tinha o direito de controlar-lhe 
a emoo?"
      Pouco a pouco, escureceu. Llia no percebeu, pois continuou com a cabea escondida debaixo do travesseiro.
      L pelas sete, ouviu batidas leves  porta do quarto.
      - V embora, no quero conversar com ningum! - gritou ela.
      - Sou eu, seu pai. Preciso conversar com voc, Llia. Abra a porta...
      Dr. Rui no costumava fazer discursos como dona Flvia. Ento, pensando nisso, ela se levantou e abriu a porta. Viu o pai de p com uma expresso tranqila. 
Sempre que o via daquele jeito, Llia sentia-se envergonhada. Sentando-se na cama, abraou-se ao travesseiro do jeito que a me implicava.
      - J sei - disse ela, assim que o pai sentou-se a seu lado - ela contou tudo a voc, no contou?
      Passando-lhe o brao sobre os ombros, o pai puxou-lhe o corpo contra o dele.
      - Escute, Llia, quero fazer uma proposta a voc. ..
      - Se for para visitar o Marcos Csar...!
      - No  nada disso. Voc devia passar uns dias em Ouro Preto com tia Ninota. O que acha da idia?
      - Ouro Preto? - perguntou ela, admirada.
      - . Voc est em frias, no conhece Ouro Preto e podia distrair um pouco a cabea. Aqui dentro, voc vive como um passarinho engaiolado. Por que no aproveita?
      Ainda sob o impacto da surpresa, ela comeou a pensar. "Seria timo ficar um pouco longe das implicncias da me e dos telefonemas de Marcos Csar & Famlia. 
Teria sossego, por que no? Alm do mais, ia curtir novas amizades..."
      De repente, porm, ela torceu o nariz.
      - Seria uma boa se... tia Ninota no fosse to implicante!
      Dr. Rui caiu na risada:
      - Sua tia no  implicante, Llia, nem vai pegar no seu p. Tia Ninota  apenas uma pessoa franca, honesta, costuma dizer tudo o que pensa. Para falar a verdade, 
entre ter um amigo falso e um inimigo franco, eu prefiro o inimigo franco porque posso confiar nele. Alm do mais, tia Ninota no  sua inimiga. Da, voc teria 
nela uma amiga franca, mesmo que parea chata ou implicante. No  uma boa?
      Llia pensou um pouquinho. Depois, abraou forte o pai.
      - Papai, por que todos os pais do mundo no so como voc? Voc  otimosupermaravilhoso! - e pregou-lhe um beijo na testa.

Preparativos otimosupermaravilhosos
      Quando o despertador tocou, s cinco da manh, Llia travou-o. Ela j estava acordada fazia tempo. A emoo da viagem havia-lhe tirado o sono, s conseguiu 
dormir depois da meia-noite e, assim mesmo, um sono agitado.
      Acendendo a luz, trocou de roupa e fechou as malas, que havia preparado na noite da vspera sem a ajuda da me. Coou a cabea.
      - Ser que peguei tudo o que vou precisar? Acho que sim. Tenho de aprender a me virar sozinha. Se faltar alguma coisa, compro em Ouro Preto.
      Escovou os cabelos e pegou a malha de l meia-estao. Depois, deu um beijo no ursinho descorado em cima do criado-mudo.
      - Tome conta direitinho do meu quarto enquanto estou fora, viu? Tchau, meu querido. Vou sentir saudade de voc...
      Em seguida, desceu para a sala. Estava escuro l; porm, na cozinha, viu a luz acesa. Surpreendeu-se ao ver tia Ninota coando caf.
      - Oi, tia, a senhora tomou o lugar da Alice?
      - Dei folga para ela - respondeu a tia, dando uma olhada. - Est pronta?
      - Estou...
      - Pegou as roupas direitinho?
      Llia fez que sim, intimamente pensando: "Ser que vo parar os interrogatrios da mame para comear os de tia Ninota?  dose!"
      Pouco depois, Dr. Rui descia. Meio rouco, meio resfriado. Dona Flvia no desceu - mandava um beijo para a filha e desejava-lhe boa viagem. Llia achou que 
assim era melhor, facilitava as coisas.
      Depois do caf, os trs seguiram para o Aeroporto Internacional de So Paulo, em Cumbica, Guarulhos.
      O sol estava comeando a despontar no cu azul, a cidade j se mostrava movimentada e, junto aos pontos de nibus, as pessoas bocejavam, sonolentas. Llia 
acompanhava empolgada o passar das ruas e das avenidas. Assim, de repente, ela se viu na avenida marginal do Tiet, logo entrando na Rodovia dos Trabalhadores, ao 
longo da qual enfileiravam-se fbricas uma atrs da outra. A paisagem s se tornou mais verde ao entrarem na rodovia para o aeroporto. Llia notou extensas reas 
ajardinadas de ambos os lados, atestando como aquela via de acesso era paisagisticamente bem cuidada. Quando viu o aeroporto, afinal, com os avies estacionados 
na pista como um bando de gigantescos pombos brancos, seu corao disparou! Que beleza! Se tia Ninota havia comentado que o aeroporto de Belo Horizonte parecia um 
monumento, o de So Paulo no lhe ficava nada atrs com suas arrojadssimas linhas modernas, to compridas que ele parecia desaparecer na perspectiva da distncia. 
Pelo que a garota sabia, da praa da Repblica at ali a distncia era de 32 quilmetros, mas de carro, e feliz como estava, a corrida parecia ter demorado apenas 
um minuto.
      O vo estava marcado para as sete, havia muita gente aguardando outros vos. A fila de txis parados parecia uma gigantesca cobra amarela contornando a calada. 
O mdico entregou as malas ao carregador.
      - Acho que estamos adiantados, ainda so seis e vinte - disse Llia.
      - Eles pedem para estarmos no aeroporto uma hora antes - declarou tia Ninota. - Sou quase mineira; por isso, prefiro chegar cedo do que atrasada.
      Dirigiram-se ao guich da companhia area onde uma garota de grandes olhos verdes, em uniforme, atendeu-os, marcando as passagens.
      - Fila dos fumantes ou no-fumantes? - perguntou.
      - Dos no-fumantes! - declarou tia Ninota bem audvel. - Detesto viajar com chamins acesas em meu nariz! Por acaso j no chega a poluio das fbricas, que 
nos prejudica a sade?
      A recepcionista sorriu e, depois, entregou as passagens numeradas.
      Tendo Dr. Rui entregue as malas ao rapaz da companhia area, este colocou-as em um buraco quadrado na parede onde desapareceram. Estendeu, em seguida, dois 
comprovantes da bagagem ao mdico.
      - Guardem direitinho - disse o mdico, entregando um deles  filha e outro  tia. - Do contrrio, no conseguiro retirar as malas ao chegarem a Belo Horizonte.
      Como havia tempo de sobra, eles subiram, atravs de uma larga escada de granito, at ao segundo piso do aeroporto para verem a decolagem e a aterrissagem de 
avies. Havia muita gente l em cima. Era um salo espaoso, com bancos, que se abria amplo para a pista do campo. Aproximando-se do parapeito, Llia olhou para 
o cu, observando o sol nascente atrs de uma nuvem.  distncia, os contornos das casas perdiam-se no esfumaado das brumas, pois Cumbica, mesmo em dias muito limpos, 
 um local freqentemente sujeito a neblina, o que muitas vezes impede a decolagem ou pouso de avies. Ventava, e o vento brincava-lhe com os cabelos.
      Muitos avies parados no meio da pista aguardavam o momento do vo. Dali a pouco, estava aterrissando um jato com luz acesa na ponta das asas. Majestoso como 
um gigantesco pssaro, pousou sereno no cho e, depois, como um cordeirinho, descreveu um crculo at emparelhar-se com as demais aeronaves estacionadas. Com isso, 
os passageiros comearam a apear, subindo em um nibus que os conduzia at ao porto de desembarque. Ao mesmo tempo, fechava-se a porta de outra aeronave, que saiu 
devagar, como um nibus, trepidando as asas, aparentemente amedrontada. Descrevendo meia-curva, dirigiu-se at o fim da pista e, com uma corrida frentica, passou 
em frente a Llia com um ronco quase de estourar ouvidos e corao. Que subida majestosa para o cu!
      - Como  bonito ver um avio decolar! - murmurou a menina, com um largo sorriso. - D a impresso de tanta liberdade!
      s seis e quarenta, eles desceram ao trreo e, depois de passarem por vrias butiques enfileiradas, chegaram a uma passagem onde havia um elegante funcionrio 
uniformizado. Ali havia um grupo de estrangeiros, com roupas e expresses diferentes. Eles falavam uma lngua que Llia desconhecia. A garota estava meio zonza com 
o vozerio, o vaivm, todas aquelas novidades.
      Finalmente, pelos alto-falantes, foi anunciado o vo para Belo Horizonte. Nesse momento, Dr. Rui beijou a filha e desejou-lhe boa viagem.
      - Telefono para voc assim que chegar l - prometeu ela.
      - No se esquea de sua me - recomendou o mdico, afagando-lhe a cabea.
      Llia fez que sim e acompanhou a tia, que j caminhava por um corredor de vidros que at parecia parte da casa de espelhos do Playcenter.
      Em uma espaosssima sala de espera acarpetada, as duas aguardaram por mais algum tempo. Sentada em uma poltrona de couro, Llia ficou observando os avies 
atravs dos grandes vidros do salo. Havia muitos passageiros, inclusive uma criana chorando. Tia Ninota abanou-se:
      - Ser que nem hoje vou conseguir viajar sem "msica" a bordo? - murmurou irritada.
      - A senhora no gosta de crianas, tia? - perguntou Llia, sentando-se mais prximo a ela.
      - Gostar, eu gosto, meu bem. Mas prefiro crianas de boca fechada.
      E sorriu como se perguntasse: "E voc?" Pouco depois, um rapaz em camisa branca de manga comprida, gravata e cala azul-marinho anunciou que os passageiros 
podiam seguir. Imediatamente, as pessoas aglomeraram-se. Tia Ninota deixou para ser a ltima.
      - Este povo cada vez se parece mais com o gado! - suspirou, franzindo a testa. - Parece que todo o mundo perdeu a noo de boas maneiras! Se temos lugares 
numerados, por que esse empurra-empurra?
      Llia sorriu timidamente. Os olhos da tia brilharam.
      - Est com medo?
      - No... - respondeu, reticente.
      Depois de descerem por uma escada (Llia preferiu a rolante), chegaram todos a uma pequena sala cuja porta abria-se direto para o campo. Uma jovem da linha 
area, alta e mulata, segurava a porta fechada, enquanto um rapaz em uniforme comunicava-se com algum atravs de um radinho porttil.
      Quando foi liberada a partida, abriu-se a porta de vidro, e o pessoal apressado saiu em direo ao nibus, que os aguardava para conduzi-los ao avio. Esquecendo-se 
da crtica que a tia havia acabado de fazer, Llia saiu correndo para guardar um lugar, que ofereceu  velha.
      - Voc  mesmo muito esperta! - agradeceu tia Ninota, com uma piscadinha. - J aprendeu que quem quiser vencer no mundo de hoje precisa chegar na frente, no 
? Obrigada, queridinha!
      Fecharam-se as portas do nibus. Llia deu uma olhada nos companheiros de vo: jovens, crianas, velhos, um casal de japoneses. Depois, olhou para fora. O 
nibus saiu e seu corao comeou a bater depressa. Tinha falado  tia Ninota que no estava com medo de viajar de avio (no era a primeira vez), mas sentia um 
frio na barriga. Ento, para distrair-se, ficou olhando para o edifcio do aeroporto. O lugar onde havia estado ainda h pouco ia ficando para trs... para trs...
      De repente, o nibus parou. O pessoal descia depressa. Quando ela saiu e olhou para fora, sentiu um estremecimento no corpo. Bem de perto, majestosa, em cinza-metlico, 
a silenciosa aeronave esperava para carreg-la para os ares.

Vo rasgando o azul
      As duas foram as ltimas a apear do nibus. Um rapaz uniformizado deu a mo para tia Ninota, que sorriu.
      - Obrigada, moo! - agradeceu. - Ainda bem que existem pessoas educadas que se lembram dos velhos!
      Atravs de uma escada de ferro estreita e que estremecia ligeiramente, elas subiram ao avio. Llia entrou primeiro, a porta no era muito alta. A comissria 
de bordo cumprimentou-as com alegria:
      - Bom dia, bem-vindos a bordo!
      O interior do avio parecia o de um grande nibus com trs lugares de cada lado. As poltronas eram em laranja e verde-musgo estampado, e as janelinhas redondas. 
Acima dos assentos, o maleiro fechado. Tia Ninota foi conferindo a numerao at chegar ao lugar indicado. Havia um rapaz sentado junto  janela. Ele fez que no 
viu as duas.
      - J vai comear a encrenca! - suspirou a tia, aborrecida. - Por que as pessoas no se assentam no lugar reservado para elas? - e estendeu a passagem diante 
do nariz do rapaz:
      - Meu jovem, por acaso voc no aprendeu a ler?
      Ele olhou displicente.
      - O qu?
      - O seu lugar no  esse que voc est ocupando!
      - A senhora insiste em que eu mude de lugar?
      -        Rapazinho, se estou lhe dizendo que seu lugar no  esse,  sinal de que insisto em que voc ocupe o seu!  por isso que hoje em dia no existe mais 
ordem no mundo. Ningum respeita mais o que pertence aos outros!
      Ouvindo aquilo, Llia at fechou os olhos, mas deu razo  tia porque queria sentar-se  janela.
      Dali a pouco, acendeu-se o letreiro luminoso recomendando s pessoas que apertassem o cinto. Ao mesmo tempo, comeou a soprar oxignio geladinho do teto, fechou-se 
a porta do avio, e a aeronave ps-se a mover pela pista. Engolindo em seco, Llia agarrou-se  poltrona e ficou olhando o edifcio do aeroporto, que se distanciava...
      O avio descreveu uma curva, os motores roncaram mais forte, mais forte, fortssimo, at que a aeronave deu uma corrida maluca. Llia sentiu a cabea ligeiramente 
empurrada para trs, fechou os olhos e teve a sensao de estar na subida da roda-gigante. Quando olhou para baixo, viu, em questo de segundos, as casas j bem 
pequenas, l longe!
      - Meu Deus, como ele decola rpido! - disse, espantada.
      Comeou msica suave a bordo. Tia Ninota retirou o croch da bolsa e ps-se a trabalhar. Llia, ento, abriu a sacola de couro e pegou o gravador.
      - O que voc vai fazer? - perguntou a tia, admirada.
      - Quero registrar a minha viagem, tia - respondeu ela. - H de ser uma boa reportagem! - E, afundando-se na poltrona, comeou a falar baixinho:
      - Hoje, eu levantei s cinco da manh para pegar o avio para Belo Horizonte.  um Boeing, um 737 com muitos lugares e superconfortvel...
      Logo mais So Paulo desaparecia, e o mundo tornou-se de brinquedo, pois l embaixo as estradas pareciam desenhos feitos a giz onde os nibus e automveis corriam 
devagar. . . devagar. Os verdes apresentavam tonalidades incrveis, e lagos e lagoas eram puros espelhos de prata. O sol j ia alto, e as sombras dos montes faziam 
manchas escuras, irregulares. Estavam sobrevoando uma regio de pequenos montes, que se emendavam um atrs do outro.
      - Gostaria de ser um passarinho para sentir o vento batendo em minhas penas - disse Llia, sonhadora. - Os passarinhos tm mais sorte que os homens, no precisam 
viajar engaiolados em caixas de lata!
      Desligou o gravador, pois as comissrias traziam ch, leite, chocolate e caf. Llia escolheu chocolate e recebeu uma bandeja coberta por celofane onde havia 
talheres de plstico, guardanapo, po torrado, gelia, manteiga, queijo mole, queijo duro, bolachas, acar e um delicioso bolo de chocolate com chantilly e cereja. 
Ela devorou tudo e ficou de olho comprido no doce da tia, que no gostava de bolo. Por isso, quando iam recolher as bandejas, Llia, sem cerimnia, esticou a mo 
e pescou o bolo antes que o levassem embora.
      - Voc hoje est bem disposta, no est? - sorriu tia Ninota.
      - Enjeito pancada, mas doce no enjeito, no! - respondeu a sobrinha, lambendo os dedos. Ah, se dona Flvia visse aquilo...
      O vo continuava deliciosamente tranqilo. Agora no se via mais nada l embaixo, seno o branco interminvel do piso das nuvens, pois estavam a 10 000 metros 
de altura. Uma criana chorou l no fundo, e a msica a bordo continuava... enquanto Llia ia pensando: "O que iria encontrar em Ouro Preto?" Sabia ser uma cidade 
histrica, patrimnio no s brasileiro, mas tambm considerada pela Unesco como Monumento Histrico Mundial. Mas como seria a cidade? Llia j havia visto muitos 
postais, revistas, tinha ouvido falar a respeito das famosas igrejas, do barroco mineiro, do Aleijadinho... "Mas o que era tudo aquilo na realidade?" Uma coisa era 
ver fotografias e escutar pessoas falando. Outra, bem diferente, era chegar, ver e apalpar.
      Dali a pouco, ela percebeu que o avio pendia para a frente. O relgio marcava dez para as oito.
      - J estamos chegando - disse a tia, guardando o croch na bolsa.
      - Que rpido! - admirou-se Llia. - De nibus so quase dez horas!
      - Mas de avio so apenas quarenta e cinco minutos, minha querida! - observou a tia. - No se esquea de que estamos viajando depressa como um foguete!
      Llia olhou pela janelinha, o sol bateu-lhe no rosto. O avio descia furando as nuvens. L embaixo, ela avistou o cho montanhoso, escuro. Diferente do verde 
de So Paulo.
      Em Minas, as tonalidades so mais sombrias. Minas possui muitas montanhas de ferro. Seria esse o motivo da colorao diferente?
      Pegando o gravador, recomeou a descrever a paisagem.
      O avio continuava perdendo altura. Agora, ela viu fbricas aqui e ali. Aumentava devagar o nmero de construes enfileiradas em ruas de terra. Mais adiante, 
comeavam as ruas asfaltadas. Estavam, finalmente, sobrevoando Belo Horizonte, a capital mineira! Ali, Llia notou que as ruas eram sinuosas, as casas pareciam as 
da periferia de So Paulo. Por enquanto, no estava vendo nada de barroco por ali, a no ser a sinuosidade das ruas. O avio prosseguiu descrevendo uma ampla curva 
para a esquerda. Ento, Llia pde avistar largas avenidas circundando a capital.
      - Belo Horizonte  uma cidade nova, ainda no tem cem anos - explicou a tia. - Ao ser projetada, o engenheiro traou quatro largas avenidas de contorno, e 
a cidade cresceu dentro dessa moldura. Nesse miolo, todas as ruas so retas, largas, como se fossem traadas a rgua. Mas, depois, quando a cidade comeou a aumentar 
fora das avenidas, veja como o pessoal se divertiu, abrindo ruas tortas que no acabam mais.
      O avio perdia mais e mais altura, estavam quase pousando, quando Llia sentiu um ligeiro estremecimento.  que as rodas tocaram no cho, e as coberturas dos 
motores a jato abriram-se, formando um anteparo que ajudava a frear a aeronave. Com a velocidade bem reduzida, as coberturas foram novamente fechadas. Ento, pelo 
alto-falante, emergiu a voz do piloto agradecendo a preferncia do vo e despedindo-se dos passageiros. Pouco depois, imobilidade total, e abria-se a porta.
      Mais uma vez, as duas foram as ltimas. Tia Ninota seguiu  frente.  sada, a comissria sorridente desejou-lhes um bom-dia. Com isso, elas desceram pela 
escadinha de ferro e caminharam at o edifcio do aeroporto de Lagoa Santa, que, por sua magnificncia, deixou Llia de boca aberta. Sim, de fato, tia Ninota no 
havia mentido; aquela era uma construo de fazer inveja at s linhas aerodinmicas de Braslia!
      Fazia um caloro!
      L dentro, aguardaram o desembarque das bagagens. Havia uma esteira mecnica, giratria, prximo  porta. Ali, eram colocadas as malas, e cada passageiro pegava 
a sua. Tia Ninota plantou-se junto  passarela e permaneceu vigilante,  espera. Nisso, um senhor baixinho, meio careca, foi chegando, foi pondo o p na frente, 
na tentativa de plantar-se diante da tia.
      - Desculpe, caro senhor - disse tia Ninota, com um ar de reprovao. - O senhor no  transparente e est barrando o meu caminho. Por acaso no percebe que 
eu cheguei primeiro?
      Desapontado, o homem pediu desculpas e afastou-se, enquanto Llia comeava a rir. Bem, tia Ninota era mesmo muito franca e, com sua franqueza absoluta, no 
permitia que os outros tirassem farinha!

A cidade-prespio de torres de igrejas
      O carregador  frente com as malas, tia Ninota atrs e, por ltimo, olhando boquiaberta para todos os detalhes do aeroporto de Lagoa Santa, Llia. Aparentemente, 
aquele era um edifcio ainda mais comprido do que o de So Paulo. Ou no seria? Nem deu para a garota examinar todos os detalhes, pois a tia estava com pressa de 
pegar um carro.
      Txis aguardavam passageiros. Tia Ninota foi conversar com um motorista e comeou uma discusso a respeito do preo.
      - Eles pensam que todo mundo  turista! - disse, aproximando-se da sobrinha. - E arrancam a pele, principalmente se percebem que  paulista. O que eles no 
sabem  que, pelo tempo que moro em Minas, j sou quase mineira tambm!
      Entraram num txi marrom e logo rodavam pela avenida que conduz a Belo Horizonte. Como em So Paulo, o aeroporto fica bem distante da capital. Assim, depois 
de vinte minutos, as primeiras casas foram aparecendo. Afundada no banco de trs, Llia admirava aquele mundo novo, diferente,  medida que o carro ia cortando a 
cidade rumo  sada para Ouro Preto. Ao passarem em frente ao Palcio do Governo, o motorista olhou pelo retrovisor e, tendo percebido como Llia estava interessada 
em tudo o que via, ps-se a conversar com ela.
      O cu estava azul, sem nuvens e continuava quente. O carro foi subindo pela avenida, e as construes modernssimas dos bairros elegantes apareceram encravadas 
nos morros.
      - Belo Horizonte  diferente de So Paulo e do Rio - informou o motorista. - no Rio, so as favelas que crescem nos morros. Aqui, so os bairros gr-finos...
      Algumas casas pareciam castelos, via-se todo tipo de arquitetura: telhados pontiagudos, estilo tirols, prdios de apartamentos, casas de pedra e vidro, sustentadas 
por colunas de concreto de mais de cinco metros de altura, com jardim embaixo, tudo enraizado no morro.
      O carro descreveu uma curva.  esquerda, o paredo escuro da encosta do morro.  direita, Belo Horizonte, mergulhada em uma bacia cheia de pequenas colinas, 
sobre as quais espalhavam-se irregularmente as casas. Depois de outra curva, eles tomaram a estrada propriamente dita. Pde Llia observar que as encostas apresentavam, 
agora, um alaranjado brilhante, em contraste com o chumbo-escuro de alguns pontos de terra - presena do minrio de ferro.
      Microfone junto aos lbios, ela foi gravando:
      - A pista de asfalto no  toda dupla. No fundo de um abismo onde comea a Serra del Rei, esto construindo as bases de um novo viaduto para ampliar a pista. 
Menino, como  fundo! Deve medir mais de cem metros; l embaixo corre uma cascatinha no meio de pedras e de muito verde.
      O carro pegou uma descida, e Llia viu que o solo ficava mais escuro, parecia que pesadas nuvens de chuva haviam descido  terra. Ali funcionava a Minerao 
Vale do Rio Verde, que extraa minrio de ferro do corao das sombrias montanhas, cortadas, pela metade, por escavadeiras.
      Mais adiante, pela direita, havia uma churrascaria e um motel. Pouco mais  frente, o posto Retiro das Pedras.
      Tia Ninota e o motorista conversavam animadamente. Llia continuou gravando:
      - Estamos passando diante do Vale do Sol onde uma grande lagoa reflete o cu azul. Como  que as guas conseguem copiar o azul do cu? Isso eu gostaria de 
saber! Ei, espere, o que estou vendo ali? Parece uma muralha de cedros rodeando muitas casinhas brancas. Poxa, que sossego deve ser l dentro! O lugar chama-se Xangri-l.
      Eles passaram pela churrascaria Bar-Rigo. O fundo da paisagem era entrecortado por serras em azul-negro que costuravam o horizonte  terra. Pela primeira 
vez na vida, Llia viu uma roda-d'gua (parada) entre duas mangueiras e um caminho de margaridas brancas, tocadas pelo vento, que pareciam um grupo de crianas brincando.
      - Aqui  a bifurcao da estrada - explicou o motorista. - Pela direita  o caminho para Congonhas do Campo. Para a esquerda fica Ouro Preto.
      Llia esticou os olhos e pensou: "Preciso dar um jeito de conhecer Congonhas tambm..."
      O carro descia mais rpido; logo eles passaram pela Usina Esperana. Pouco depois de uma ponte estava Itabirito, uma cidadezinha crescendo nas encostas do 
morro e poeticamente esparramada no vale.
      - Aqui nasceu um grande tcnico de futebol - falou, 
orgulhoso, o motorista.
      - Qual  o seu time favorito? - perguntou Llia.
      - Como bom mineiro,  claro que sou do Atltico! - respondeu ele, numa gargalhada.
      Pouco a pouco, Llia comeou a perceber que as cidades mineiras eram diferentes das cidades paulistas. Em Minas, tanto as casas quanto as igrejas tinham outro 
estilo: linhas curvas, muitos arabescos, telhas grandes e escuras; enquanto em So Paulo as linhas eram retas e modernas. Em Minas, ela teve a impresso de estar 
mergulhando em um livro de histrias, com as cidadezinhas no vale e as igrejas sempre em um ponto mais alto, como se dissessem: "Lembre-se: estou aqui vigilante 
e firme!"
       esquerda do caminho, viu uma comprida cachoeira branca, descendo por uma longa pedra escura e lisa. Parecia pista de patinao. Pouco depois, o carro passava 
por Cachoeira do Campo.
      Transpondo o rio Maracuj, atravessaram o viaduto Fanuk, perto de uma minerao. Ainda que de concreto, o viaduto apresentava pontos de ferrugem.  que - explicou 
o motorista - a terra, rica em minrio de ferro, provoca aquelas manchas at no concreto.
      - J ouviu falar da Ferrovia do Ferro? - perguntou o motorista conversador ao passarem diante de uma minerao escura onde at as rvores participavam de um 
bailado negro. -  deste cho que sai o minrio de ferro, que o trem leva para o mar, para exportao. Minas  tambm a terra dos minrios!
      Conforme a incidncia do sol, na terra negra brilhavam punhados de estrelinhas. Em certos pontos, os barrancos se transformavam em pura prata. Metros adiante, 
eram de um ouro to brilhante que eles tinham de fechar os olhos. De repente, a paisagem e o tempo mudaram. Uma estranha e sinistra neblina ocultou o sol.
      - Brrrrrr! - fez tia Ninota, esfregando os braos. - O clima de Ouro Preto parece o da So Paulo antiga: garoento, mesmo no vero.
      Soprava um ventinho frio e mido, e a neblina branca descia do topo das altas montanhas. Encantada com tudo aquilo, Llia encheu os pulmes de ar.
      - Preste ateno agora - recomendou a tia.
      A estrada seguia reta. A cada lado, uma montanha altssima coberta de vegetao verde-azulada.
      - Parece que estamos entrando em um palco, e as montanhas so as cortinas laterais! - murmurou Llia, encantada.
      Verdade. As altas montanhas lembravam pilastras sustentando o cu.
      - Chegamos! - anunciou a tia, com alvio.
      O carro venceu uma pequena distncia. De repente, a garota viu, afundada em um vale forrado por um lenol azul-verde-marinho, que subia pela cadeia de montanhas, 
a cidade-prespio, semeada por suas majestosas igrejas e capelas.
      - Meu Deus, que maravilha! - murmurou num sopro de voz. - At parece que estou entrando em um sonho!
      O motorista e a tia deram risada.
      - Pois espere s at ver tudo! - falou tia Ninota. - A, sim, voc vai ver que Ouro Preto  um sonho de verdade. Aqui no existem nem fadas nem mgicos. Mas, 
mesmo assim, vai acontecer uma poro de milagres. Porque esta  a terra do eterno faz-de-conta, sabia?

O sobradinho do Beco da Lapa
      - V devagar, moo, bem devagar! - pediu Llia, pois no queria perder um nico detalhe.
      O automvel diminuiu a marcha, e tia Ninota apontou para o morro  frente onde, contra o contorno claro do cu, apareciam duas pedras: a maior era meio inclinada 
para a frente, parecia proteger a menor.
      -  o pico de Itacolomi - falou ela. - Significa "menino de pedra". A menor no parece uma criana sentada?
      Llia fez que sim.
      - Esse era o sinal para Antnio Dias de Oliveira, o bandeirante paulista, orientar-se, conforme haviam explicado os outros bandeirantes que estiveram aqui 
- continuou a tia, sempre olhando para a frente. - Eles haviam descoberto ouro junto ao riacho Tripu. Por isso, o tal de Antnio Dias resolveu tambm vir procurar 
o ouro fcil. Era de tarde, quando eles chegaram. Fazia mais frio do que hoje, pleno inverno, vspera de So Joo do ano de 1698. Pararam junto ao pico por acaso, 
sem ter noo de onde estavam. No dava para ver nada, tudo fora coberto pela neblina... ali, pois, resolveram pousar. No dia seguinte, procurariam o tal Itacolomi.
      Enquanto a tia ia falando, o nevoeiro dissipou-se, e o sol voltou a brilhar livre naquela manh do comeo de fevereiro.
      - Acho que o bandeirante Antnio Dias teve a mesma sensao que acabamos de ter agora, quando olhou ao derredor na manh do outro dia - suspirou tia Ninota, 
pensativa. - Sua surpresa foi grande porque, por uma estranha coincidncia, eles haviam acampado pertinho do Itacolomi que, na manh limpssima, parecia um gigante 
repousando. E a vista, ento? Todo este vale maravilhoso!
      - Foi assim que nasceu Ouro Preto? - perguntou Llia, gravando todas as palavras da tia.
      - No dia 24 foi fundado o Arraial das Minas Gerais de Ouro Preto e, treze anos depois, o nome seria mudado para Vila Rica - respondeu tia Ninota.
      - E por que o nome Ouro Preto?
      - Alguns anos antes, tinha chegado aqui uma bandeira sada de Taubat. Quando foi tomar gua no ribeiro do Tripu, um mulato encontrou umas pedrinhas pretas 
que pareciam granito e guardou-as como lembrana. Essas pedrinhas acabaram chegando s mos do governador do Rio, um tal de... de... como  mesmo o nome dele? - 
perguntou tia Ninota ao motorista.
      - Artur de S e Meneses - respondeu ele, olhando para o pico. - O governador quebrou com os dentes uma das pedrinhas e viu que l dentro havia... ouro! A, 
espalhou a notcia, e todo mundo ficou maluco para apanhar o tal de ouro preto, que existia  flor da terra. Mas o primeiro a chegar foi mesmo o bandeirante paulista, 
o tal de Antnio Dias...
      - J vi que nesta cidade at as pedrinhas tm histrias! - suspirou Llia. - Sinto que vou gostar muito daqui.
      O motorista esterou o carro e parou por uns momentos. Olhando para trs, Llia viu um nibus de turismo estacionado junto a uma construo antiga e baixa, 
com duas portas  frente. Parecia um rancho de tropeiros.
      -  a rodoviria - explicou tia Ninota, olhando para a mesma direo. Agora, o carro atravessava uma praa calada com pedras irregulares.  direita, via-se 
o fundo de uma grande igreja. O carro parou novamente.
      -  a igreja de So Francisco de Paula - continuou a tia. - Mas vamos deixar o turismo para depois porque no vejo a hora de chegar em casa. Por favor, motorista, 
toque!
      Eles desceram por uma avenida-ladeira, em curva, ao sop de um morro  esquerda. Passando em frente  Santa Casa, o carro prosseguiu atravs de ruas tortuosas, 
estreitas, caladas com pedras iguais s da praa da rodoviria. Com a cabea para fora, Llia no parava de admirar as casas, quase todas geminadas, os sobrados 
de portas altas, janeles, grades, telhados pesados e escuros, calhas, tufos de avencas brotando tmidas entre vos de pedras, portes, batentes largos, o branco 
da cal contrastando com o azul-marinho, o verde-folha, o marrom-caf das madeiras pintadas a leo... Uma encostada na outra, as casas pareciam um conjunto de cartas: 
se voc empurrasse a primeira, teria a impresso de que tudo iria desabar. As construes subiam e desciam ladeiras. O piso da porta de uma casa estava na altura 
do telhado da construo vizinha. . .
      - Meu Deus, neste mundo das mquinas, como pode ainda existir um lugar igual a esse? - perguntava Llia, cada vez mais encantada.
      O automvel passou prximo a uma igreja branca com recortes em marrom-avermelhado. As duas torres terminavam por pontas, como agulhas. A escadaria da porta 
central era protegida por um porto de ferro escuro com apliques dourados.
      - Esta  a Matriz de Nossa Senhora da Conceio de Ouro Preto, tambm conhecida como a Matriz de Antnio Dias - falou tia Ninota. - Agora, vamos, ponha a cabea 
para dentro, menina! No tenha pressa, voc vai ter tempo de sobra para namorar Ouro Preto. Moramos aqui pertinho, no Beco da Lapa...
      O carro estacionou em frente a um simptico sobradinho branco com portas e janelas azuis. Cada janelo tinha um balco de ferro  frente, e, na parte de baixo, 
trabalhava um relojoeiro. Llia j apanhava as malas quando escutou uma voz do alpendre, l de cima:
      - Dona Ninota do cu, que bom que a senhora voltou! 
      Era uma mulher preta, magra, de leno vermelho na cabea. Desceu os degraus de pedra meio capengando, atravessou o pequeno jardim lateral e saiu na rua.
      - Candinha! - e a tia abraou carinhosamente a empregada. - Quero apresentar-lhe minha sobrinha Llia, filha do Rui. Lembra-se dele?
      - Nossa, ela t uma moona bonita de fazer gosto! - Candinha levou a mo ao rosto. - A ltima vez que a vi foi l em Belo Horizonte. Ela era um catatauzinho 
choro de dois ou trs anos, bem me lembro!
      - Oi, dona Candinha! - cumprimentou Llia, sorrindo.
      - Vamos entrando, vamos entrando que hoje fiz broinhas de polvilho doce. At parecia estar adivinhando que ia chegar visita - disse a empregada, seguindo para 
a escada.
      Llia subiu correndo os degraus de pedra. O corao batia apressado quando chegou ao alpendre do piso superior, todo circundado por um gradil de ferro pintado 
de azul. A porta, alta e grossa, era presa a um batente de mais de palmo de espessura e abria-se para uma sala arejada por trs janelas que davam para a rua e uma 
para o jardim. Debaixo desta ltima, agarrava-se um jasmineiro florido. O perfume das estrelinhas brancas era suave naquela hora da manh, quase dez. O piso da sala 
era de tbuas to largas quanto as do forro, e os mveis pesados, antiqssimos.
      - At parece que entrei em um filme do tempo dos piratas! - exclamou Llia, acompanhando a empregada para o quarto de hspedes, o da frente. Deixando as malas, 
ela correu at uma das janelas e debruou-se. Lindo! Na perspectiva, a rua perdia-se em curva, e as casinhas emendavam-se em vrias cores. Viu placas dependuradas 
com ornatos de ferro, e algum assobiou: era o relojoeiro trabalhando no cmodo de baixo.
      A cozinha grande e aladrilhada ficava no piso inferior, nos fundos da casa. Para chegar l, descia-se por uma escada tambm de pedra. O fogo caipira, vermelho-escuro, 
deixava escapar uma fumacinha, e a chama da lenha lambia as panelas de ferro. Ao centro, uma comprida mesa com toalha alva e louas brancas, grosseiras. Coberta 
por uma toalha de croch, as deliciosas broinhas de polvilho doce ainda estavam quentes. Foi ali que Llia e tia Ninota sentaram-se para um delicioso cafezinho coado 
na hora, enquanto o gato cor de mel dormia preguioso no rabo do fogo.
      Llia passou o restante da manh desfazendo as malas, conhecendo cada cmodo, olhando daqui, mexendo de l, cheirando as flores do jardim e fazendo mil perguntas.
      Almoaram s onze e meia. J haviam terminado a sobremesa quando ouviram palmas  porta.
      - Deixem que eu vou ver - anunciou Candinha, arrastando as chinelas folgadas e saindo pela porta dos fundos.

As Tetets
      Era uma garota baixinha, de cabelos pretos, crespos e uma franja comprida, eriadssima. Usava camiseta, calas jeans, tnis e uma bolsa de croch dependurada 
ao lado. Mida, eltrica, olhos acesos.
      - Ol, dona Ninota, fez boa viagem? - perguntou, aproximando-se para dar um beijo na velha.
      - Tampinha, voc caiu do cu! - disse a tia, depois do abrao. - Eu estava mesmo pensando em voc para conhecer a minha sobrinha Llia, que acaba de chegar 
de So Paulo. Llia, essa  a Tampinha, a minha sobrinha "adotiva"...
      - "Transmimento de pensasso" - brincou Tampinha, piscando e aproximando-se de Llia. - Quando a minha "tia" Ninota pensa aqui, eu capto a mensagem l... e 
obedeo. Como vai?
      Em questo de poucos minutos, as duas j se tinham feito amigas. Foi Tampinha quem convidou Llia para um passeio.
      - Vamos dar uma volta, tia Ninota - disse, quando a mulher saiu do quarto, meia hora depois. - A gente volta ainda hoje, t?
      - Antes das cinco! - retrucou a tia, erguendo o dedo. - A escrita desta casa quem controla sou eu!
      - Aqui o tempo no existe - falou Tampinha, quando as duas desciam pela ladeira. - Pelo menos nas frias. Voc devia conhecer Ouro Preto no tempo de aulas. 
Ia curtir muito mais gente. Agora, as repblicas esto vazias porque o pessoal foi para casa.
      - Repblicas?
      - Casas de estudantes. Veja, ali na esquina est o "Hospcio". Mais adiante,  a "Estalagem Maldita". Cada um inventa um nome para a sua repblica. Os mais 
"pirados" fazem bandeiras e hasteiam, outros pintam brases...  muito folclrico.
      Continuaram descendo devagar at que, virando a esquina, entraram por um corredor de uma casa comprida. Ali, moravam as irms Tereca e Tunica. Tampinha foi 
entrando como se a casa fosse dela, apresentou a me das garotas a Llia e, eltrica, dirigiu-se ao quarto onde as duas irms estavam lendo. Tunica, de cabelos mais 
claros, olhos esverdeados e rosto cor-de-rosa, era magra. Tereca, ao contrrio, de cabelos e olhos castanhos, gorda, risonha e molengona, devorava uma caixa de bombons. 
Tunica falava bastante. Tereca s dizia um sim ou no de vez em quando.
      Em meia hora, depois de um caf coadinho na hora, as quatro saram para o passeio inaugural.
      - Vamos dar uma de turistas, meninas - decidiu Tampinha, com o dedo erguido. - Mostrar  paulista o que  que Minas tem!
      - Est um caloro! - gemeu Tereca se abanando. - A gente podia deixar para sair mais tarde...
      - Esgotou-se o falatrio da lesma reclamona por hoje - suspirou Tunica. - No podemos andar muito depressa ou a molengona  capaz de ficar derretida por a.
      Razo tinha Tereca em reclamar da hora. E nas ladeiras, ento? Quando era para subir, sempre a ltima, vinha bufando, se abanando, vermelha e suarenta. Quando 
era para descer, ao contrrio, abria os braos e apitava:
      - Sai da frente, gente, se no querem que o trator passe por cima!
      - Sabe como se chama o nosso grupo? - perguntou Tampinha, subindo devagar uma ladeira.
      Llia encolheu os ombros. No era mole subir aquelas ladeiras, no!
      - As Tetets. Eu explico: Tampinha, Tereca e Tnica comeam com T, no comeam? Pois, a est! Ainda bem que seu nome comea com L, porque se no...
      - ...ia ficar o grupo das Tet-tets! - ajuntou Tunica, caindo na risada.
      Naquela tarde, no deu para elas verem muita coisa. Foi mais um passeio geral para Llia ter uma idia da cidade. Passando pelo Mercado Novo, elas desembocaram 
na praa Tiradentes. Ali, Llia parou e ficou observando. A praa, ampla, tambm era calada com pedras irregulares. No centro, em plano alto, havia o monumento 
com a esttua de Tiradentes.
      - Durante o carnaval o povo senta ali, no pedestal, e fica observando as pessoas brincando em toda a praa - falou Tampinha. - Veja: l est armado o palanque 
em frente ao Museu da Inconfidncia. Eles pem os enormes alto-falantes para tocar no mximo... e o povo dana na rua.
      Os olhos fixos de Llia estavam cravados no museu, a imponente construo fechando a praa, com a frente voltada para a esttua de Tiradentes. Um casaro de 
dois andares com oito janeles em cada pavimento, tendo, ao centro, uma alta torre com um relgio. Uma escadaria lateral de pedra conduzia  entrada.
      - E pensar que ali, antes, foi cadeia! - suspirou Tereca, coando a cabea.
      - Aqui tambm foi praa de se vender escravos - ajuntou Tunica, com o rosto mais suado por causa do calor.
      - Olhe l para trs, Llia - sugeriu Tampinha, segurando a nova amiga pelo brao. - Est vendo aquela construo que parece um castelo comprido fechando a 
praa? Tem at guaritas para sentinelas, projetadas para a frente, v? Pois, antigamente, era o Palcio dos Governadores. Hoje,  a Escola de Minas e Metalurgia, 
tem mais de cem anos...
      Llia ficou admirando o imponente palcio. Acima e bem atrs dele, em outro plano, via-se um morro protetor, barrando o vento. Para a esquerda, a avenida rumo 
 rodoviria.
      - J imaginou o palcio todo iluminado quando havia bailes? - perguntou Tampinha, sonhadora. - Damas e cavalheiros chegando de cadeirinha carregada por escravos, 
de carruagens; os juizes com cabeleira branca, casaca de veludo; as damas de vestido comprido, estilo Maria Antonieta...
      - Devia ser um caloro! - xereteou Tereca.
      - O calor era tanto que derretia a cola usada para fixar a peruca na cabea - ajuntou Tunica. - Li isso num livro, uma vez. J pensaram, ficar danando com 
a cabea melada?
      Elas riram.
      - Vamos continuar pela antiga rua Direita - sugeriu Tampinha. - Era uma das ruas mais movimentadas ao tempo da Inconfidncia...
      Llia achou curioso os casares onde, em outros tempos, funcionavam tavernas, ferrarias, armazns, abrigarem agora farmcias, restaurantes, reparties pblicas, 
bares, lojas, butiques, supermercadinhos etc. - o atual em gritante contraste com o antigo. Havia muitos automveis nas ruas e turistas passeavam de shorts, sem 
camisa, curtindo o sol.
      Duas quadras abaixo, elas dobraram para a direita, seguindo pela rua Tiradentes. Perto da esquina da antiga rua das Flores havia um chafariz entalhado em pedra. 
Depois de lavarem as mos e o rosto - e Tereca adorou a gua fresquinha! - elas passaram por um sobrado todo branco com grades e madeiras pintadas em azul-marinho. 
No andar de baixo funcionava a Caixa Econmica Federal. Do outro lado, uma vendinha. Uma placa dourada dizia ter sido ali a casa de Tiradentes.
      - S que no era este sobrado - explicou Tampinha. - A casa de Tiradentes era de um andar s e foi derrubada depois de sua morte. Dona Maria, a rainha de Portugal, 
como castigo pelo crime de conspirao, mandou tambm salgar o terreno para ali no crescer mais nada. O sobrado foi construdo depois.
      Da janela do sobrado, via-se um morro to alto que parecia uma muralha engolindo Ouro Preto. Por alguns momentos, Llia ficou olhando para aquela mesma direo, 
imaginando quantas vezes Joaquim Jos no teria contemplado a mesma paisagem.
      Prosseguindo o passeio, passaram por uma outra construo muito antiga.
      - Essa casa tem quase duzentos anos - disse Tunica. - Foi construda para residncia de um tal de Joo Rodrigues Macedo, cobrador de impostos. Mas, como o 
Joo no fez chegar s mos da rainha os impostos que tinha recebido, os portugueses tomaram-lhe a casa. Com isso, o casaro passou a servir de abrigo  infantaria 
que tomava conta da cidade. . . Anos mais tarde, foi ampliado, passando a funcionar a a Casa da Fundio do Ouro. Tambm foi sede do correio. Hoje  o Centro de 
Estudos do Ciclo do Ouro.
      - Quando houve a conspirao mineira para o Brasil se libertar de Portugal, o poeta Cludio Manuel da Costa ficou preso nesse casaro - ajuntou Tereca, dando 
mostras de conhecer a histria de sua cidade. - De l, o coitado do velho advogado s saiu morto! Dizem que ele se suicidou, mas outros falam que foi mesmo  assassinato. 
A verdade nunca vai ser apurada.
      Elas atravessaram a ponte dos Contos, ao lado da Casa dos Contos, debaixo da qual corria um riacho estreito. Depois, subiram por uma ladeira curva em direo 
 igreja de So Jos, que estava sendo restaurada. L dentro, pedreiros retocavam o reboco, trocavam as tbuas carunchadas e refaziam os altares. Dali, subiram uma 
ladeira reta, acentuadssima, onde Tereca ps a lngua de fora. Assim, chegaram em frente  igreja de So Francisco de Paula, em cuja torre esquerda havia uma relgio. 
Da escadaria do adro, elas puderam admirar Ouro Preto l embaixo, tranqila ao sol, em fins do sculo 20. A paisagem, porm, continuava a mesma de duzentos anos 
atrs. Contornando a igreja, Llia verificou que a rodoviria ficava bem atrs. Era ali que ela havia parado de carro de manh.
      - Melhor comearmos a descida - sugeriu Tampinha. - Tia Ninota ergueu o dedo e disse que tnhamos de estar de volta antes das cinco. E, quando ela marca hora, 
no est brincando.
      Conversando animadas, as quatro amigas seguiram pela avenida que passava em frente  Santa Casa - o mesmo caminho que Llia havia feito poucas horas antes. 
Dali, a passos lentos, foram em direo ao Beco da Lapa, para o sobradinho onde morava tia Ninota.
10
Gonzaga e Dorota
      Aquela noite, depois do jantar, Llia telefonou para So Paulo. Como o pai chegava s sete e queria conversar com ele, ficou ansiosamente esperando o relgio 
dar as sete badaladas.
      - Aqui est tudo uma delcia e j fiz trs amigas muito engraadas - disse, ao despedir-se. - Gosto muito de voc!
      Quando dona Flvia entrou na linha, Llia ficou muda por alguns momentos. Falar espontaneamente com a me era o que ela no conseguia. Mas, mesmo assim, disse 
que estava adorando Ouro Preto. Ao desligar, sentia-se deprimida. A me no havia tocado no nome de Marcos Csar. Porm, pelo tom da conversa, era evidente que ela 
no aprovava aquela viagem da filha.
      Para afugentar os pensamentos, Llia deu meia-volta e foi conversar com tia Ninota, que fazia croch na sala. Ficaram batendo papo at s sete e meia, quando 
escutaram um: "D licena?"
      Era Tampinha. Toda de vermelho, entrou explicando que o astral dela estava meio baixo; por isso, tinha escolhido aquela cor quente para animar.
      - Vamos dar uma voltinha e no uma voltona, tia Ninota - explicou, ao despedir-se da tia adotada.
      - Nove e meia em ponto aqui - declarou a velha, olhando por cima dos culos. - Voc j sabe como  a escrita comigo, no sabe?
      Depois que Tampinha beijou tia Ninota, Llia tambm beijou-a. Estranho! Foi um gesto impensado! At ento, ela nunca havia beijado espontaneamente a tia! Porm, 
o gesto da Tampinha foi to natural que, sem querer, Llia fez igual. Com isso, ps-se a pensar: "Ser que o amor  assim mesmo, aprendemos sem perceber e precisamos 
de algum que nos ensine como fazer?"
      Desceram pela ladeira.
      - Onde vamos? - perguntou Llia.
      - Primeiro, buscar as duas lesmas. Depois...  surpresa!
       luz eltrica, as casas de Ouro Preto tinham um aspecto misterioso. Os janeles escuros esticavam-se mais para o alto, as ruas curvas pareciam ocultar em 
cada esquina fantasmas vagueando em busca de recordaes. O cu estava estrelado.  distncia, os morros escuros lembravam silhuetas de escravos adormecidos depois 
de um dia de trabalho.
      Descendo pelo Beco da Lapa, elas tomaram a rua Conceio, passando pelo lado da matriz de Antnio Dias. Dali, subiram por uma inclinadssima ladeira, a antiga 
rua do Ouvidor, passaram pelo Mercado Novo - um piso cimentado  esquerda. A cem metros, toda branca, iluminada contra o fundo estreladssimo da noite, erguia-se 
a imponente igreja de So Francisco.
      - No  linda? - suspirou Tampinha, fazendo pausa para um flego. - Atrs dela est o Museu da Prata com obras do Aleijadinho. Qualquer hora a gente vem visitar...
      Llia fez que sim. Depois, Tampinha falou do casaro onde elas estavam encostadas. As janelas da casa rosada olhavam de frente para a igreja de So Francisco. 
A expresso de Tampinha era meio triste:
      - Nesta casa morou o poeta Toms Antnio Gonzaga - disse. - O Poeta da Inconfidncia. J ouviu falar dele?
      - Sim, quando estudei Histria...
      - No  a mesma coisa! - rebateu Tampinha. - Quando a gente estuda Histria, tudo  frio, somos obrigados a decorar nomes e datas. Por isso, a gente acaba 
perdendo o interesse. Aqui em Ouro Preto  diferente, porque voc tem a impresso de que todas essas pessoas ainda esto vivas, passeiam entre ns, conversam, amam, 
riem, choram... e a morte no as levou. Escute, voc acha que sou maluca?
      - Por qu? S por, estar sonhando com os olhos abertos?
      - ! Os jovens de hoje no curtem essa de sonhar, mas eu curto, sou romntica. No  pra qualquer um que abro meu corao, sabe? No gosto de gozao. Mas 
voc tem jeito de tambm ser romntica.  por isso que me abro sem medo.
      - Gosto de sonhar porque alivia os ps cansados de s andarem na terra - respondeu Llia.
      Tampinha continuou acariciando a parede da casa cor-de-rosa:
      - Gonzaga era filho e neto de brasileiros. Como naquele tempo no havia universidades no Brasil, estudou em Portugal, onde foi juiz em uma pequena cidade. 
Voltou para o Brasil quando estava com trinta e oito anos. Vinha ser juiz em sua prpria terra.
      - Trinta e oito anos?
      - Era um sujeito alto, bonito, sonhador... - Tampinha suspirou. - Juiz poeta, romntico, um homem que se preocupava muito com a sorte do povo. Naquele tempo, 
o Brasil vivia achatado pelos mandos da rainha de Portugal, D. Maria, a Louca, sabe? Minas sempre foi a terra do ouro, e Portugal estava cobrando o quinto, isto 
, um imposto atrasado. Quinto porque, de tudo que se produzia aqui, uma quinta parte devia ser entregue, obrigatoriamente,  corte portuguesa...
      - Eu sei - disse Llia.
      - Pois , o povo estava com o imposto atrasado. O governador, Cunha e Meneses, era um mando, puxa-saco da rainha, tirava o sangue do pessoal. Todos estavam 
aflitos, imagine! A cidade devia quase cinco arrobas de ouro!
      Enquanto a amiga ia dizendo aquilo, Llia olhou para a casa. Tentava imaginar o juiz observando a igreja, bem  frente, que, naquele tempo, estaria sendo construda. 
"Ser que ele dava umas olhadas para as garotas que passavam pelas ruas? Como tudo deveria ser diferente naquele tempo!"
      - Como juiz, Gonzaga sabia como o povo estava sofrendo - continuou Tampinha, endireitando a franja. - A, comeou a fazer poesias criticando tal situao. 
Escreveu Cartas Chilenas, um protesto contra o mandonismo portugus. Naquela poca, tinham de fazer tudo dissimulado ou o sujeito ia preso como traidor. Gonzaga 
precisou chamar as cartas de chilenas porque, se as chamasse mineiras, acabaria na cadeia! Onde j se viu um juiz, o representante da rainha, criticar a prpria 
rainha?
      - ...
      - Tampinha deu um profundo suspiro e revirou os olhos.
      - Ela estava com dezesseis anos quando viu o juiz pela primeira vez. Imagine s o impacto: uma adolescente sonhadora, bonitinha, de cabelos tranados, comeando 
a conhecer o mundo e, de repente. . .   tchantararam! - l estava ele, imponente como o Pico de Itacolomi! De p, os olhos faiscantes, em sua elegantssima casaca 
de veludo azul-marinho, colete de seda, gravata de renda!
      - Ela quem? - perguntou Llia, admirada.
      - Maria Dorota Joaquina de Seixas...
      - Ah!
      - Menina, foi amor-coisa-de-louco! Imagine s: garota da mesma idade nossa de repente d de encontro com o homem de sua vida! No  para o corao disparar? 
Se ! Pense em voc virando a esquina e topando com o... o... qual  o artista de cinema que faz o seu corao dar pinotes?
      - Robert Redford - respondeu Llia, pensativa.
      - Eu prefiro o Paul Newman, ai, aqueles cabelos grisalhos me do um arrepio! Ento, pra repartir os gostos, vamos imaginar a gente topando essas "coisas" ali 
paradas, olhando, sorrindo...  e esperando. Meu Deus, derrete at chumbo!
      - Acho que derrete mesmo! - concordou Llia.
      - A, comeou aquele romance maravilhoso deles. Eram bailes, festas... uma beleza! Gonzaga escrevia poesias que a escrava levava para Dorota. Ela morava l 
pra baixo - qualquer dia a gente vai conhecer o lugar - e Tampinha ficava toda suspirosa. Foi coisa de louco! A Itlia  a terra de Romeu e Julieta. Ouro Preto  
a terra de Gonzaga e Dorota. Apesar disso, a gente escuta falar mais do Romeu e da Julieta do que do Gonzaga e da Dorota. Sabe por qu?
      - No...
      - Porque ns, brasileiros, temos essa mania boba de s admirar as coisas dos outros! Se a gente parasse um pouco e pensasse em tantas coisas lindas que temos 
no Brasil, ento o mundo todo iria saber a grande histria de amor daquela garota com o juiz de olhos brilhantes!
      Assim dizendo, Tampinha retomou a caminhada, subindo em direo  praa Tiradentes, agora mais colorida pela presena da luz eltrica. Os casares de dois 
andares que fechavam as laterais da praa dormiam com as janelinhas-plpebras fechadas.
      - Acho que a gente devia exportar Gonzaga e Dorota para o mundo - continuou Tampinha, enquanto atravessavam o largo em direo  antiga rua Direita. - E no 
 s eu que acho, no! Ns achamos e estamos tentando isso.
      - Ns? - repetiu Llia, admirada. - Ns quem? 
      Tampinha piscou o olho negro:
      - O pessoal do teatrinho.
      - Tampinha, eu no estou entendendo nada!
      
      -  que no lhe contei: ns criamos um grupo de teatro de fantoches.  o Grupo da Pedra-Sabo. Mas, agora, no vou dizer mais nada. Seno, quebra o impacto 
da surpresa, uai!
      - Voc  mesmo impossvel! - retrucou Llia, franzindo a testa.
      - O bonito da vida so as surpresas - declarou Tampinha. - No fossem elas, j imaginou como o mundo seria uma chatice?
      Assim dizendo, calou-se. Pensativa e silenciosa, Llia continuou caminhando ao lado da amiga. Tampinha tinha toda a razo: a vida precisa ter surpresas para 
ser mais colorida.

O teatro de fantoches do Grupo Pedra-Sabo
      Depois de passarem pela Casa dos Contos, as duas atravessaram a ponte dos Contos e seguiram pela rua Tiradentes. No alto do morro,  frente, majestosa como 
uma sentinela, erguia-se a vigilante igreja de So Jos.
      - Engraado o costume aqui. Ao lado de cada igreja, ou ligado a ela, existe um cemitrio - comentou Llia. - At parece a Europa!
      -  verdade! - concordou Tampinha. - Cada igreja, cada irmandade, tem o seu cemitrio prprio. Tempos atrs, quando a Igreja era o grande poder poltico, todas 
as irmandades procuravam construir seu templo mais bonito, mais suntuoso do que os outros. Isso porque, quanto mais rico o templo, mais importante a irmandade. Assim, 
o reflexo desse poder ficou registrado nas construes de nossas igrejas. Sabe que em Ouro Preto todas as pessoas devem pertencer a uma determinada irmandade? Ou, 
quando morrerem, no tm onde ser enterradas...
      - ?
      Sempre conversando, elas chegaram ao pequeno largo da Alegria. Dali para baixo, havia uma ladeira acentuadssima. L no fundo, fechando a praa, a igreja de 
Nossa Senhora do Pilar.
      - Aquela  a mais rica de todas - comentou Tampinha. - Ali existe um grande museu que voc precisa visitar. Antigamente, era nela que os governadores tomavam 
posse.
      As duas desceram a ladeira pelo lado esquerdo onde havia uma calada com degraus espaosos para quem no quisesse enfrentar o declive. No haviam caminhado 
muito, quando Tereca e Tunica apontaram  porta de uma casa, naquele lado da rua.
      - Oi, o que  que vocs esto fazendo a? - perguntou Llia, admirada.
      -  a surpresa! - disse Tampinha, indicando a casa para que Llia entrasse. - Venha conhecer a sede do nosso Grupo Pedra-Sabo.
      Um pequeno alpendre, uma porta, um salo onde os mveis estavam encostados  parede para dar mais espao. Havia duas janelas dando para a rua e uma porta, 
vedada por uma cortina, que se comunicava com um cmodo.
      Tereca foi entrando e chamando por dona Maria do Carmo.
      - Cad o Dirceu? - perguntou Tampinha a Tunica.
      - Quando a gente chegou, j tinha sado. Dona Maria do Carmo disse que ele foi  casa do Vanderci. No sabe a hora que volta.
      - Que pena! - e Tampinha coou a franja. - Justo hoje que eu queria que ele mostrasse o teatro pra Llia!
      S ento Llia viu na parede uma boca de palco de quase dois metros. De altura, o palquinho tinha um metro e vinte, e as cortinas vermelhas com franja amarelo-ouro 
estavam abertas. No fundo, um cenrio. Entretanto, o que mais chamou a ateno dela foi uma srie de fantoches dependurados na parede. Todos nas mais incrveis posies. 
Cada fantoche media cerca de meio metro e estavam vestidos com roupas tpicas de sculos atrs.
      - Voc no est entendendo nada, no ? - perguntou Tampinha. - Pois eu explico: este  um palco desmontvel para as nossas apresentaes. Como vm muitos 
turistas a Ouro Preto e todos querem conhecer nossa histria, resolvemos formar o teatro de fantoches para representar a histria de Ouro Preto!
      - Foi um trabalho! - emendou Tunica, suspirosa,
      - Tivemos de fazer mil pesquisas, mil entrevistas, ler mil livros, ferver a cuca para chegar at onde chegamos.
      - Que barato! - murmurou Llia, admiradssima.
      - E como funcionam os fantoches?
      Tampinha pegou um deles. Da cabea saa um corpo negro coberto por uma camisa. Na extremidade das mangas compridas estavam fixas as mos. Na cintura estavam 
presas as calas. As pernas eram costuradas por cima, na frente do corpo, em tecido negro. Quando Tampinha enfiou a mo dentro do corpo, introduziu o dedo indicador 
na cabea do fantoche. O polegar e o pai-de-todos foram enfiados nos braos esquerdo e direito. Assim, mexendo os dedos, ela fazia o boneco mover os braos e inclinar 
a cabea como se tivesse vida.
      - Que bonitinho! - riu-se Llia, encantada.
      - Veja agora... - disse Tampinha, dirigindo-se at a parte de trs do palco, onde ficou de p. Ali, erguendo o brao, deixou o boneco  vista do espectador. 
Afastando-o de um lado para outro, movimentava-o. Com os grandes olhos negros arregalados, Llia ficou assistindo maravilhada, como se fosse uma garotinha de quatro 
anos de idade.
      - Tunica, pegue a viscondessa de Sabugosa... - mandou Tampinha.
      - Tunica enfiou a mo no corpo de um fantoche de vestido de veludo vermelho, blusa de renda, bolsinha na mo, cachos negros e chapu florido.
      - Eu estou segurando Jos lvares Maciel - explicou Tampinha. -  um jovem mineiro, aqui de Vila Rica, que acaba de chegar de Portugal, onde esteve estudando. 
Tem vinte e oito anos, vive sorrindo e veste-se com a maior elegncia. Ele participou da Inconfidncia Mineira.
      - E quem  a viscondessa? - quis saber Llia.
      - Afinando a voz, Tunica comeou a mover a fantoche. Respondeu como se fosse a prpria viscondessa falando:
      - Meu nome  Ana Rosa Jos de Melo. Sou a filha mais velha do Marqus de Sabugosa. Casei com Lus Furtado de Mendona, o visconde de Barbacena. Atualmente, 
sou a viscondessa de Barbacena. Estamos chegando a Ouro Preto neste ano de 1788, e nosso dever  cobrar o imposto atrasado que vocs, brasileiros, esto devendo 
a Portugal. Meu marido representa a rainha portuguesa, D. Maria I! - concluiu a viscondessa, erguendo o nariz.
      - Senhora, senhora! - falou Tampinha, movendo o fantoche Jos lvares Maciel como se o prprio corresse atrs da viscondessa. - O taverneiro mandou perguntar 
o que deseja para a refeio de hoje: ganso  caperota ou perum em botinas com coxas recheadas por trutas? Ou, talvez... vitela nova com salpices? Quem sabe uma 
codorniz com molho a Conde da Saxnia? Ou molho de marfim?
      - Oh! - e a viscondessa afetada ergueu o lencionho diante dos olhos. - Aqui nesta tasca, neste fim de mundo, no meio  da estrada que liga o Rio de janeiro 
s minas de ouro, posso  mesmo contar com to deliciosas iguarias? Pois, ento, desejo um delicioso vinho para regar todos esses pratos. E, para minhas crianas, 
claro, um copo de leite de cabra. Bem morno!
      - Sim, senhora! As ordens de vossncia sero executadas  risca!
      - Assim dizendo, Tampinha puxou o boneco, retirando-o do palco. A viscondessa de Barbacena suspirou e disse:
      - No sei se me acostumarei a esta terra to diferente e to distante do meu Portugal! Meu marido acaba de chegar para forar esta gente a pagar cinco arrobas 
de ouro, imposto atrasado. Lgico que acabar caindo na antipatia de todos. A, adeus meu vinho do Porto! Acho que vou ter de me contentar mesmo  com um... copo 
de cachaa!
      - Fingindo soluar, saiu de cena.
      - Lindo, lindo, lindo! - aplaudiu Llia, caindo na risada. - Adorei ver a viscondessa aderindo  cachaa! Poxa, Tampinha, sabe que cheguei a sentir que eram 
mesmo os fantoches que estavam falando? Sensacional!
      - Tampinha e Tunica saram rindo detrs do palco. Com isso, pde Llia pegar o fantoche da viscondessa para examin-lo.
      - Que trabalho fazer toda esta roupa! - exclamou.
      - Que capricho! Quem que fez?
      - Naquele momento, algum levantou a cortina do vo da porta e apareceu Tereca, acompanhada por uma mulher.
      - Foi dona Maria do Carmo, a costureira do grupo - respondeu a gorda Tereca, cedendo passagem  mulher.
      - Ainda segurando a viscondessa, Llia olhou. Dona Maria do Carmo no era muito alta. Mulata cor de canela, cabelos anelados, olhos negros e espertos, lbios 
carnudos. Vestia-se com simplicidade e usava chinelo. Feitas as apresentaes, Llia comeou uma chuva de perguntas. A tudo dona Maria do Carmo respondia com sossego. 
Era uma pessoa extremamente bem-humorada.
      - No foi to difcil fazer os trajes! - explicou. - O Dirceu, meu filho, desenhou os modelos que os meninos procuraram nos livros. Quando no tnhamos livros, 
amos ao museu, aqui mesmo. Era s examinar as roupas antigas. Enquanto os rapazes pintavam os cenrios, faziam as carruagens, as cadeirinhas, o palco, ns amos 
cortando os tecidos e costurando. Mas no pense que as meninas no ajudaram a pregar pregos nem que os rapazes deixaram de costurar! Nada disso! Eles tambm costuraram. 
S que saiu um servio mais grosseiro porque eles no tm tanto capricho quanto as meninas. Foi assim, com muito trabalho, que conseguimos montar todos os fantoches...
      - Llia deu uma rpida olhada na coleo dependurada na parede.
      - No fosse o Dirceu, a gente nunca teria feito nada - comentou Tampinha. - Toda a idia do teatro foi dele. Ele quem ps fogo na gente, quem incentivou, quem 
no nos deixou desistir. Se ficssemos ss, juro que no teramos conseguido nem a metade! O teatro  o Dirceu!
      - Dirceu? - perguntou Llia, curiosa.
      - Pena que meu filho no est em casa - disse dona Maria do Carmo. - Ele foi at  casa do Vanderci. Quando os dois se pegam de conversa, ele nunca volta antes 
da meia-noite.
      - Que pena mesmo! - murmurou Llia, desapontada.
      - Eu gostaria muito de conhecer essa cabea inteligente que foi capaz de bolar uma idia maravilhosa dessas!
      - Dona Maria do Carmo nem teve tempo de responder porque Tereca j entrava na conversa. Enquanto isso, Tunica puxou Llia, pois queria que ela visse um fantoche 
que havia vestido sozinha: uma tal de Bernardina Quitria. Era a portuguesinha de cabelos negros que tinha sido apaixonada pelo poeta Gonzaga. A maior rival da jovem 
Maria Dorota Joaquina de Seixas.

Quem  Dirceu?
      Deitada na cama de cabeceira alta, Llia mordia a ponta da esferogrfica.  sua volta, paredes de reboco grosso, pintadas a cal, e forro de tbuas largas em 
cinza-aperolado. Um monstro de guarda-roupa com folhas to pesadas quanto a porta, tapete de croch feito pela tia, e janeles fechados voltados para a rua. To 
diferentes de So Paulo, do mundo onde ela vivia! Em casa da tia Ninota cada pea tinha um significado especial. Em cada detalhe sentia-se a presena de mos trabalhando, 
tecendo, pintando, costurando. Cada objeto possua uma histria, uma individualidade. Em So Paulo? Nem pensar! L tudo era em srie, despersonalizado, comprado 
feito. Bastava ir a um shopping center, pagava-se o olho da cara e pronto. Em casa de tia Ninota, no! At a colcha de retalhos tinha vida. Cada retalho era um pedao 
do passado da tia, escolhido entre as sobras do ba. Foi ela quem costurou quadradinho por quadradinho. Olhando para a colcha, ela seria capaz de dizer: "Usei esse 
vestido quando fui visitar a prima Carminha; aquele outro foi para o Natal de mil novecentos e..."
      L fora caa a chuva, lavando as ruas para o dia seguinte. Chuva de vero. O relgio da sala ainda no havia batido dez e meia.
      "Quem ser Dirceu?" - perguntou-se Llia, pensativa. Essa pergunta repetia-se em seu peito desde o momento em que soubera ter sido ele a alma do teatrinho. 
Devia ser um rapaz especial, capaz de enxergar coisas que os rapazes comuns no enxergam. Diferente de Marcos Csar, que s sabia falar de dinheiro e futebol. Para 
Marcos Csar, o valor das pessoas se mede pelos ttulos e pelo cifro. Mas Dirceu no podia ser um rapaz assim! No! Ele deveria saber dar  colcha de retalhos de 
tia Ninota o valor que ela merecia. Marcos Csar? Jamais! Em vez de admirar a beleza, logo perguntaria: "Quanto custa?"
      De repente, ela comeou a escrever:
      "Os chafarizes, as pontes, os regatos, as esquinas, aqui, eles falam!
      Nas sombras dos janeles e portas das velhas casas, o fantasma da Histria passeia, procurando ouvintes...
      A carinhosa chuva lava os telhados que se apiam, unidos como crianas de mos dadas.
      Em cada pedra-saudade destas ruas, eu vi e ouvi a dana dos anos; a dana da alegria triste e da tristeza alegre; a dana dos grandes amores!
      Quem foi Gonzaga?
      Quem foi Dorota?
      E onde esto... agora?"
      Fez uma pausa, pensou mais um pouco e acrescentou, finalizando:
            "E quem ser... Dirceu?"
      Depois assinou, fechou o caderno e apagou a luz. Puxando as cobertas, ficou escutando a chuva pingando at adormecer.
      Na manh seguinte, Llia despertou com uma fome danada. Atirando longe as cobertas, voou para a cozinha. Dona Candinha estava acabando de tirar o leite do 
fogo, e o gato miava roando-lhe nas pernas. A mesa estava posta. Tia Ninota j havia tomado caf. Era seu costume levantar-se de madrugada e ir  missa todos os 
dias. No caminho da volta, sempre parava em casa de uma amiga para um papo.
      - Bom dia, Llia, dormiu bem?
      - timo! e a senhora?
      - Bem, obrigada.
      Elas conversaram a respeito do tempo. Dona Candinha explicou que Ouro Preto era muito mida durante quase o ano todo. Acrescentou que no inverno piorava.
      - Por isso, naqueles tempos antigos, o governador preferia viver em sua casa, em Cachoeira do Campo - disse, servindo o caf. - L o clima  mais quente e 
seco.
      - Eu no estranho - declarou Llia. - So Paulo tambm  mida. - Isto , era mais, no tempo da garoa, como falou papai. Mas hoje at a garoa So Paulo perdeu. 
Tudo por causa da poluio. Ela  a nica que no vai embora.
      - Graas a Deus no temos poluio por aqui - suspirou a empregada. - Isto , existe uma fbrica de alumnio atrs do morro. De vez em quando, sobe uma nuvem 
de poeira ou fumaa, sei l. Deus permita que nunca aumentem o nmero dessas drogas de indstrias aqui por perto!  J chegam os automveis e os caminhes que fazem 
trepidar tudo e racham as nossas casas!
      Terminado o caf, Llia disse que ia dar uma volta. Aquela manh as Tetets no podiam sair. Como ela j conhecia o esquema da cidade, ia sair sozinha.
      - Diga  titia que volto antes das onze e meia, dona Candinha.
      E desceu correndo a escada de pedra para o jardim.
      L fora, nem parecia haver chovido na vspera. A terra estava seca, o cu era de um azul puro e Ventava quente.
      Llia, porm, no queria s dar umas voltas. No! Ela bem sabia aonde queria ir porque a curiosidade a cutucava por dentro. Assim, passou pela Matriz de Antnio 
Dias, subiu em direo  casa do poeta Gonzaga, atravessou a praa Tiradentes e seguiu em direo  ladeira da igreja do Pilar.
      "Quem  Dirceu?" - perguntava uma vozinha no fundo do corao.
      Llia sentiu um calor diferente no rosto. Passou um grupo de rapazes de shorts, descontrados, rindo. UM carro azul virou a esquina, ela esperou para poder 
atravessar a rua. Agora ia mais devagar, pensativa, lutando com o seu eu de dentro. Por que estava to interessada em conhecer Dirceu? Vai ver, era igual a Marcos 
Csar. Talvez fosse outro ambicioso sonhando em fazer dinheiro, e o teatrinho poderia ser o caminho. No foi o que Tampinha tinha dado a entender?
      - Estou parecendo uma boba! - disse, irritada com aqueles pensamentos.
      - O qu? - perguntou um rapaz encostado na parede.
      S ento Llia caiu em si, percebendo que havia falado alto. Seu rosto ficou ainda mais vermelho.
      - Desculpe! - pediu. - Acho que estou lel, pois j comecei a conversar sozinha.
      -  o ar! - respondeu o rapaz sorrindo.
      - , deve ser...!
      Na esquina da praa da Alegria havia um barzinho. Ao ver as broas de fub to bonitas e amarelinhas, Llia no teve dvida: entrou e comprou uma.
      - Se eu no me cuidar, volto para casa pesando uma tonelada! - falou, ao dar a primeira mordida.
      Comeou a descer a ladeira pelo meio da rua. Ia observando as casas geminadas  direita,  esquerda. L no fim, na pracinha, havia um chafariz e, a poucos 
metros, via-se a igreja do Pilar. Llia queria visitar o museu. Mas, antes, ela queria. . .
      Parou em frente  casa onde havia estado na vspera. L de dentro vinha um som de flauta. A porta estava encostada, as janelas com vidraas descidas.
      - Licena? - pediu, sentindo o corao disparar.
      Nenhuma resposta.
      - Oi, de casa, posso entrar?
      O silncio era quebrado somente pela melodia.
      "Impossvel, algum tem de estar a! Pelo menos a dona Maria do Carmo!" - pensou. E ento, empurrando a porta, entrou no salo dos fantoches.

Porque voc, Marlia.
      O palco, armado no meio do salo, pronto para comear o espetculo. O cenrio mostrava a paisagem de um campo com rvores copadas, ciprestes, uma coluna de 
mrmore enrolada por uma guirlanda de rosas e um vaso. Llia lembrou-se que havia visto cenas assim em livros sobre a civilizao da Grcia antiga. No alto do palquinho, 
havia um Cupido fofo dependurado do lado esquerdo. Ele sorria. Para os gregos antigos, Cupido, o deus do Amor, era o moleque com asas e seteira - ou aljava - nas 
costas. Com os olhos vendados, Cupido atirava flechas nos coraes humanos, fazendo, assim, as pessoas se apaixonarem. O som da flauta continuava. Seria algum pastor 
vigiando suas ovelhas? Hipnotizada, Llia sentiu como se desse um vo pelo tempo, mergulhando no passado.
      Foi ento que ela viu, no palco, encostado na cortina da direita, um fantoche com a cabea cada. Parecia adormecido. Tinha peruca branca, jaleco de veludo 
verde-garrafa, gravata fofa de pintas azuis, cales negros e sapatos com fivela de ouro. Atrada, Llia aproximou-se dele. Quando, porm, ia erguendo a mo para 
acarici-lo, o boneco levantou a cabea, esfregou os olhos e espreguiou-se. Olhando para ela, declamou:
      "Pintam, Marlia, os poetas
      a um menino vendado,
      com uma aljava de setas,
      arco empunhado na mo;
      ligeiras asas nos ombros,
      o tenro corpo despido,
      e de Amor ou de Cupido
      so os nomes que lhe do."
      Llia arregalou os olhos. Que linda poesia! Abriu a boca para perguntar por que o fantoche a estava recitando. O fantoche, porm, de braos abertos, continuou:
      "Porm, Marlia, nego,
      que assim seja Amor,
      pois ele nem  moo nem  cego,
      nem setas nem asas tem.
      Ora pois, eu vou formar-lhe
      um retrato mais perfeito,
      que ele j feriu meu peito:
      por isso o conheo bem."
      O corao de Llia batia disparado! Aquele fantoche tinha feito a poesia... para ela?
      "Os seus compridos cabelos,
      que sobre as costas ondeiam,
      so que os de Apolo mais belos,
      mas de loura cor no so.
      Tm a cor da negra noite;
      e com o branco do rosto
      fazem, Marlia, um composto
      da mais formosa unio.
      Tem redonda e lisa testa,
      arqueadas sobrancelhas,
      e seus olhos so uns sis.
      Aqui vence Amor ao Cu:
      que no dia luminoso
      o Cu tem um sol formoso,
      e o travesso Amor tem dois."
      Inclinando a cabea para o lado, o fantoche continuou:
      "Na sua face mimosa,
      Marlia, esto misturadas
      purpreas folhas de rosa,
      brancas folhas de jasmim.
      Dos rubins mais preciosos
      os seus beios so formados;
      os seus dentes delicados
      so pedaos de marfim.
      Mal vi seu rosto perfeito,
      dei logo um suspiro, e ele
      conheceu haver-me feito
      estrago no corao.
      Punha em mim os olhos, quando
      entendia eu no olhava;
      vendo que o via, baixava
      a modesta vista ao cho."
      O fantoche olhava-a to de perto como se conseguisse enxergar-lhe a alma atravs dos olhos.
      "Chamei-lhe um dia formoso;
      ele, ouvindo os seus louvores,
      com um modo desdenhoso
      se sorriu e no falou.
      Pintei-lhe outra vez o estado,
      em que estava esta alma posta;
      no me deu tambm resposta
       constrangeu-se e suspirou.
      Conheo os sinais; e logo,
      animado da esperana,
      busco dar um desafogo
      ao cansado corao.
      Pego em seus dedos nevados,
      e querendo dar-lhe um beijo,
      cobriu-se todo de pejo
      e fugiu-me com a mo."
      Com um movimento rpido, o fantoche abaixou-se e encostou os lbios no rosto de Llia, como se lhe roubasse um beijo. Depois, com um pulinho para trs, concluiu:
      "Tu, Marlia, agora vendo
      de Amor o lindo retrato,
      contigo estars dizendo
      que  este o retrato teu.
      Sim, Marlia, a cpia  tua,
      que Cupido  deus suposto:
      se h Cupido,  s teu rosto,
      que ele foi quem me venceu."
      Depois, o misterioso fantoche afundou-se atrs do palco. Llia tentou agarr-lo. Mas, naquele momento, no lugar do fantoche apareceu um rosto no palco. Era 
um rapaz moreno, de pele clara, olhos negros, cabelo curto e brilhoso. Tranqilo, os lbios sorriam como os de Cupido.
      - Oi, Marlia!
      Ela estremeceu:
      - D-Dirceu?
      Ele fez um movimento afirmativo. Llia continuava espantadssima.
      - C-Como voc s-sabe que meu nome  Marlia? - perguntou gaguejando. - No contei isso pra ningum! Eu disse ao pessoal que me chamo Llia!
      Ele saiu detrs do palco. O fantoche estava vestido em seu brao.
      - Ele sabe - respondeu Dirceu.
      - Foi ele... quem fez a poesia para mim?
      - Foi! No conhece?  Toms Antnio Gonzaga. As palavras so dele, Marlia, mas... o corao que recitou foi o meu!
      O impacto havia sido to grande que Llia no sabia o que dizer. De repente, lembrou-se de Tampinha. Ela havia dito que Dorota, ao ver Gonzaga pela primeira 
vez, tambm ficara sem voz...
      - Eu... eu...
      Estendendo a mo para cumpriment-la, ele riu.
      - No diga nada. Gostou da surpresa?
      - Foi linda! Mas como que voc... ?
      - Fcil: mame disse que voc veio aqui ontem e gostou do nosso teatro. Ento, comecei a pensar: "Aposto que amanh ela vai voltar aqui para saber mais. Vou 
deixar tudo preparado. Quando ela aparecer, recito 'Marlia de Dirceu', do Gonzaga". Agora h pouco, vi que voc vinha descendo pela ladeira e...
      - Ei, espere a! - aparteou Llia, caindo em si - voc viu uma desconhecida descendo a ladeira, pois ainda no me conhecia. Como foi que adivinhou que era 
eu?
      Ele respondeu com naturalidade: 
      - Porque voc, Marlia... 
      Seus cabelos cor da noite so nanquim
      e seus lbios dois rubis - belo sorriso!
      Nesse rosto delicado, de marfim,
      os seus olhos so dois sis. . . do Paraso!
      - Esses versos no so de Toms Antnio Gonzaga?
      - No. So meus e nasceram agora. Acho que foi o pressentimento que me fez desconfiar que seu verdadeiro nome  Marlia, por que s Marlia pode ser to linda 
quanto voc! Afinal, eu sou Dirceu! Ser que temos a alma dos dois grandes amantes de Ouro Preto, que viveram sculos atrs?
      - Bobagem! - respondeu ela. - Marlia e Dirceu nunca existiram! No passavam de criaes do poeta Gonzaga!
      - E voc no acredita que pode o amor ser to forte que as poesias se tornem verdade? Como as lendas, os milagres, os contos de fada? Ouro Preto  a terra 
do faz-de-conta!
      - Meu Deus, Dirceu, voc  maluco!
      - No, sou sonhador. Muita gente sabe disso. E foi por causa desses sonhos que conseguimos realizar o Grupo Pedra-Sabo, que estria sbado no Mercado Novo. 
Voc vai assistir?
      - Claro!
      - Pois ento. Agora, vamos l dentro tomar um cafezinho. Depois, a gente sai. Quero mostrar a voc minha Ouro Preto. Venha, Marlia!

A Ladeira da Saudade
      Saram ao sol, sob um cu deliciosamente azul.  claridade, as cores da cidade-monumento tornavam-se mais vivas. Ali na ladeira Dirceu parou e olhou para cima: 
vinha descendo um carro. Na pracinha, um bode comia as tenras folhas de capim que cresciam entre as pedras do calamento. Quase  frente de sua casa, trabalhava 
o relojoeiro, perdido no meio de uma multido de velhos relgios empoeirados.
      - Gosta? - perguntou.
      Llia fez que sim.
      - Pois vou lhe contar um segredo! - disse ele, aproximando-se. - Esta ladeira tem um nome s nosso!
      - Verdade?
      - Nosso, l de casa - explicou. - Vem do tempo que papai namorava mame. Eles costumavam encontrar-se ali, no chafariz ao lado da igreja do Pilar, est vendo? 
Para eles, esta ladeira representa o tempo quando eram jovens, cheios de sonhos, pensando em casamento. Por isso, deram a ela o nome de... Ladeira da Saudade!
      - Que bonito! - sorriu Llia, fascinada. - Ladeira da Saudade... no vou esquecer nunca!
      - Ento, continua em segredo, t? Nem as Tetets sabem.
      - Por que voc est me revelando esse segredo to seu?
      - Porque voc  Marlia, eu j disse! Agora, vamos! Quero mostrar-lhe uma coisa! - e, agarrando-a pela mo, puxou-a ladeira acima.
      Dirceu era gil, elstico, cheio de vida.
      - J viu a casa de Tiradentes? - perguntou, quando chegaram ao topo da ladeira.
      - Onde foi a casa de Tiradentes - corrigiu ela. - Tampinha me disse que a verdadeira casa dele era baixa e pequena. Como era Tiradentes, Dirceu? O homem, quero 
dizer; no o heri.
      Dirceu franziu a testa:
      - Foi soldado, minerador, mineralogista, bufarinheiro, almocreve, fsico, dentista, um sujeito honesto com ele prprio, apesar de ter-se desiludido com os 
homens. Vivia com uma mulher, tinha uma filha, era pobre. Um idealista, um sonhador, um romntico. Tiradentes acreditava em um mundo livre, com oportunidades iguais 
para todos, sem distino entre o pobre e o rico. . . porque ele prprio era pobre e sofria com os preconceitos. Foi um injustiado que acreditava naquilo que voc 
viu em nosso teatrinho: na paz que os gregos cantaram em seus versos. Ele acreditava nas colinas, nas flores, na natureza. Veja bem a paisagem aqui de Ouro Preto: 
no  cheia de paz como as paisagens da antiga Grcia? Os morros... as pedras... as ruas... o ouro...
oh, o ouro!
      Os olhos de Dirceu faiscaram.
      - Joaquim Jos no era de famlia rica. O ouro extrado deste solo custou muitas vidas e era todo levado para Portugal. O Brasil, os brasileiros, todos viviam 
escravizados ao ouro... Os homens sempre sero escravos do ouro! Tiradentes foi um tmido, um gigante, um homem que carregou a culpa pelos pecados de muitos, sei 
l. A Histria est a, viva em Ouro Preto. Pergunte a ela!
      - No! - respondeu Llia. - Na Histria os vultos so impessoais como as figuras de cera de museus. Prefiro perguntar a voc, porque aqui em Ouro Preto os 
nomes tm vida, calor e... garra! Eles continuaro vivos para sempre!
      Atravessando a cidade, os dois tomaram a direo do bairro onde morava a tia Ninota - a Lapa. Dirceu explicou que ali ficava a sada para Mariana e para a 
mina do Chico Rei. Enquanto andavam, ele ia apontando, falando, mostrando, explicando. Era como se a histria de Ouro Preto fosse a sua prpria.
      - Sabe que antigamente os negros tinham uma igreja s deles?
      - Verdade? Mas se eram escravos, como tinham dinheiro para construir sua prpria igreja?
      - Os negros que bateavam, isto , que procuravam ouro, escondiam pepitas de ouro nos cabelos.  noite, ao chegarem em casa, abriam um pano, passavam as mos 
no cabelo, e as pepitas caam dentro. Com esse ouro, eles iam comprando material para erguerem a capela.
      Continuaram descendo, passaram pelas ltimas casas da cidade. Para a frente, os morros. A seu p, o crrego do Sobreira, em cujas margens cresciam folhas de 
plantas aquticas verde-ervilha. Em longas hastes, os perfumados lrios brancos eram embalados pelo vento. Pouco adiante, uma ponte. Dirceu parou e olhou para a 
frente:
      - Est vendo aquele prdio? - apontou. -  a escola das normalistas. E aquele outro? - mostrou  direita. - O Clube Recreativo 15 de Novembro. Dizem que em 
um destes lugares existia uma construo imponente, de telhado avanado, sustentado por "cachorros" e com oito janeles. Era toda circundada por palmeiras. Bem ao 
meio, existia uma frondosa rvore: uma olaia. Havia uma gigantesca porta que desembocava em uma escada de nove degraus, mais largos na parte trrea. Era ali a Casa 
Grande.
      Empolgada com a descrio de Dirceu, Llia chegou a visualizar o casaro mergulhado no verde, tendo, por fundo, os montes azulados.
      - L, em companhia das tias Catarina Leonor e Teresa Matilde e dos tios Bernardo Ferro, um advogado fechado, e Joo Carlos, militar ajudante do governador, 
vivia a filha do capito Baltasar Mayrink: Maria Dorota Joaquina de Seixas...
      - A Marlia do Dirceu? - perguntou Llia.
      - Sim. De sua casa, o poeta Gonzaga podia avistar a Casa Grande aqui embaixo, sufocada pelo verde copado das grandes rvores. Olhe para o alto da cidade: no 
v direitinho a casa do poeta?
      Llia fez que sim.
      - Ali, da escola normal, no d para se ver a casa do poeta, mas do Clube 15 d. Ento, o mais provvel  que a casa de Marlia ficasse l, onde hoje  o clube...
      O vento agitou os cabelos de Llia. Estava emocionada por conhecer os segredos de outra adolescente de sua idade que, quase duzentos anos atrs, havia-se apaixonado 
por um poeta.
      - Por que Dorota vivia com os tios e no com os pais? - perguntou.
      - Porque o pai, o capito Baltasar, tinha-se casado pela segunda vez, agora com dona Maria Madalena. A primeira mulher, a me de Dorota, havia morrido quando 
a filha estava com oito anos. O pai morava na fazenda Fundo das Goiabas.
      - Dorota era filha nica?
      - No. Tinha mais quatro irmos: Ana Ricarda, Emerenciana e dois meninos menores: Joo Carlos e Francisco de Paula.
      - Qual era a profisso do pai dela?
      - Capito, j disse. Naquele tempo, o intendente - ou prefeito - das minas era um sujeito muito vingativo: Dr. Jos Antnio de Meireles Freire, apelidado de 
Cabea de Ferro. O velho capito Baltasar ocupava o cargo de capito da cavalaria, auxiliar da nobreza de Vila Rica. Em certa ocasio, ele foi destacado para patrulhar 
a serra, para evitar o contrabando de ouro e a fuga de escravos. Numa dessas patrulhas, oito escravos fugitivos foram presos e acusados de crime de contrabando. 
Depois de ouvir tudo o que os presos tinham a dizer, o capito sentiu d, pois viu que eram apenas escravos fujes e no contrabandistas. Por isso, resolveu solt-los. 
Quando o Cabea de Ferro soube, denunciou o capito  corte. Motivo pelo qual Baltasar Mayrink foi preso e respondeu a um processo-crime. Finalmente, apuraram a 
sua inocncia, mas, com isso, ele perdeu o cargo que ocupava.
      - E... os escravos?
      - Havia um, Domingos Angola, um sujeito forte, orgulhoso...! Ele havia sido preso no Caminho Novo. Como castigo, foi aoitado, enquanto caminhava, desde a 
cadeia at o largo da Matriz de Antnio Dias. Uma boa distncia de rua calada por pedras irregulares. Quando chegou ao largo da Matriz, o Angola estava mais morto 
do que vivo. A, todo coberto de sangue, os soldados finalmente o deixaram em paz. Reunindo o resto de suas foras, o escravo rastejou at  Casa Grande, a casa 
de Baltasar. Penalizado, o capito pagou o resgate do escravo, que passou a viver na fazenda das Goiabas. Mais tarde, a pedido de Dorota, o
Angola veio viver na Casa Branca, aqui em Ouro Preto. A devoo que ele tinha por Dorota era algo impressionante. Ele adorava a sinhazinha!
      Os olhos de Llia brilharam de tristeza e admirao.
      - Chega de histrias tristes agora! - disse o rapaz. - Venha, vamos atravessar a ponte de Marlia. Faa um pedido. Dizem que, se algum que a atravessa pela 
primeira vez fizer um pedido, Marlia e Dirceu, os amantes de Ouro Preto... atendem!
      Diante daquelas palavras, Llia olhou firme para o rapaz e fez o pedido, Embora o tivesse feito com o corao apenas, percebeu que ele havia adivinhado.
      Em silncio, atravessaram a ponte. Na outra extremidade havia uma grande pedra.
      - Sente-se - pediu Dirceu.
      Ela obedeceu. Dirceu desceu at os lrios abertos entre as folhas cor de ervilha do crrego. Tendo colhido uma braada de flores, ele voltou e entregou-as 
a Llia. Como eram perfumadas!
      Feito isso, de surpresa, Dirceu colocou-lhe na cabea uma coroa de lrios entrelaados. Em seguida, tirando do bolso uma flauta de madeira, comeou a tocar. 
De vez em quando, dava uma olhada para a garota, que parecia uma ninfa.
      - Os gregos curtiam a vida ao ar livre, o amor... e a beleza - disse, interrompendo a melodia triste. - Agora, eu tambm quero curtir voc, Marlia!
      Ela sorriu timidamente. O sol batendo-lhe no rosto, o vento despenteando-lhe os cabelos, o branco das ptalas sobre a fronte, o cintilar das guas do riacho 
faziam dela uma figura etrea, um entremeio entre o sonho e a realidade na tela de algum gnio surrealista.
      "Que tens, Marlia
      que ela suspire?
      que ela delire?
      Que corra os vales?
      Que os montes gire
      Louca de Amor?
      Ela  que sente
      esta desdita,
      e na repulsa
       mais se acredita 
      o teu pastor!"
      Como resposta, Llia estendeu-lhe um lrio.
      - Estou correndo por entre montes e vales, estou sentindo brotar uma nova fora em meu corao - disse, cheia de alegria. -No quero que meu pastor pense, 
por algum momento que seja... que poderei jamais deixar de gostar dele!
      Aproximando-se para sentar-se aos ps dela, Dirceu recomeou a tocar a flauta. A melodia subiu pelas montanhas, pairou nos ares, navegou com as guas do regato 
e levou o tempo ao embalo das horas.

O amor  uma realizao que leva tempo
      Os programas mimeografados estavam prontos, e o grupo deveria distribu-los pela cidade naquela noite de quinta-feira. Impressos em papel pardo, tinham,  
direita, a gravura do profeta Daniel, cpia da obra do Aleijadinho. O desenho havia sido feito pelo Daniel, um dos componentes do grupo e artista no trao. O texto 
anunciava a presena do Teatro de Fantoches do Grupo Pedra-Sabo, que estrearia na praa do Mercado Novo, no sbado, com a pea: Uma grande histria de amor. O convite 
era extensivo a todo o povo, e a apresentao seria grtis. Mas, secretamente, o grupo esperava que, se houvesse sucesso, o prefeito conseguisse um local fechado 
para futuras apresentaes, com ingressos pagos, aproveitando-se do grande nmero de turistas que diariamente chegam a Ouro Preto.
      Daniel, um pouco mais baixo que o Dirceu, era loiro de olhos esverdeados. Carioca, magricela e eltrico, fazia tempo que tentava namorar Tunica. A coisa entre 
eles, porm, no estava engrenando bem, pois Tunica era tmida, insegura. Foi Daniel quem executou os cenrios para a pea. O outro rapaz do grupo era Vanderci. 
Moreno, gordo, um sonhador com a cabea na lua que desejava ser engenheiro-eletrnico. Ele cuidava da iluminao e do som, com aparelhos emprestados por seu Afonso, 
pai do Dirceu e dono de uma oficina eletrnica. Os dilogos dos fantoches haviam sido gravados com efeitos sonoros. Assim, sem se preocupar com o texto, os manipuladores 
tinham maior liberdade para mover os fantoches, emprestando maior realismo  cena. Vanderci tinha uma namorada em Mariana. Por isso, quase todos os domingos, ia 
para l.
      Com a chegada de Llia, Dirceu arranjou-lhe um servio no grupo: ajudante de entrega dos fantoches. Ela ficava encarregada de entregar os fantoches, no decorrer 
da representao, o que evitava corre-corre atrs do palco.
      Logo de manh, na sexta-feira depois do caf, Llia pegou a bolsa.
      - J vai sair? - perguntou a tia, olhando por cima dos culos.
      Llia parou. Sentada na cadeira de balano, tia Ninota fazia croch.
      - Vou  casa do Dirceu para ensaiar. Amanh o grupo estria a pea de fantoches. A senhora vai assistir?
      A tia continuou balanando-se ritmadamente.
      - Que pea  essa?
      - Uma que o grupo escreveu. Conta o grande amor entre Toms Antnio Gonzaga e Maria Dorota Joaquina de Seixas. O amor no  uma coisa linda, tia Ninota?
      Tia Ninota olhou sria para a sobrinha. Quando Llia reconheceu aquele olhar "nmero 7", ficou atrapalhada.
      - Depende... - respondeu a tia, voltando os olhos para o croch. - Desta ltima vez que estive em sua casa, voc quase derrubou as paredes por causa desse 
mesmo... amor! No vi nada de "coisa linda" no barulho!
      - Ah, no era amor de verdade, tia! - defendeu-se a menina. - Eu no gostava e no gosto do Marcos Csar. Palavra! A senhora no acredita? Pois eu lhe conto: 
ns comeamos a conversar como amigos, entende? Quando falei em casa quem era ele, mame ficou toda acesa porque  filho de uma amiga dela, as duas freqentam o 
mesmo cabeleireiro!
      - Se ao menos as duas tivessem freqentado a mesma escola, ainda v l! - suspirou a tia, continuando a balanar-se. - Sua me  mesmo uma criatura meio cuca 
fundida! E da?
      - Da, a famlia de Marcos Csar  muito conceituada, tem dinheiro. Por isso, mame comeou a pensar em minha estabilidade. A senhora pode imaginar que ela 
comeou at a ouvir a marcha nupcial! Acha que pode, titia? Sou ainda uma criana!
      - No me venha com essa de criana, Llia! Criana? Morda aqui! Voc  muito espertinha e sabe muito bem o que quer. Pensa que no estou desconfiada desses 
olhos brilhantes, de toda essa correria? Teatro? Pois sim! A coisa a  com o dono do teatro. No sou boba!
      Ao ouvir aquilo, Llia levou um choque.
      - Que  isso, titia? Eu...
      - Sou velha, mas no sou cega. No me venha com mentira, Llia, que no caio fcil! Escute - interrompeu o croch - no vejo nada de errado no amor. Ningum 
 dono de seu prprio corao! Acontece que, para os inexperientes, o amor  perigoso,  mais ou menos como meter-se a soltar rojo... sem nunca ter soltado antes: 
pode explodir no rosto. No estou pedindo explicaes, nem satisfaes. Apenas estou recomendando que v com calma. Isto : o amor s vezes nos faz perder a cabea 
e, quase sempre em nome do amor... cometemos memorveis burradas.
      - Titia...!
      - Estou no plpito, estou adorando fazer sermo. Sabe por qu? Por causa da sua me. Foi muito a contragosto que ela permitiu que voc viesse para c. Ela 
no confia em voc. Mas eu confio. J pensou no que vai acontecer se sua me fica sabendo que, mal chegando aqui, voc j se enrabichou por esse dono dos fantoches?
      - Ela nunca vai desconfiar, a no ser que a senhora conte!
      - Eu? Deus me livre! Tenho cara de linguaruda?
      - Desculpe, titia! - pediu Llia, arrependida. - No foi isso que eu quis dizer.
      - Eu sei que voc no falou por mal. Mesmo assim, preciso me cuidar porque sua me est na jogada. Sei que, mesmo estando quieta l em So Paulo, o pensamento 
dela continua aqui, com voc. Aposto que todas as noites ela diz a seu pai que no estou tomando conta direito de voc. At parece que voc  uma criancinha!
      - A senhora acha mesmo que mame  capaz de uma coisa dessas?
      - Do jeito que ela quer bem a voc e se preocupa com o seu futuro, juro que ela faria qualquer coisa para proteg-la.
      Llia tentou coordenar melhor as idias. Parecia que a nica coisa viva na sala era o relgio, pois at a tia Ninota havia parado de balanar-se. Simplesmente, 
olhava para a sobrinha-neta como que esperando uma resposta. Mas, em um corao apaixonado existe lugar para o raciocnio? Llia, agora, estava pensando nas palavras 
do pai: "A tia Ninota no  sua inimiga. Da, voc teria nela uma amiga franca, mesmo que parea chata ou implicante. No acha isso uma boa?"
      A tia recomeou a balanar-se. Dorota tambm vivia com as tias porque o pai havia-se casado com a segunda esposa. Seriam as tias de Dorota iguais  tia Ninota?
      A sobrinha aproximou-se da cadeira de balano. O nvel de seus olhos ficou no nvel dos olhos da tia Ninota.
      - Titia... o que eu devo fazer?
      A mo direita parou de crochetar e pousou na cabea da sobrinha.
      - Conselhos no so grande coisa, mas acho que voc s no deve fazer coisas das quais se arrependa depois. A vida  longa, e o amor cultivado perdura at 
o fim. Voc j viu as esculturas do mestre Aleijadinho?
      - Ainda no. Penso que domingo vamos at Congonhas do Campo...
      - Muito bem! Quando voc estiver observando aquelas obras, pense que elas foram feitas por um homem doente, atacado por uma terrvel molstia deformatria 
que o proibia at de segurar o macete e o cinzel. Era preciso que lhe amarrassem os instrumentos de trabalho nos tocos de braos. A cada batida que ele dava... a 
dor era profunda, insuportvel! Entretanto, apesar das dores, as obras-primas que ele esculpiu foram terminadas com perfeio e nos falam fundo  alma. O importante 
de tudo isso, Llia,  apenas
uma coisa: o Aleijadinho no teve pressa para terminar o seu trabalho. Ele foi devagar. Cada golpe, apesar da dor, era um sabor, uma expectativa, uma esperana, 
uma nova emoo. Ver a coisa tomar forma... acontecer... aparecer... Isso tambm  importante no amor. O amor  uma realizao que leva muito tempo, porque  trabalhado 
dia a dia. Contrrio da paixo, mais explosiva, que nem sempre tem um desfecho feliz... 
      Llia sorriu.
      - Voc  muito inteligente e sabe o que estou dizendo, no sabe?
      - Desculpe, tia Ninota! - pediu Llia, timidamente.
      - Uai, do qu?
      - Porque eu tinha falado pro papai que a senhora era mandona e chata. Eu estava errada, e papai tinha razo. As pessoas francas podem parecer desagradveis... 
mas agora eu estou vendo que a franqueza  muito importante! Gosto muito da senhora! - assim dizendo, deu um beijo na testa da velha.
      Por alguns momentos, tia Ninota ficou pensativa. Depois, endireitando o corpo, fingiu-se carrancuda:
      - Vamos, v ensaiar no seu teatrinho que no tenho tempo para continuar nessa conversa mole!
      Llia caminhou at a porta. Ali, olhou para trs e despejou:
      - Adoro a senhora! - saiu correndo enquanto, sorrindo a balanar a cabea, a tia voltava ao seu croch interrompido.
      
Uma grande histria de amor
      Durante toda a sexta-feira eles no fizeram outra coisa seno ensaiar. Dirceu exigia perfeio. L estavam, pois, reunidos de porta e janelas fechadas.
      A franja de Tampinha parecia um espanador, to eriada. Quando ela se punha nervosa, enfiava os dedos no cabelo e puxava para cima. Por isso, Tereca costumava 
dizer: "Quando a crista da Tampinha estiver levantada...  sinal de perigo!" E tinha razo. O clima estava tenso. Fazia meia hora que vinham ensaiando a cena do 
baile no Palcio dos Governadores, e Tampinha no conseguia dar a Bernardina Quitria o cinismo pedido por Dirceu. Nessa altura, dona Maria do Carmo entrou com um 
bule de caf fumegante e xcaras.
      - Nada de briga, nada de briga! - pediu com voz tranqila. - O teatro  um meio de unio, no de desunio. Sentem-se, descansem um pouco, tomem um cafezinho. 
Depois, com calma, ensaiaro melhor.
      As meninas sentaram-se no palquinho. Os meninos sentaram-se no cho. Silenciosos, tomavam o caf.
      Depois de alguns minutos, Dirceu levantou-se, foi at ao gravador, escolheu uma fita e ligou. A msica alegre encheu os ares pouco a pouco, quebrando a tenso. 
A, ele disse:
      - Vocs esto ouvindo um fandango. Para o povo, hoje em dia, fandango significa bailinho barulhento, anarquia. Mas, na verdade, o fandango  uma dana de origem 
espanhola. No tempo da corte, isto , em 1788, poca em que o visconde de Barbacena aqui chegou para administrar a vila em nome de Portugal, poca em que vai acontecer 
o nosso baile... o fandango e o minueto, de origem francesa, eram danas muito populares.
      Ele continuou falando a respeito de msica, enquanto os alegres sons enchiam a casa da Ladeira da Saudade.
      O cenrio do palco mostrava como era a riqueza do palcio no passado, aquele mesmo palcio da praa Tiradentes, onde atualmente funcionava a Escola de Minas 
e Metalurgia. A construo datava de 1743. Seus enormes sales tinham paredes de mais de metro, e portas se fechavam com pesados ferrolhos. O prdio de dois andares 
possua, em cada um deles, sete janelas. Toda a frente era protegida por um paredo macio com guaritas, e, em cada culo, via-se a esttua de um soldado. O cenrio 
do teatrinho mostrava a parte interna do magnfico salo de baile. Em frente a cada porta havia um espelho para os convidados. Incidindo sobre esses espelhos, a 
luz produzia um efeito mgico, caleidoscpico. Daniel havia desenhado a orquestra - msicos diante do cravo, o violinista, o flautista, o tocador de corne ingls 
- como se estivessem afinando os instrumentos para o incio do baile da posse do novo governador, o visconde de Barbacena.
      -  uma das mais belas noites de Ouro Preto - disse Dirceu, comeando a descrever a memorvel cena lrica perdida na pgina da Histria. - O palcio est todo 
iluminado a velas. Volta e meia, os criados passam para substituir as que se esto apagando. Ali, renem-se os elementos mais importantes da sociedade. O visconde 
e a viscondessa de Barbacena j chegaram e conversam com os juizes das vrias comarcas. Conversam tambm com os contratadores de dzimos e de estradas, com os oficiais 
de regimentos, com as gordas senhoras que vigiam as suas filhas... Ser grandioso o baile para comemorar a chegada do representante da rainha de Portugal! E, agora... 
apeando daquela carruagem vermelha, vocs sabem quem acaba de entrar no palcio?
      Feita a pergunta, Dirceu enfiou a "meia", calando o fantoche do poeta Toms Antnio Gonzaga.
      - Eles chegaram! - explicou, fazendo um sinal para Daniel e Vanderci.
      Os dois companheiros levantaram-se. Um pegou o fantoche de um homem de sessenta anos, cabelos brancos: o poeta e advogado Cludio Manuel da Costa. O outro 
pegou Manuel Incio da Silva Alvarenga, o jovem poeta de cabelos negros, marido de Brbara Heliodora. Eram os trs amigos inseparveis: Gonzaga, Cludio e Alvarenga, 
que costumavam reunir-se na casa de Gonzaga para "curtirem" poesia. Ao clubinho deram o nome de Arcdia, pois, naquele tempo, era costume na Itlia e em Portugal 
os poetas terem suas arcdias, que era o local para reunies literrias. Os poetas inspiravam-se no clima da Grcia antiga, da Grcia clssica, buscando, nesse ambiente, 
motivos para suas poesias. Eles sonhavam ser pastores, vivendo nos verdejantes-pacficos campos da Grcia de antigamente. Ali, encontravam a paz, ouvindo o balido 
das ovelhas e o som da flauta de outros pastores apascentando. Cludio havia adotado o nome de Glauceste Sua musa inspiradora era chamada Eulina. Alvarenga preferiu 
o nome de Alceu e inspirava-se em Laura. Quanto a Gonzaga, era o Dirceu que, para compor seus versos, pensava apenas em uma garota: Marlia.
      Substituindo as fitas, Dirceu ligou o mesmo fandango com fundo de vozes de pessoas conversando, rindo, barulho de patas de cavalos batendo nas irregulares 
pedras do calamento de Ouro Preto. Dava at a impresso de que as carruagens estavam mesmo chegando ao palcio!
      - Depois de levar trs horas s para colocar a cabeleira branca que somente os magistrados usavam - continuou Dirceu - Gonzaga e seus amigos chegam ao palcio 
onde j esto dona Catarina Leonor e Teresa Matilde, as tias, acompanhando as sobrinhas Ana Ricarda e Maria Dorota, Vamos representar esta cena agora?
      - Posso fazer o papel da Marlia para experimentar? - pediu Llia, toda animada.
      Dirceu fez que sim, e ela apanhou o fantoche. Marlia era linda! Pele clara, olhos e cabelos negros, vestia saia-balo cor-de-rosa e bem armada, com entremeios 
em tom de ch que subiam pela cintura at ao busto. O decote abria-se em mil babados de renda. Os ombros, em seda crespa, eram estofados. As mangas, estreitas e 
longas, afunilavam-se nos braos, um talhe perfeito de boneca!
      Tampinha pegou Bernardina Quitria. Tambm morena, bonita, tinha os sedosos cabelos negros presos atrs com fita encarnada. Usava vestido vermelho e branco 
a portuguesinha de olhos vivos e maliciosos. Todos sabiam que aquela linda mulher j havia sido namorada de Gonzaga antes de o poeta conhecer Dorota. Porm, muito 
interesseira, Bernardina Quitria trocou Gonzaga por um coronel baixinho e rico: Joaquim Silvrio dos Reis. Quando, entretanto, Bernardina Quitria entendeu que 
Gonzaga havia facilmente se esquecido dela por causa da Dorota, resolveu voltar, tentar reconquist-lo. Gonzaga, porm, no queria mais saber daquela moreninha, 
pois estava apaixonado por Dorota, a sua Marlia. Zangada, Bernardina Quitria jurou vingana. O baile do governador estava acontecendo em um ambiente tenso daqueles.
      - Ateno, vamos comear! - avisou Dirceu. - Todo mundo atento. Um... dois... trs!
      Msica e eco das patas dos cavalos indicavam que os trs amigos estavam chegando ao baile. Todo sorrisos, o visconde e a viscondessa de Barbacena recebiam 
os convidados. Linda e elegante, a viscondessa correu a cumprimentar Gonzaga, chamando-o de "Poeta". O baile estava animadssimo! Olhando para o salo, Gonzaga viu 
as mulheres sentadas junto s paredes. Elas se abanavam com grandes e carssimos leques. Entre elas, reconheceu as tias Catarina Leonor e Teresa Matilde. Tambm 
viu Bernardina Quitria rodeada por uma poro de rapazes. Ela sorria para todos. No momento em que Joaquim Silvrio aproximou-se de Dorota, o poeta franziu a testa. 
Sabia que o insistente coronel, abandonado por Bernardina Quitria, procurava, por vingana, conquistar o corao da menina Dorota! O corao do poeta encheu-se 
de cime!
      - Sou muito rico, senhorita Dorota! - disse o insistente coronel. - Possuo muitas fazendas, escravos e tenho pouco mais de trinta anos. As pessoas dizem que 
sou meio grosseiro, mas, acredite, no o sou. Muito ao contrrio, at que sou generoso para com aqueles que me fazem o mal. Como v, serei um excelente marido, mas 
a resposta definitiva, claro, depende... da senhorita!
      Era o pedido formal de noivado. Dorota comeou a abanar-se nervosamente.
      - De mim, coronel?
      - Sim, senhorita! - e beijou-lhe a mo. - Apenas a senhorita, somente a senhorita poder responder se aceita ou no a minha proposta!
      - Oh! - murmurou Dorota em desespero, olhando a toda volta. Quando viu Gonzaga, chegou a sorrir. Aliviada, perguntou ao coronel:
      - Perdoe, senhor Joaquim Silvrio! Por acaso o senhor no est vendo o poeta Gonzaga?
      O coronel olhou. O poeta animadamente conversava com o visconde e a esposa. A pergunta de Dorota tinha sido o mesmo que dizer: "Por acaso o senhor no sabe 
que  a Gonzaga que amo?" Irritado, Joaquim Silvrio deu meia-volta e afastou-se. Com isso, Gonzaga aproximou-se dela.
      - Minha querida Marlia, o que aquele homem queria de voc? - perguntou o enciumado poeta.
      - Nada, nada, apenas conversvamos...
      - Espero que ele no a tenha magoado, meu anjo. Quero proteg-la contra todos que a possam fazer sofrer!
      Enquanto os fantoches trocavam juras de amor no palquinho, atrs Dirceu olhava fundo nos olhos de Llia.
      - No deixarei que o mundo jamais faa voc sofrer! Nunca, nunca, nunca! - repetiu, beijando-lhe o rosto. Depois, sorriu e recitou:
      "No se queixe nunca, menininha dos cabelos da noite,
      que Dirceu roubou-lhe o corao!
      O corao de Dirceu j era seu desde sempre!
      Porque voc, menina dos olhos de nix,
      foi quem primeiro o prendeu com as correntes do amor.
      Todos amam... todos amam!
      Por que quer, Marlia, fugir dessa lei to natural?"
      - Eu no fujo, Dirceu! - respondeu Llia, hipnotizada pela melodia. - Estou aqui, agora. Toda sua!
      Com as mos erguidas, segurando os fantoches de Gonzaga e de Dorota para que se beijassem, Dirceu e Llia tambm se beijaram apaixonados, atrs do palquinho 
do Grupo Pedra-Sabo.
      - Vivaaaaaa! - aplaudiram os companheiros. - Foi a mais linda cena de amor que Gonzaga e Dorota representaram at hoje!
      S ento Llia e Dirceu caram em si.
      - Se a coisa sair do jeito que estou pensando - disse ele, meio atrapalhado - esta histria de amor tambm vai ficar gravada para sempre na memria de toda 
Ouro Preto!
      Depois, olhando para Llia, acrescentou:
      - A nossa histria de amor, naturalmente!

Cantando e namorando a lua no cu negro
      - No sbado de manh aconteceu a primeira apresentao do teatrinho de fantoches. O palco foi montado na praa do Mercado Novo. Atarefadas, as meninas ajudavam 
a descarregar o material da perua do pai do Vanderci: bonecos, cenrios, aparelhagem de som... O povo observava curioso a montagem rpida e mgica.
      - Assistam ao Teatro de Fantoches do Grupo Pedra-
Sabo! - anunciava Llia, distribuindo programas. - No percam Uma grande histria de amor, a histria de Ouro Preto agora no teatro!
      Dali a pouco, bufando debaixo da sombrinha aberta, tia Ninota e Candinha chegavam.
      - Tia Ninota, que timo que a senhora veio! - exclamou Llia, feliz da vida. - Eu pensei que a senhora...
      - ...no viesse? - e a velha franziu a testa. - Minha sobrinha, voc no me conhece mesmo! Primeiro porque, quando prometo, cumpro nem que seja morta. Segundo... 
bem, estou morrendo de curiosidade para ver essa tal pea de vocs.
      Dez minutos depois, ali estavam tambm os representantes da municipalidade. A, todos ouviram os acordes vibrantes de Gait Parisienne, de Offenbach, anunciando 
a grande abertura. Abertas as cortinas do palquinho, comeou o primeiro ato: uma taverna  beira da estrada. Acabava de chegar a carruagem com o visconde e a viscondessa 
de Barbacena, os novos governantes de Vila Rica.
      A pea prosseguiu e, no final do espetculo, os presentes aplaudiram entusiasmados, e os comentrios foram os melhores.
      - Nunca pensei que amadores pudessem fazer um trabalho to bom. Esses jovens so timos! Merecem o apoio oficial da prefeitura! - declarou um vereador, cumprimentando 
a turma. Antes de despedir-se, comprometeu-se a tentar conseguir com o prefeito um local para representaes especiais para turistas.
      Dirceu recebia os cumprimentos, mas seus olhos vasculhavam  procura de Llia. Quando conseguiu desvencilhar-se do pblico, aproximou-se da escada onde ela 
estava encarapitada para ver tudo do alto.
      - Vamos, desa! Venha ouvir o que eles esto dizendo a respeito do nosso trabalho! - convidou.
      Llia obedeceu. Quando ele a olhou fundo nos olhos, viu que estavam vermelhos.
      - Ei, o que foi? Voc chorou? - perguntou.
      - Sou uma boba e o fim da pea me deixou deprimida... - explicou-se ela, secando as lgrimas:
      No deu tempo para Dirceu responder. Tia Ninota e Candinha aproximavam-se. Llia correu-lhes ao encontro.
      - Ento, titia, gostou?
      A velha olhou para Dirceu:
      - Ento esse  o grande homem responsvel por tudo isso que acabo de ver? - perguntou.
      - Bem, sou apenas Dirceu - brincou ele. - O grande homem fica por conta da senhora.
      Endireitando o corpo, a tia tomou posio de sentido.
      - Muito bem, ele parece inteligente, e vocs fazem um par interessante. Mas no se assanhe, rapazinho! - e apontou-lhe o dedo. - Minha sobrinha tambm  muito 
inteligente! Gostei do trabalho que fizeram. Parabns! Voc tem futuro, rapaz. Posso ver em seus olhos!
      Mudando de tom, a tia concluiu:
      - Mas no v pensando coisas, hein? Cuide bem de minha sobrinha - e segurou o queixo de Llia. - Gosto dela como se fosse a neta que nunca tive, entendeu?
      Sem esperar resposta, agarrou-se ao brao da Candinha e, empertigadas, afastaram-se rumo ao bairro da Lapa.
      - Essa  minha tia... - disse Llia, pensativa. - No comeo eu no gostava dela, mas depois... Bem, deixa pra l! Satisfeito?
      - Muito! - e o rapaz sorriu. - Acho que estamos no caminho certo. O resto depende de sorte.
      - Aquele vereador ficou muito entusiasmado - observou Llia. - Aposto que vai conseguir o que prometeu. At parece que estou vendo, como parte dos destaques 
culturais de Ouro Preto, o "famosssimo Teatro de Fantoches do Grupo Pedra-Sabo" apresentando a mais bela histria de amor destas Minas Gerais...
      Dirceu no respondeu, mas seus olhos brilharam estranhamente. Espontneo, deu-lhe um beijo na testa.
      - Louco! - falou Llia.
      - Por qu?
      Ela no respondeu porque o Daniel aproximou-se:
      -         Ei, qual ? Pensam que vo ficar namorando a? - perguntou, fingindo-se zangado. - Temos de levar essa tranqueira toda de volta para casa. Depois, 
a gente comemora. Que tal com uma boa sorvetada?
      Todos concordaram. Na noite daquele sbado, eles ficaram at s dez e meia sentados na calada da Ladeira da Saudade. Tocando violo, flauta, cantando, namorando 
a lua no cu negro que se confundia com a silhueta das montanhas distantes. Foi um dia inesquecvel para Llia.

Meditaes e linhas escritas numa carta
      Domingo  noite. Quase onze. Na sala, o relgio pesado tiquetaqueava e, de vez em quando, bocejava uma pancada. Tia Ninota j havia ido dormir. O sobrado 
estava s escuras. Em seu quarto, Llia estava deitada de bruos. Havia uma folha de papel sobre o caderno fechado. Abaixo do cabealho, estava escrito: "Querido 
papai". No havia escrito "mame", pois no tinha vontade de contar para dona Flvia tudo o que lhe estava acontecendo. Dona Flvia no entenderia... mas, pensando 
melhor, Llia acabou resolvendo acrescentar o "mame". Pelo menos, dona Flvia no teria motivos para se queixar quando Llia voltasse da viagem. Ela deveria voltar 
para So Paulo na noite do domingo.
      Procurando afastar a tristeza da alma, Llia comeou a escrever:
      "Samos domingo de manh para Congonhas do Campo. Fomos na perua do pai do Vanderci. ramos sete: eu, Dirceu, Vanderci na direo, Daniel, Tampinha, Teresa 
e Tunica. A paisagem  muito bonita por aqui. To diferente da de So Paulo! J escrevi contando como  a natureza de Belo Horizonte at Ouro Preto, no escrevi? 
Pois, agora, vou falar do trecho que vai do cruzamento com a estrada de Belo Horizonte at Congonhas do Campo. Sabem o que primeiro me chamou a ateno? As quaresmeiras 
floridas! Midas, roxas, com pencas de vergar, enfeitam a estrada como se tivessem sido plantadas de propsito. Uma pequena parte das terras mineiras  coberta por 
arbustos. A maior parte  vestida apenas por aquilo que parece uma colcha rala de veludo. Isso, por que existe ferro no subsolo, e a pequena cobertura de terra no 
permite que as razes das plantas penetrem fundo. Da, a pouca existncia de florestas e a presena de vegetao de mdio porte.
      Pois bem, prosseguimos a viagem. De repente, vimos surgir pela direita a Lagoa Grande. Meu Deus,  pura prata que no tem mais fim! Ela continua... continua! 
Em suas margens, majestosos eucaliptos rasgam verde o cu, e pequenas cabanas indicam ser ali um timo lugar para acampamento. Vimos estudantes apeando de um nibus 
para acampar ali. Deve ser uma delcia!
      Mais adiante, fica a Lagoa Menor. Perto dela construram um chal em estilo europeu. Tambm vi um prdio branco, comprido, todo cheio de janelinhas: o Motel 
Clube do Brasil. Fazia um sol delicioso, a vegetao parecia esmeraldas cheias de luz! Algumas nuvens no cu pintavam na terra pequenas ilhas de um verde-negro na 
vastido dos campos."
      Mordendo a ponta da esferogrfica, Llia releu o trecho. Depois, continuou:
      "Ao reflexo do sol, o barranco  direita parecia uma capa de prata. Daniel comentou que isso se deve  presena do minrio de bauxita. Mais adiante, um plat 
de ferro. Os tons so escuros, carrancudos! Tratores amarelos, afundados na imensido daquele estranho mundo, parecem brinquedinhos de plstico. Vi a bandeira brasileira 
tremulando. Eles cortam as montanhas em fatias, em degraus, parecem pirmides incas, e os tons de ferrugem so como sangue brotando da terra. Na baixada seguinte, 
as esteiras da Ferteco Minerao descansavam porque era domingo. Pouco depois, a perua fez uma curva, e entramos por uma longa avenida. Vi casinhas e mais casinhas. 
Um menino acenou e, logo depois, chegvamos  rodoviria: estvamos em Congonhas do Campo.
      Deixamos a perua estacionada prximo  rodoviria, que  baixinha e com duas portas.  primeira vista, Congonhas d a impresso de uma cidade de bonecas. As 
casas so to pequenas, to baixas, to bonitinhas!
      Descemos por uma rua estreita e atravessamos uma ponte de cimento. Ali perto compramos mas e, dobrando  esquerda, passamos debaixo de um pontilho para 
comearmos a subir a rua Bom Jesus. Uau, que ladeira! A gente ia subindo devagar, respirando forte, se abanando, porque  de tirar o flego! O cho  calado com 
pedras irregulares, igual ao de Ouro Preto. Ainda bem que eu estava de tnis, sola de borracha! Com sola de couro voc simplesmente pa-ti-na.
      O engraado  que a rua no tem caladas como as nossas em So Paulo! A calada  estreita, parece mais uma escada com degraus longos, por causa do declive. 
Passamos em frente a um sobrado-hotel cor-de-rosa-choque. Na porta estava sentada uma mulher com bonezinho do Vasco. Mais adiante, do lado direito, fica a capela 
de So Jos. Segundo informou Daniel, foi construda em 1817,  toda caiada de branco e tem as portas de um azul-claro descascado. Por dentro no  muito bonita. 
Quando sa e olhei para a cidade, l do alto, senti uma grande emoo,  frente, bem no meio das casinhas, vi a igreja de Nossa Senhora da Conceio, em estilo jesutico. 
Fiquei pensando no passado, no tempo em que outras geraes viviam naquela cidade. Agora, o contraste entre o antigo e o atual  espantoso. Quase todas as casas 
tm antenas de televiso!
      Continuamos subindo a ladeira! A rua faz uma curva  direita, depois  esquerda e desemboca em uma praa-ladeira: o Jardim dos Passos. Estvamos morrendo de 
sede. Por isso, pedimos um copo de gua a uma senhora debruada na janela. Ela tinha o olhar suave de madona e, apesar do caloro, usava malha de lzinha verde. 
A gua veio geladinha como cristal em caneca de alumnio.
      Dali, atravessando a rua, fomos ao Jardim dos Passos, bem  frente.  todo cercado por gradil de cimento rendilhado. Meus amigos acho que no perceberam, mas, 
no momento em que coloquei os ps no jardim, tive a impresso de haver mergulhado no passado, no tempo em que Congonhas nasceu. Eu me vi cercada por pessoas vestindo 
diferente, falando diferente! A meu lado, Daniel ia contando fatos. Eu ia vendo tudo aquilo como se estivesse acontecendo exatamente naquele momento! Sabem o que 
vi? Escravos abrindo alicerces no topo da colina para a construo do Santurio do Bom Jesus.
      A construo da igreja era pagamento de uma promessa feita pelo portugus Feliciano Mendes a Bom Jesus, o padroeiro de Braga, cidade natal do Mendes. F que, 
tendo contrado uma grave doena enquanto procurava ouro no rio Maranh, aqui perto, o Mendes fez uma promessa a Bom Jesus: se se curasse, mandaria erguer a igreja. 
Tendo, pois, conseguido a cura, tratou o portugus de conseguir autorizao junto a D. Manuel Cruz, bispo de Mariana, e junto ao rei D. Jos, de Portugal, para a 
construo da igreja. Eu estava assistindo Francisco de Lima Cerqueira dirigir o servio da abertura dos alicerces. No trabalho de corte e assentamento das pedras, 
vi Antunes Costa. Essa era a poca em que o movimento barroco dominava em Minas - o santurio foi terminado em 1787.
      Sabem o que Tunica perguntou? Se a palavra barroco vem de barro! Camos em cima dela! Daniel explicou que barroco  o nome dado ao estilo que dominou tanto 
a msica como na pintura, na literatura, na arquitetura daquela poca. O barroco  um estilo cheio de vida, de movimentos, contrastes, alegorias. S vendo uma igreja 
dessas por dentro, com altares carregados de colunas, anjos, volutas, santos, flores, folhas, ornatos, arabescos e mil detalhes  que a gente entende que o barroco 
 mesmo uma exploso da alma do artista!
      Seis anos depois do incio da construo do santurio, o portugus Mendes morreu. O trmino da obra ficou a cargo de outros benfeitores. Foram eles que resolveram 
mandar fazer o adro - o ptio principal da igreja - e o Jardim dos Passos. Nesse jardim ergueram sete capelas quadradas, caiadas de branco e encimadas por torre 
pontiaguda. So trs capelas de um lado, quatro de outro, Daniel informou que, em 1796, chegou a Congonhas um mulato com 58 anos de idade. Vinha acompanhado de dois 
ajudantes, os pintores Atade e Francisco Xavier Carneiro. O mulato, famoso entalhador, chamava-se Antnio Francisco Lisboa, apelidado de Aleijadinho por ser vtima 
de uma terrvel doena deformatria. Era filho de Manuel Francisco Fernandes, portugus, mestre de construo e arquiteto de obras, mas o nome de sua me negra a 
Histria no registrou. Que preconceito contra as mulheres, no acham?"
      Fazendo outra pausa, Llia pensou em Dirceu. Tambm filho de mulata e de pai branco. Qual seria a reao da famlia quando soubesse?
      Estremeceu. No queria pensar naquilo agora. Pensava no entalhador cuja enfermidade atacava-lhe gradativamente os membros, o gnio cujas obras tia Ninota tinha 
sugerido que ela analisasse bem, dizendo: "Entretanto, mesmo apesar das dores, as esculturas do Aleijadinho foram terminadas com perfeio e nos falam fundo  alma. 
Ver a coisa tomar forma... acontecer... aparecer... Isso tambm  importante no amor. O amor  uma realizao que leva muito tempo, porque  trabalhado dia a dia. 
Contrrio da paixo, mais explosiva, que nem sempre tem um desfecho feliz..."
      Retomando a esferogrfica, Llia continuou:
      "Foi montada uma oficina para o trabalho dos artistas, e os carros de boi chegavam, trazendo grandes blocos de madeira. O Aleijadinho e seus ajudantes comearam 
a tirar dos tocos as 66 figuras em tamanho natural para a confeco da "Via Sacra dos Passos de Jesus". Aquelas mos doentes, que mal podiam segurar o macete e o 
cinzel, iam dando formas  madeira. Depois, os pintores vinham com banhos de tintas. Uma vez executadas, as 66 figuras foram postas nas capelas do Jardim dos Passos. 
Elas representam a "Ceia", o "Monte das Oliveiras", a "Priso de Cristo", a "Flagelao", o "Coroamento de Espinhos", "Jesus Carregando a Cruz" e a "Crucificao". 
Uma capela intermediria mostra um adulto deitado e um anjo anunciando-lhe algo em sonho. O Aleijadinho levou trs anos para esculpir essa Via Sacra, e a perfeio 
das imagens  fantstica! A gente sente a dor no rosto de Cristo, que est sendo crucificado, a angstia no olhar aflito de Nossa Senhora, a maldade no rosto dos 
algozes. Sabem o que Dirceu contou? Que, certa vez, revoltado com tamanha crueldade praticada contra Jesus, um fazendeiro mineiro, ao visitar as capelas, pregou 
um tiro em um dos carrascos..."
      Dando uma risada, Llia continuou:
      "Em 1800 chegaram os blocos de pedra-sabo para o Aleijadinho entalhar as obras para o adro da igreja de So Bom Jesus de Matozinhos. A doena havia-se agravado. 
Agora, para trabalhar, precisavam amarrar-lhe o cinzel e o macete aos tocos dos braos, pois ele no conseguia mais segurar os instrumentos. Mestre Aleijadinho vivia 
muito desgostoso porque fazia s oito anos que Tiradentes havia sido enforcado. Com isso, morria o sonho de liberdade para o Brasil. Depois de muito refletir, o 
Aleijadinho resolveu, finalmente, retirar das pedras sete profetas menores e cinco maiores. Por isso, hoje, a cada lado do adro da igreja esto Isaas e Jeremias 
- profetas maiores sustentando dois talisms. Logo atrs, no primeiro patamar, esto Baruque,  esquerda, e Ezequiel,  direita. Esses profetas maiores inclinam-se 
um para o outro. Sobre o terrao, Daniel - profeta maior - e Osias - profeta menor, ambos de perfil, com um joelho flexionado, os braos cados ao longo do corpo, 
olham-se face a face. Mais distante, Jonas e Joel aparecem de costas um para o outro. Nos ngulos curvos do ptio, Abdias e Habacuque - um com o brao direito e 
o outro com o brao esquerdo erguidos. Finalmente, em plano ltimo, Ams e Naum so vistos de frente. Por que a escolha desses apstolos? Naqueles rostos sombrios, 
nos gestos e nas formas, teria o Mestre Aleijadinho procurado representar os inconfidentes das Minas Gerais? A cada pancada, uma lasca de pedra  retirada. Vo surgindo 
as expresses carrancudas, os olhares fulminantes, as vestes esvoaando, corpos largos, musculosos, cheios de carne. Os enviados de Deus falam de guerra e paz, amor 
e dio, vida e morte - um verdadeiro bal mstico que cada pessoa interpreta conforme seu prprio corao. Foram nove anos de trabalho para concluir a dana dos 
profetas do adro do Santurio de Bom Jesus de Matozinhos, em Congonhas do Campo!"
      Nesse ponto, Llia interrompeu a escrita para pensar nos profetas que guardavam dentro de si o mistrio da verdadeira mensagem do Mestre Aleijadinho. Em seguida, 
continuou:
      "De repente, voltei a mim. Estava de p no meio da praa. Turistas olhavam desinteressadamente para toda aquela maravilha. Por que as pessoas no do  arte 
o valor que ela merece? Por que a maioria dos brasileiros interessa-se mais por futebol do que pelos trabalhos de um gnio como foi Antnio Francisco Lisboa? Olhei 
para o Beco dos Canudos, um conjunto de pequenas casas geminadas. Cobertas com telhas-canoas, ficam situadas ao lado esquerdo do jardim. Ali, o turista encontra 
artigos para lembranas: fotografias, cristais, opalas, turquesas, gatas, turmalinas, entalhes em pedra-sabo. Comprei uma pequena pia de gua benta. Quero deix-la 
em meu quarto para nunca mais me esquecer de Ouro Preto!"
      Em seguida, Llia assinou a carta. "Nunca mais me esquecerei de Ouro Preto..." - repetiu pensativa. Tinha certeza que isso nunca iria acontecer. Porque, no 
ntimo, ela no estava querendo ir embora to cedo de Minas Gerais. E o motivo disso era... Dirceu.

Um cinzento dia de chuva
      Llia abriu os olhos e escutou barulho de chuva.
      - Oh, essa no, So Pedro! - suspirou, afundando a cabea no travesseiro.
      Mas, ao lembrar-se de que Dirceu tinha falado que iria passar o dia em Belo Horizonte, imediatamente desmanchou a zanga com So Pedro. Dirceu bem poderia t-la 
convidado para ir at a capital; assim, ela poderia conhecer a cidade. Ele, porm, ia a servio com o pai, e Llia no tinha o direito de esperar um convite.
      - O dia vai custar para passar! - pensou, atirando longe as cobertas.
      Continuou deitada ouvindo o barulho em casa. Tia Ninota conversava com Candinha, mas no compreendia o que falavam. Llia, ento, ficou pensando naquelas duas 
mulheres que eram felizes, vivendo sozinhas naquele mundo. "Tia Ninota nunca se queixava de nada! Ser que no sentia saudade do marido? E Candinha? No tinha casado. 
Por qu? Alguma desiluso com namorados?"
      Pensando nisso, Llia lembrou-se do Marcos Csar e da me. Dona Flvia estava impressionantemente quieta, sem telefonar, sem escrever para falar do ex-namorado...
      - Alguma coisa ela est tramando! - murmurou Llia, sentando-se na cama. - Mame no  das que desistem fcil!
      Depois, trocou de roupa e saiu para o banheiro. Quando entrou na cozinha, Candinha acabava de sovar a massa do po.
      - O dia est chorando - observou Llia, dando uma olhada para fora. O peso da chuva havia deitado o ramo das rosas midas e as pencas de jasmim.
      - . Dia choro assim deixa todo o mundo resfriado - respondeu a empregada. - Nunca vi um tempo chuvoso igual a esse! Esse tempo anda mesmo maluco!
      - Cad a titia?
      - Foi at a dona Eullia, a vizinha de cima. Volta logo.
      Llia tomou o caf, provou uns sequilhos de polvilho, que desmanchavam na boca, e comeu goiabada. Depois, foi at  sala. Da janela, ficou observando a gua 
que caa sobre os telhados das casas. Quando chovia, Ouro Preto ficava cor de cinza, dava a impresso que os morros iam desabar, engolindo tudo. Llia arrepiou-se. 
Por que a chuva deixa a alma triste? No inverno deveria ser a mesma coisa. Tampinha havia falado que no tempo do frio ali era horrvel! Formava a neblina que descia 
dos morros e ningum via um palmo adiante do nariz.
      "Ser que  pior do que em So Paulo?" - perguntou-se Llia, riscando um D no vapor da respirao contra o vidro. Enquanto escrevia outras letras, ia pensando: 
"Teria Dirceu, mesmo com chuva, ido a Belo Horizonte? E o que estaria fazendo l naquele momento?"
      Ficou um bom tempo pensando no rapaz at que, de repente, ficou irritada por descobrir que estava com cime. Bobagem! Cime de quem? Esquisito sentir aquilo, 
mas at ali ela no havia conversado com Dirceu a respeito de outras garotas. O mais esquisito ainda era que ele tambm no tinha procurado saber nada a respeito 
dos ex-namorados dela!
      - O Marcos Csar  um bobo! - disse Llia, irritada, passando a mo no vidro e apagando o escrito.
      Como o dia estava custando a passar, ela pegou seu velho caderno e foi at  sala. Ali, comeou a escrever as coisas que sentia. Fazia tempo que no usava 
o gravador, preferia escrever as poesias, pois no queria que ningum as ouvisse.
      Quando colocava um ponto final, a porta abriu-se. Tia Ninota entrou, disse al e seguiu para o quarto.
       hora do almoo, parou de chover. Nuvens escuras boiavam no cu. Algumas pareciam engastalhadas no pico de Itacolomi.
      Elas estavam na sobremesa, quando chegou Tampinha. Sempre falante, usava uma velha capa que lhe chegava quase aos ps. Parecia uma freira! Tia Ninota revirou 
os olhos, mas no comentou. Tampinha era mesmo a menina mais maluca de Ouro Preto!
      As duas saram pouco depois para levarem a carta de Llia ao correio. O bom de Ouro Preto era que, parada a chuva, a cidade ficava sequssima. Foram descendo 
devagar a ladeira, at que, no se agentando, Llia perguntou:
      - Tampinha, responda pra mim: Dirceu tem outra namorada?
      Tampinha parou, congelada pelo choque. Custou a balanar negativamente a cabea.
      - No...
      - Ento, por que voc demorou tanto pra me responder?
      - Nada, nada!
      - Tampinha, voc est mentindo! Quando no existe nenhum "grilo", voc responde logo. Mas, desta vez, gaguejou!
      - Eu no gaguejei, Llia! - respondeu a outra, coando a franja. - O que acontece  que ele teve uma namorada. Veja: eu disse teve, pretrito perfeito do indicativo 
do verbo ter. Mas foi coisa de pouco tempo. Eles brigaram, acabou tudo...
      - E onde mora essa menina?
      Tampinha mordeu os lbios.
      - Em Belo Horizonte. Mas escute aqui - pediu ao ver a cara de Llia. - Juro por Deus que eles no tm mais nada! O namoro acabou, pretrito...
      - ...perfeito do verbo acabar, terceira pessoa do singular, j ouvi! - murmurou Llia, pensativa.
      - Por que voc est pensando nisso agora? - quis saber Tampinha. - At ontem  noite tudo ia to bem!
      Llia olhou para a amiga. Depois, ps-lhe a mo no ombro, suspirou e forou um sorriso:
      - Nada, nada, Tampinha! Desculpe! Acho que a chuva me deixou cor de cinza. Vamos esquecer o que eu disse, est bem?
      Tampinha confirmou com um movimento de cabea. Entretanto, no tinha certeza se de fato a amiga se esqueceria.
      Ento, silenciosas, desceram a ladeira comprida at que, virando a esquina, desapareceram.

Caminhando devagar, mos nos bolsos
       tarde no choveu. As nuvens carregadas iam e vinham sonolentas como se ao sopro de algum gigante. Llia foi  casa de Tampinha. L estavam Tereca e Tunica. 
Ouviram msica, falaram de teatro, poesia, tomaram caf. Mas, mesmo assim, as horas no passavam.
      - O dia est caminhando nas costas de um caramujo - falou Tampinha.
      s quatro horas, Llia voltou para casa. Caminhando devagar, mos nos bolsos. A temperatura tinha cado, Ouro Preto parecia Londres - foi o que pensou a menina, 
imaginando que um tempo daqueles deveria inspirar os fantasmas a darem umas voltinhas para assustar o pessoal.
      Ouro Preto era mesmo uma cidade encantada de um conto de fadas. Das lojas, portas e janelas, abertas para a rua, emanava um cheiro misterioso. Mofo? No era 
isso. Era cheiro de coisas antigas, de lembranas: "Se saudade tiver cheiro, esse  o cheiro da saudade" - pensou, correndo o dedo sobre uma parede spera.
      Lembrava-se de que, antes de conhecer Ouro Preto, muitas pessoas tinham tentado descrever-lhe o lugar. Mas, por mais detalhes que dessem, no conseguiam transmitir 
a coisa como realmente era. Por qu? Ou eles no sabiam mesmo descrever, ou Ouro Preto era mesmo uma cidade indescritvel? Dentre as amigas, lembrava-se de Las, 
a bonita garota de longos cabelos cor de ouro. Esperta, inteligente, Las morava no Pacaembu. Por que estava pensando em Las naquele momento? Porque, uma vez, Las 
tinha falado sobre Ouro Preto. Conseguiria Llia fazer a amiga sentir a terra dos inconfidentes? Como? Explicando que as casinhas eram geminadas, quase todas se 
erguendo sobre pores habitveis onde havia lojinhas, butiques, restaurantes e barzinhos? No bastava! Dizer que os casares emendados tinham caras de vovs tomando 
o sol do inverno? Tambm era pouco! Que a cidade era quase um nico telhado marrom-chocolate com pontos esbranquiados, como tortas de chocolate com chantilly? Verde 
tambm existia em toda Ouro Preto. Verde sob a forma de rvores nos pomares ocultando, parcialmente, fachadas, verde nas sarjetas, verde emergindo como tufos de 
avencas ou tmidas samambaias entre pedras, nos campos, nos morros. Sem dvida, o barroco era a linfa que sustentava aquele encantado mundo de casinhas de boneca. 
Pareciam brincar na montanha-russa para baixo, para cima, para baixo, para cima... Seria suficiente explicar  Las: "Imagine que voc acaba de entrar em um prespio". 
Talvez, fosse mesmo esse o melhor modo de definir aquele mundo de portinholas, janeles, grades de ferro, pedras entalhadas, pores escuros, torres, sacadas, cores 
contrastantes, muros, obeliscos, lampies, lanternas, chafarizes, bancos pesades, praas irregulares, ruas estreitas, ladeiras em curvas apertadssimas, que faziam 
com que os motoristas segurassem firme o breque do carro nas descidas. Era um mundo de torres de igrejas erguidas aqui e ali, por toda a parte. Ouro Preto era tudo 
aquilo, enraizado no ouro que ainda dormia debaixo daquela terra improdutiva para a lavoura.
      Enrugando a testa, Llia deu uma olhada para a frente e suspirou:
      -  isso que vou tentar contar pra Las!
      Chegou ao sobrado quando estava batendo cinco horas.
      Banho, jantar, escureceu. Llia continuava pensando em Dirceu. A conversa com Tampinha a respeito da namorada de Belo Horizonte continuava em sua cabea. Dirceu 
teve... ou continuava tendo uma namorada?
      Llia acabou concluindo que deveria tocar no assunto assim que tivesse a primeira oportunidade.
      Jantava-se cedo em casa de tia Ninota. s quinze para as seis, as duas j estavam sentadas  mesa grande, na cozinha. Candinha havia feito sopa de legumes.
      - Para esquentar e tirar a friagem - brincou ela, ser vindo boas conchadas.
      Llia e tia Ninota conversaram animadamente. A velha comentou sobre o teatro - tinha gostado e reconhecia em Dirceu um moo de valor. Llia pensou que ela 
estivesse abrindo caminho para falar de outros assuntos, mas a tia no disse a palavra namoro. A sobrinha ficou ressabiada. Por que a tia no fazia sermes, no 
insistia? Fosse dona Flvia, no perderia a oportunidade.
      J estavam na sobremesa, o telefone tocou.
      - Pode deixar que eu atendo, titia - ofereceu-se Llia, disparando para a sala.
      Apanhando o fone, colocou-o no ouvido. O rosto abriu-se em um sorriso largo.
      - Papai!
      - Oi, filha! - respondeu a voz do outro lado. - Como est?
      - Bem, e voc? E mame? O que aconteceu?
      - No se assuste, filha, est tudo bem! Apenas saudade, acho. Estou sentindo falta de voc.
      - Tambm estou com saudade de voc, papai. Est em casa?
      - No, ainda estou no consultrio.
      - E... mame?
      - Tambm muita saudade. No v a hora de voc voltar.
      Llia ficou pensativa: "Ser que a me no via a hora de ela voltar por causa do Marcos Csar?" J ia abrindo a boca para perguntar; porm, preferiu no tocar 
no assunto. Ento, contou ao pai que lhe havia postado uma carta de manh. Depois, falou da tia, do grupo teatral, de como era bom viver em Ouro Preto. Terminou 
com um suspiro:
      - Sabe, papai, eu adoraria poder continuar meus estudos... aqui. Voc no concorda?
      Uma longa pausa do outro lado. Ela percebeu que o pai havia sido apanhado de surpresa.
      - Depois que voc voltar, a gente conversa sobre esse assunto, est bem? Vamos esperar voc no aeroporto, domingo  noite, conforme o combinado. Certo?
      - Est bem, papai - respondeu, reticente, porque havia-lhe faltado coragem para pedir para ficar mais uma semana. - Um beijo pra voc. Gosto muito de voc, 
sabe?
      Recolocando o fone no gancho, ficou pensativa: "Pedir para ficar mais?" Pedir envolveria explicaes. A me pediria contra-explicaes e recomearia o atrito 
entre as duas. Llia ficou longamente olhando para o telefone. Esperava que o pai compreendesse que Ouro Preto estava sendo para ela mais do que um simples passeio 
de alguns dias de folga.

Encontro junto ao chafariz
      Como a igreja do Pilar s se abria ao meio-dia, depois do almoo, Llia e Dirceu foram visit-la. Haviam marcado encontrar-se  uma hora no chafariz prximo 
ao Palcio dos Governadores.
      O sol brilhava. O verde-esmeralda nos morros devolveu-lhe a alegria: "Sou mesmo boba por ter passado uma segunda-feira to deprimida!" - pensou. Agora, com 
o sol intenso, nem conseguia imaginar que Dirceu tivesse ido a Belo Horizonte para... visitar outra garota!
      Depois de atravessar a praa Tiradentes, viu que ele j a esperava junto ao chafariz. O corao bateu forte, Llia sentiu o sangue fluir-lhe ao rosto. Dirceu 
veio a seu encontro. Estava de calas desbotadas, camiseta vermelha, sandlias e tinha as mos para trs.
      - Oi! - deu-lhe um beijo na testa. - Sabe que esta  a antiga rua das Flores? Ento, nada melhor do que a gente dar uma flor para quem se gosta - e, tirando 
as mos de trs, entregou-lhe um boto de rosa vermelha. - Senti saudade sua!
      Llia ficou da cor da rosa e, levada por um impulso, retribuiu o beijo no rosto.
      - Tambm senti muita saudade de voc...
      De mos dadas, eles seguiram pela antiga rua das Flores at a Casa dos Contos, o imponente casaro todo branco com janeles encimados por arcos. Atravessaram 
a ponte dos Contos onde,  esquerda, havia uma cruz de pedra ao lado de um cipreste comprido. Seguindo pela rua Tiradentes, desceram pela Ladeira da Saudade at 
 igreja do Pilar.
      O majestoso santurio de duas torres tinha uma grande e alta porta de madeira estofada. O reboco branco apresentava sinais do tempo, e os recortes vermelho-amarronzados 
contrastavam" com o verde-cana da parte em madeira. A cpula das torres lembrava suspiros de acar. Havia uma nica cruz central fixa em um arabesco. Silenciosos, 
os sinos dormiam ao sol quente, na vigia, em suas torres.
      Os dois entraram. Protegendo a porta, havia um alto anteparo de madeira.  direita, uma prateleira. Um rapaz solicitava aos turistas que a!i deixassem suas 
mquinas fotogrficas, pois era proibido fotografar o interior da igreja.
      Olhando a toda volta, Llia sentiu-se pequena como um gro de areia. Que exploso de detalhes! A nave no era grande, mas o barroco ali era uma festa de linhas, 
curvas, volutas, flores, capitis, colunas, anjos e mil outros adornos. Havia trs altares de cada lado. Pela esquerda, enfileiravam-se da entrada para o altar-mor 
os de Santo Antnio, Nossa Senhora do Rosrio e Nossa Senhora das Dores. Esta imagem tinha o rosto como de porcelana. De seus olhos escorriam lgrimas de cristal. 
Vestia-se de veludo roxo.
      - Imagem de roca - explicou Dirceu. - Tem mos e rosto entalhados; o corpo vestido  de madeira bruta, como um manequim. Foi feita em Portugal, no sculo passado.
      Llia observou os entalhes de madeira do altar. Era uma revoada de anjos, flores e guirlandas recobertos por folhas de ouro, tudo sufocado por gladolos vermelho-sangue 
em vasos prateados.
      - Esta  a nica igreja onde os anjos tm sexo - disse Dirceu, brincalho. - D para voc notar a diferena entre os anjos e as anjas, no d?
      Llia caiu na risada.
      Do lado oposto, ficavam os altares de Nosso Senhor dos Passos (tambm imagem de roca), Santa Ana e o Crucificado.
      - Esta foi a igreja mais importante de Ouro Preto - disse Dirceu, conduzindo-a at a nave menor, a do altar central. - Aqui, os governadores da provncia eram 
empossados.
      Aquela nave era outra apoteose barroca. Toda dourada, de indescritvel beleza. A base do altar-mor apresentava-se entalhada com florais em fundo cinza. Lado 
a lado, subiam quatro grandes colunas de jacarand recobertas com folhas de ouro. Eram encimadas por capitis e sobre cada um deles repousava um anjo de p, em tamanho 
natural. As duas colunas internas uniam-se  altura do forro por uma guirlanda florida. Acima dela, via-se uma revoada de mais de cinqenta anjos em fundo azul. 
A base sobre a qual se encontrava a imagem de Nossa Senhora do Pilar, no altar-mor, a Virgem Maria Coroada, erguia-se em lances brancos, com apliques de flores 
de ouro. Nas paredes laterais, Llia observou a repetio de motivos decorativos semelhantes. O teto fechava-se com uma pintura da Santa Ceia.
      - Incrvel! - murmurou ela, dando uma passada de olhos pelos outros painis pintados, representando cenas bblicas. -  para a gente passar um dia inteirinho 
observando cada detalhe! Tudo vai muito alm da imaginao nesta igreja!
      Depois de mais alguns minutos em silenciosa observao, eles atravessaram uma porta que se comunicava com um corredor. Ali, pagaram para visitar o Museu da 
Prata, anexo  igreja. Depois de passarem uma portinhola, prosseguiram pelo corredor ao longo do qual enfileiravam-se pinturas do sculo 19, feitas sobre vidro. 
Havia tambm bas, tocheiros, candelabros, suportes para Bblia. A seguir, vinha um espaoso salo, com vrias imagens antiqssimas. A que mais chamou a ateno 
de Llia foi a de um santo gordo. Batina esvoaante, bochechas cadas, muito feio: So Francisco de Borja.
      - Quase redonda, notou? - perguntou o rapaz. - Se quer saber por qu, olhe atrs...
      Llia viu uma tampa de um palmo de largura por dois de altura.
      - Santo de pau oco - continuou Dirceu. - Antigamente, usavam essa imagem para contrabandear ouro. Espertinho o pessoal, no acha? Passavam a perna no fiscal... 
e o santo que levava a fama!
      Havia outras imagens e crucifixos. Mas o que mais chamou a ateno de Llia foi uma pesadssima mesa de madeira entalhada, em vinhtico, estilo D. Joo V. 
Seriam precisos dez homens taludos para transport-la.
      Terminada a visita ali, eles desceram at ao poro -  cripta.  luz artificial, em ambiente quase de um sarcfago, viram uma grande coleo de placas ornamentais, 
turbulos, caixas para os votos das eleies das irmandades, resplendores, espadas, balanas de So Miguel, coroas - tudo em pura prata. Llia tambm viu um missal 
de 1738, o Livro do Compromisso da Irmandade dos Pretos, de 1715 e, em um balco de vidro, um Menino Jesus de marfim, sinos e mais objetos de prata. No cho, sinos 
de bronze, talhas de igrejas e altares demolidos. . .
      Voltando ao salo anterior, subiram por uma escada de madeira ao segundo piso. Ali, Llia viu uma ceia em imagens de roca do sculo 18. As figuras em tamanho 
natural, vestidas com tecido, no tinham a graa das obras do Aleijadinho. Havia tambm um altar de Santo Antnio (imagem de roca), tendo, aos ps, um ba em cuja 
tampa estava escrito:
      "Do glorioso Capito, o Senhor Santo Antnio da Matriz de Ouro Preto, 1805".
      -        Eles promoveram o santo a capito? - perguntou ela, admirada.
      De resto, paramentos antigos em cetim adamascado, bordados em fios de ouro e prata, revelavam o esplendor da igreja no tempo do domnio portugus no Brasil.
      Terminada a visita, saram. Era como sair de um mergulho no passado para retornar  realidade.
      - Quem visita um lugar desses no pode nunca se esquecer de Ouro Preto! - comentou Llia. - Maravilhoso!
      - Est bem, menina, mas no precisa ficar com essa cara de museu! - brincou Dirceu. - Agora, vamos at  estao ferroviria respirar ar puro e curtir a natureza, 
est bem?
      Llia fez que sim. Sempre segurando o boto de rosa vermelha, j meio murcha, acompanhou-o passo a passo, devagar.

Os cus da antiga Vila Rica
      s cinco horas, quando voltavam para a casa, ali na praa Tiradentes, ele fez o convite:
      - Hoje  noite a nossa turminha vai jantar no Chafariz. Topa?
      - Comemorao especial?
      - Aniversrio de um amigo. De vez em quando, fazemos essas reunies.  gostoso!
      - Imagino! - e Llia sorriu. - Est bem, topo. A que horas?
      - s oito.
      Uma piscadinha, um beijo no rosto, ela seguiu pela rua da casa do poeta Gonzaga. Uma olhada para trs, um aceno, e Dirceu desapareceu engolido pela ladeira.
      Llia sentia-se feliz. Cantarolando, pensava nas belezas que tinha visto na igreja do Pilar. Ao passar em frente  casa do Gonzaga, olhou na direo de onde 
teria sido a casa de Marlia. Sentiu um aperto no corao ao pensar no grande amor que havia unido o poeta a Dorota. Ao entardecer, a natureza ficava carregada 
com tons mais fortes. O morro atrs da casa de Dorota era de um verde-azulado-escuro-mgico.
      Ao chegar  casa, o sol pintava o poente de cor de cenoura. As pencas de jasmins e rosas brancas floriam perfumosas no jardim. Da cozinha, ela ouviu Candinha 
cantando; na sala, o rdio estava ligado. Tia Ninota escutando msica sertaneja. Era tudo repousante, lindo! Quem desejaria ir embora de um mundo daqueles?
      Subiu correndo os degraus de pedra e foi direto ao encontro da tia, dando-lhe um beijo no rosto. Depois, contou todas as maravilhas que tinha visto. Quando 
terminou, a velha fez um aceno com a cabea e olhou para o boto de rosa.
      - Ponha essa coitada na gua - disse. - Est murcha! Mas, pelo jeito, ela foi mais importante que todas as obras de arte que voc viu, no foi?
      Llia ficou atrapalhada. Antes que respondesse, a tia acrescentou:
      - Eu sei, no precisa ficar a me olhando desse jeito! Tambm j fui mocinha e ganhei muitas rosas, pensa que no?
      - Titia, a senhora deveria ser investigador de polcia! - retrucou a sobrinha. - A senhora no deixa escapar nada!
      - Isso  para vocs, jovens, saberem que nem todos os velhos so gags como vocs dizem! - declarou tia Ninota, encolhendo os ombros.
      Llia tomou banho e vestiu-se de branco. Percebendo que ela mal havia tocado na comida, tia e empregada entreolharam-se. Llia resolveu esclarecer:
      - Comi pouco porque vou jantar com uns amigos no Chafariz. No  jejum de paixonite! Alguma dvida?
      - Nenhuma - respondeu a tia. - Apenas uma sugesto: no se esquea de pedir feijo-de-tropeiro. Visitar Minas e no comer o prato mais famoso  a mesma coisa 
que ia a Roma e no ver o Papa.
      s sete horas, Llia desceu para a casa de Tampinha onde Tereca e Tunica j a esperavam. Tampinha estava gloriosa! Com a franja repartida, havia colocado uma 
enorme fita roxa de cada lado da cabea. De longe, parecia avio de duas hlices.
      - Ela est toda saliente s porque vai ver o Chico - disse Tereca, rindo molengona.
      - No  nada! - zangou-se a baixinha.
      -  sim! Faz mais de ano que voc arrasta as asas para ele, pensa que no sei? - teimou Tereca, rindo abafado.
      - Estamos em famlia, no precisa disfarar - xereteou Tunica.
      - Todos ns sabemos que, para voc,  Deus no Cu e Chico na Terra...
      - Acho melhor no discutirmos por causa de namorados - aparteou Llia. - Se voc gosta mesmo dele, Tampinha, por que esconder?
      - Porque ele d oito dela - explicou Tereca, numa risada de sacudir o corpo inteiro. - Chico parece uma jamanta... e ela uma xicrinha de caf!
      - V amolar o boi! - resmungou Tampinha, batendo os ps. - No vou deixar que palpites cretinos estraguem a minha noite gloriosa! Vamos, Llia, d c o brao. 
Voc  a nica que me compreende!
      As quatro subiram devagar para o restaurante onde os amigos j as esperavam. Dirceu estava conversando com Daniel e mais um rapaz alto, magro, de cabelo curtinho. 
As meninas foram chegando. Abraos, parabns ao aniversariante, conversas, at que, chegando do fundo do restaurante, apareceu um sujeito alto. A cabea quase batia 
no teto.
       Tinha cara de beb, olhos redondos e sorriso largo. Quando o viu, Tampinha avermelhou.
      - Precisa que algum lhe apresente Chico? - perguntou Tereca, cutucando Llia. -  isso a!
      Os jovens uniram as mesas e puseram-se a examinar o cardpio. Llia observou o restaurante cujas duas largas portas abriam-se para a rua estreita, a mesma 
onde existia a casa de Tiradentes. O teto era de tbuas largas e, ao centro, era apoiado sobre um trilho. Devia ser um lugar muito antigo! O que teria sido ali no 
passado? Alguma taverna? Um armazm! Ou uma ferraria? Ser que Tiradentes nunca teria entrado... ali?
      Dali a pouco, a mesa estava forrada com refrigerantes. Sendo dia de semana, o movimento do restaurante no era grande. Eles tambm pediram salgados para comemorar 
o aniversrio do Jorge Lus, o de cabelo curtinho. Depois da refeio, sobremesa e cafezinho, com alegria e muitas risadas, Vanderci pegou o violo e comeou a cantar. 
Dirceu retirou a flauta do bolso e acompanhou-o. Pegando a caixinha de fsforo, Daniel fez a marcao do sambinha. Em poucos minutos, estava improvisado o conjunto 
ao qual at o Chico aderiu cantando.
      Foi uma noite deliciosa! A reunio s terminou s quinze para as onze. Ento, os amigos voltaram para a casa, debaixo de um luaro prateado que boiava nos 
cus da antiga Vila Rica.

O sangue negro de Aleijadinho
      Na tarde de quarta-feira, todo o grupo foi visitar a igreja de So Francisco de Assis, situada de frente para a casa do poeta Gonzaga.
      A fachada do santurio  diferente das demais igrejas de Ouro Preto, que so planas e com torres em linhas retas. A igreja de So Francisco tem o frontispcio 
projetado para a frente. Apresenta, tambm, sacadas laterais  porta (na frente), que  encimada por um medalho em pedra-sabo, representando o santo de Assis. 
Suas torres cilndricas erguem-se em recuada do frontispcio.
      - Bonita, no ? - perguntou Dirceu. - Projeto do Aleijadinho, o Mestre Lisboa. Esse medalho de So Francisco  uma de suas mais belas obras!
      Entraram.  porta, uma mesinha e um rapaz vendendo ingresso. Sendo a igreja um museu, cobra-se uma pequena taxa para sua conservao e limpeza. O interior 
apresenta altares com imagens de roca. Todas com expresso triste e roupas em marrom-caf, pois  essa a cor do hbito dos frades da Ordem Terceira de So Francisco. 
Tambm h um belssimo plpito ricamente entalhado. O piso assoalhado em madeira  dividido em quadros e tem um pequeno orifcio ao centro. Daniel explicou que, 
antigamente, os frades eram ali sepultados.
      Atravessando silenciosamente a capela, foram admirar o retbulo do altar-mor, construo entalhada em arabescos que fechava todo o fundo do altar at o teto. 
Fascinada, Llia no conseguia desviar os olhos da expresso risonha dos anjos barrigudos, das guirlandas de flores, das colunas e volutas talhadas pelo genial Aleijadinho.
      - ...um mulato baixo, gordo, cabeudo, de testa larga, lbios grossos, orelhas de abano, pescoo engolido, barba espessa, quase um monstro disforme. Sempre 
escondido dentro de uma casaca azul de pano grosso, que lhe chegava at aos ps - murmurou Dirceu, descrevendo o artista daquela obra-prima. - Ele precisava usar 
sapatos especiais e, quando trabalhou nesta igreja, estava com sessenta anos...  Todo deformado pela doena que dia a dia o aleijava mais e mais...
      Como podia Llia imaginar um ser humano feio e disforme daqueles, tirando tanta beleza da madeira e da pedra?
      Saindo por uma porta  direita, eles visitaram o museu do Aleijadinho, localizado nos fundos e na parte superior da igreja, onde chegaram subindo por uma comprida 
escada de madeira.
      Terminada a visita ao segundo cmodo, os dois ficaram um pouco ali no alto. Da lateral coberta da igreja, podiam avistar a baixada de Ouro Preto na direo 
da Matriz de Antnio Dias e o sobrado de tia Ninota - o bairro da Lapa. Os sete amigos debruados observaram a cidade sossegada.
      - Impressionante! - disse Tampinha, coando a franja. - Como Mestre Lisboa conseguiu fazer tanta coisa bonita? Meu Deus, eu que tenho as duas mos perfeitas 
no consigo fazer nem um boneco de papel!
      - Contam que, uma vez, Mestre Lisboa aprontou uma boa para Jos Romo, ajudante de ordens de Bernardo Jos de Lorena, o governador de Minas - disse Daniel, 
brincalho. - O governador tinha mandado chamar Mestre Lisboa ao palcio. Ao v-lo, Jos Romo assustou-se e disse: "Nossa, que homem mais feio!" Com isso, Mestre 
Lisboa ficou irritado e perguntou: "Foi para me chamar de feio que vocs mandaram que eu viesse aqui?" Nisso, chegou o governador e pediu ao Aleijadinho que esculpisse 
uma imagem de So Jorge, no tamanho de um adulto, com articulao nos joelhos. Essa imagem desfilaria, montada a cavalo, na procisso de Corpus Christi. "Uma esttua 
assim, parecida com o meu ajudante de ordens" - disse o governador, olhando para Jos Romo. E o que fez Mestre Lisboa? Vingou-se, fazendo a imagem de So Jorge 
com a cara do Z Romo! Tanto assim que, depois da procisso na qual So Jorge saiu pela primeira vez, todo o mundo recitava esta trovinha: "O So Jorge que ali 
vai, com ares de santarro, no  So Jorge nem nada,  o coronel Jos Romo!" Todos caram na risada.
      - Ouvi dizer que at aos quarenta e sete anos, Antnio Francisco Lisboa, o Mestre Lisboa, era um homem muito alegre - observou Tereca. - Foi a que ele comeou 
a sofrer aquela doena deformatria. Uns dizem que era zamparina, epidemia que primeiro apareceu no Rio de Janeiro.  uma doena que ataca o sistema nervoso e o 
sistema locomotor. Outros dizem que era escorbuto, falta de vitamina no corpo. Tambm falam em sfilis, em lepra... Que coisa, essa vida  mesmo esquisita! Justamente 
um escultor, aquele que mais precisa das mos, acaba perdendo-as! Mas, Mestre Lisboa foi um homem de tal coragem que, mesmo sem elas, continuou esculpindo. No  
incrvel?
      - Para piorar, ele era mulato, filho de uma negra escrava e de um portugus - murmurou Vanderci, pensativo. - Viveu como bastardo em um mundo de preconceitos 
onde s os brancos mandavam. Mestre Lisboa foi mais do que um artista, ele foi um heri!
      Imediatamente, Llia pensou no sangue negro que corria nas veias de Dirceu. O que diria dona Flvia quando soubesse?
      - Onde nasceu Mestre Lisboa? - perguntou ela, procurando afugentar o pensamento.
      - Aqui mesmo - respondeu Daniel. - Ningum sabe a data certa, teria sido entre 1730 e 1738, era filho de Manuel Francisco Lisboa e de uma escrava. Nessa poca, 
Ouro Preto era a capital da Provncia, vindo para c todo o ouro extrado das Minas Gerais. Por esse motivo, era a capital cultural do Brasil. Aqui existia o melhor 
comrcio, viviam religiosos ilustrssimos, doutores que haviam estudado na Europa, poetas, msicos, artistas. . . No foi  toa que comeou, aqui, o movimento da 
Inconfidncia! Ouro Preto era a capital cultural do Brasil! Isso fez com que se iniciasse o grande movimento de construo de igrejas, pois as irmandades precisavam 
comprovar a sua fora poltica.
      Olhou, ento, rumo  Matriz de Antnio Dias.
      - Foi esse movimento que levou dois irmos portugueses a emigrarem para o Brasil: Antnio Francisco Pombal e Manuel Francisco Lisboa. O primeiro, um grande 
entalhador, completou os entalhes da capela-mor da igreja de Nossa Senhora do Pilar. O segundo, mestre de ofcio de carpintaria, assumiu o risco e a direo das 
obras da Matriz de Antnio Dias. Foi esse homem que, unindo-se a uma negra, teve um filho ao qual deram o nome de Antnio Francisco Lisboa, o futuro Aleijadinho...
      - Quer dizer que a arte estava no sangue da famlia, no ? - perguntou Tunica.
      - Estava - concordou Daniel. - Alm de arquiteto, o pai do Aleijadinho era um grande artista. Quando o pequeno Antnio Francisco era apenas uma criana, o 
pai j dirigia importantes construes em Ouro Preto: a Casa da Cmara... o presdio... a ponte sobre o crrego Antnio Dias...  chafarizes...  Isso sem falar de 
outros trabalhos que andou fazendo em outras cidades por a!
      - E como foi que o menino Antnio Francisco aprendeu tantas coisas? - quis saber Llia.
      - Acompanhando o pai ao servio, vendo, observando, ajudando. Ele via o pai entalhar pedras, desenhar fachadas, ajudava nos projetos. Era um menino muito inteligente! 
Certamente, o pai e o tio o ensinaram a ler, a escrever, a contar... Dizem que o nico livro que ele leu foi a Bblia. Seria esse o motivo pelo qual vivia to ligado 
aos temas religiosos? Os frades tambm lhe ensinaram um pouco de latim e de msica. O menino no perdia tempo, aprendia
tudo o que podia, principalmente quando observava os grandes mestres como, por exemplo, Joo Gomes Batista, artista portugus que conhecia a fundo a arte da fundio, 
e Francisco Xavier de Brito, grande entalhador. Certamente, esse menino conheceu tambm dezenas de arquitetos, projetistas, entalhadores, canteiros, pintores, uma 
centena de artistas cujo nome a Histria no guardou e que viviam a por Ouro Preto. Esses artistas desconhecidos deixaram suas obras nas casas, nas igrejas, nas 
imagens, nas pontes, em toda a parte...
      Daniel continuou:
      - Mais tarde, o pai dele casou-se com uma portuguesa, Antnia Maria de So Pedro, quando Aleijadinho ainda era pequeno. Do casamento, nasceram quatro filhos. 
Como foi a vida do pequeno Antnio Francisco? Teve carinho ou sofreu? Quem  que sabe? Quando o pai morreu, Antnio Francisco estava na casa dos trinta. Era um homem 
decidido, no queria ser pedreiro nem mestre de obras nem construtor. Ele sonhava mais alto: desejava ser entalhador e escultor. E foi! Antnio Francisco imortalizou 
suas obras, que continuam vivas at hoje em toda a Ouro Preto e em quase toda Minas Gerais!
      - Dizem que tinha um gnio muito forte! - acrescentou Vanderci. - Depois que ficou doente, Antnio Francisco passou a fugir de todo mundo. Achava que os outros 
riam dele porque, alm de feio, ficava cada vez mais deformado. Ele tinha trs escravos que sofriam muito em suas mos! O escravo Maurcio o acompanhava por toda 
a parte e era tambm um grande entalhador. Negro fiel e dedicado. s vezes, quando irritado, Aleijadinho lhe despejava a raiva em cima, atacando-o a bengaladas. 
Outro escravo, Agostinho, tambm o ajudava como entalhador. Quanto a Janurio, punha seu dono no burro e dirigia o animal por toda a parte onde o Mestre Lisboa quisesse 
ir. Quando o Mestre estava
trabalhando na Matriz de Antnio Dias, geralmente voltava para a casa... nas costas do Janurio. Isso, porque o Aleijadinho morava perto da igreja, claro.
      - Perto? - admirou-se Llia. - Onde?
      - Ali, no bairro da Lapa, onde fica o sobrado de sua tia Ninota.
      O vento despenteou o cabelo de Llia, que continuava olhando sonhadora para a Matriz de Antnio Dias.
      - Quando ele morreu? - perguntou com voz apagada.
      - Em novembro de 1814, dia 18 - respondeu Vanderci. - Por causa da doena, nos ltimos anos de sua vida Mestre Lisboa pouco trabalhou. Durante quatro anos, 
ele viveu em casa de sua nora Joana. Seus dois ltimos anos de vida passou deitado em um estrado de tbuas, sem levantar-se, com um lado do corpo todo cheio de feridas. 
Dizem que s fazia uma coisa: ler a Bblia e pedir a Deus que lhe desse descanso. Finalmente, Deus ouviu-lhe os pedidos... e o menino Antnio Francisco finalmente 
adormeceu. Foi um enterro muito simples. Aleijadinho foi sepultado ao p do altar de Nossa Senhora da Boa Morte, na Matriz de Antnio Dias.
      Calou-se Vanderci. Llia tinha a garganta apertada e lgrimas nos olhos. Por que estava emocionada? Pelo homem ou pelo artista?
      No sabia responder. A vida do mulato aleijado era um profundo mistrio. Ali estava a prova de que a alma e o corpo no so uma nica coisa. A prova de que, 
independente da cor da pele, o homem pode estar mais perto de Deus.
      As obras do Aleijadinho atestavam essa grande verdade.

Heris da terra de horizontes mais bonitos do Brasil
      Quarta-feira  noitinha. Dirceu e Llia saram para tomar sorvete. Em janeiro a noite demora para cair. s sete e meia o cu ainda tomava lampejos de ouro 
em fundo violeta. Quando os dois se encontraram, as primeiras estrelas mal despontavam.
      - S agora entendo por que Belo Horizonte tem esse nome - disse Llia, observando o morro atrs do qual o sol tinha-se enfiado para dormir. - Nunca vi pores-de-sol 
to bonitos como estes!
      - Oferta da casa! - brincou o rapaz. - Em Minas, os horizontes so sempre coloridos.
      - Ento, Minas  a terra dos horizontes mais bonitos do Brasil!
      - Nenhum deles  to bonito como voc, Marlia! - murmurou ele, muito srio.
      Llia estremeceu. Seu rosto parecia translcido  luz dos postes que comeavam a acender-se. O vento brincava-lhe com os cabelos. Ela estava toda de branco, 
romntica, contra o fundo dos casares histricos. Os olhos negros, sonhadores, lbios vermelhos, uma expresso de radiante felicidade.
      - Voc  muito bonito! - disse ela, levando-lhe carinhosamente a mo ao rosto. -  bonito por fora... e por dentro!
      Com ternura, Llia deu-lhe um rpido beijo nos lbios. Depois, pegou-o pela mo.
      - Vamos! Quero o sorvete que me prometeu. Duplo e de morango!
      Conversando alegremente, eles dirigiram-se a um barzinho na praa Tiradentes.
      Apesar de Llia rir alto e de brincar, dava para transparecer que algo lhe perturbava a alma. Dirceu sentiu aquilo. Depois do sorvete, enquanto o ventinho 
frio soprava, eles caminharam de mos dadas em direo  Ladeira da Saudade.
      - Voc est sentindo alguma coisa? - perguntou ele, quando o silncio s era quebrado por vozes distantes. - O que ?
      A pergunta pegou-a de surpresa. Como explicar o que sentia? Tristeza porque no fim da semana iria embora? Preocupao por causa da namorada em Belo Horizonte? 
No, nada disso! A histria do Aleijadinho a tinha posto triste. No podia esquecer-se do triste fim de vida daquele artista que havia sofrido tantas presses pelo 
fato de ser feio, aleijado e negro. No o haviam perdoado apesar de ter doado tantas maravilhas ao mundo?
      - Estou um pouco deprimida,  s! - confessou, a custo. - Foram as coisas que ouvi sobre... Mestre Lisboa!
      Ele compreendeu. Sabia que aquela garota era muito sensvel, que as menores coisas a abalavam. Interrompendo a caminhada, olhou-a de frente. No silncio dos 
olhares, ele leu um grito de protesto na alma de Llia: "Voc tambm tem sangue de negro, e tambm  artista! Estou preocupada com voc!" Entretanto, Dirceu nada 
comentou. Continuou olhando-a firme, como se respondesse: "Apesar dos preconceitos, o mundo mudou um pouco, Marlia! No de todo, mas um pouco. Sou um artista e 
prometo que, por amor  minha arte, no hei de ter o mesmo fim que ele teve!"
      Levada por forte emoo, Llia ergueu os braos, atirou-se ao pescoo dele e beijou-o.
      - No quero que voc sofra! No quero que o mundo maltrate voc! - exclamou.
      Ficaram abraados por alguns momentos. Depois, com ternura, ele afastou-lhe os braos.
      - Ei, garota, que  isso? Coragem! A culpa foi toda minha que lhe contei fatos tristes sobre uma vida alegre! Vamos, acabe com essa cara feia! Vou-lhe contar 
uma histria divertida. Quer ouvir?
      Ela fez esforo para sorrir. Ento, eles sentaram-se na Ladeira da Saudade. Para cima, a cidade. Para baixo, a igreja do Pilar, adormecida ao luar.
      - Era um vez uma mulata bonita, decidida e de cabea oca - comeou Dirceu. - O nome dela era Francisca da Silva e morava no Tijuco, atual Diamantina. Pois 
bem, Chica da Silva virava a cabea de qualquer homem! Foi nessa poca que ali chegou o desembargador Joo Fernandes de Oliveira, contratador de diamantes, homem 
de muito dinheiro. O que fez Chica da Silva? Tanto mexeu, tanto se mostrou, que acabou deixando o "portuga" doido. Ele ficou de tal modo embeiado pela mulata que 
jurou satisfazer-lhe o maior sonho de sua vida:  que Chica queria viajar de navio, sem precisar ir ao mar. Ento, o "portuga" mandou construir um gigantesco aude 
e um navio a velas, igualzinho a um navio de verdade. Assim, Chica da Silva pde, sossegadssima, navegar no seu navio, sem ter de viajar at ao oceano! Llia sorriu.
      - E tem mais, hein? - continuou Dirceu. - Sabe que Chica da Silva costumava ir  igreja toda coberta de diamantes? Ia acompanhada por doze criadas no maior 
rigor! Dizem que, quando ela passava, todo o mundo se curvava e vinha beijar-lhe as mos. A coisa chegou a tal ponto que, enciumado com a popularidade da mulata, 
D. Joo V, rei de Portugal, proibiu negros e mulatos, mesmo livres ou alforriados, de usarem seda, tecidos finos e jias!
      - Desaforo! - protestou Llia. - Chica deu bola?
      - Deu nada! Viveu feliz e morreu numa cama de cetim!
      Com um gesto de ternura, Dirceu abraou-a.
      - E o Chico Rei, j ouviu falar dele?
      - No...!
      - Era chefe de uma tribo na frica. Um dia, os traficantes de escravos o prenderam com sua mulher e filhos e os trouxeram para o Brasil. Foi uma viagem horrvel! 
Muitos negros morreram - inclusive a mulher e os filhos dele, sobrevivendo apenas um. Quando o navio chegou ao Rio, Chico Rei, foi vendido como escravo para trabalhar 
nas minas, aqui em Ouro Preto. Mas, apesar de escravo, pensa que ele desanimou? Nada disso! Trabalhou como um touro, juntou dinheiro, comprou a liberdade do filho, 
a dele prprio,
a de amigos. . . Foi libertando um a um, todos os que pertenciam  sua tribo africana. Com o tempo, Chico Rei comprou a mina de ouro chamada Encardideira, que fica 
na sada para Mariana. Casado pela segunda vez, comeou a ser visto pelos amigos como rei de verdade e acabou fundando um Estado dentro de Minas Gerais. Assim, tornou-se 
rei, e sua mulher, rainha. Agradecido a Deus, com o ouro de sua mina Chico Rei mandou construir, no morro do Vira-Saia, aqui em Ouro Preto, a igreja de Santa Ifignia. 
Sabe o que ele exigiu? Que todas as imagens fossem negras: Santa Rita de Cssia, So Francisco de Assis, as Nossas Senhoras...
Todo dia 6 de janeiro - dia dos Reis Magos - l estavam o Chico Rei, sua mulher, a rainha, os prncipes, a corte inteira para v-lo ser coroado. Llia respirou fundo.
      - Bonito! Um rei africano que se tornou rei no Brasil!
      Fez uma pausa e olhou para o telhado da igreja do Pilar, agora transformado em pura prata de luar.
      - Sabe de uma coisa, Dirceu? Foi bom Ouro Preto ter acontecido em minha vida. Aqui, conheci um outro lado do mundo, uma realidade diferente que no existe 
em minha terra... conheci voc..  a Ladeira da Saudade...  No vou-me esquecer de tudo isso. Prometo! Nem que eu viva mil anos!
      Ele continuou com o brao sobre o ombro dela. Sentados nas pedras. Juntinhos, felizes, identificados, ao sabor da brisa e assistidos pelo luaro que preguiosamente 
fazia a sua jornada pelos caminhos das estrelas.
25
Leve-me nas asas do seu amor
      Na quinta-feira de manh, Llia e as Tetets foram conhecer a Matriz de Antnio Dias. Como nos demais santurios barrocos, viram uma sucesso de anjos, flores 
e guirlandas recobertos de folhas de ouro. No altar-mor, a Virgem da Conceio. O coronel Ccero Pontes a encomendara em fins do sculo 19, cpia da Virgem pintada 
por Murilo, famoso pintor espanhol. A Virgem ascendia aos cus, tendo aos ps uma revoada de anjinhos barrigudos. O fundo do altar era em azul-claro e amarelo-palha. 
Ao lado da Virgem, as imagens de So Joo Nepomuceno e Santa Brbara, ambos em tamanho natural, esculturas do sculo 18. Ficavam em nichos protegidos por colunas 
abraadas por guirlandas que subiam at o teto. Ali, outra revoada de anjos parecia aguardar a chegada da Virgem.
      Na Sala das Tribunas puderam admirar palmas, relicrios em madeira do sculo 18, sacras - ou suportes para os livros de missa - com aplicaes de ouro. Na 
Sala do Consistrio, amplo salo onde antigamente eram realizadas as assemblias das irmandades, estavam expostos antigos livros com registros de compra e venda 
de escravos, testamentos e livros das irmandades. Ali, tambm viram os registros de bito de Mestre Lisboa, o Aleijadinho, e de seu pai.
      Capas de asperges, em damasco, bordadas com fios metlicos verde e prata, agrupavam-se naquele museu. Sustentado por oito varas de jacarand com anis de ouro 
e terminais de prata, o plio servia para cobrir o Santssimo quando da procisso do Corpo de Deus ou outras importantes cerimnias religiosas. Na sala da sacristia-mor 
havia esculturas da primeira metade do sculo 18. Depois, a turma visitou a cripta, poro com paredes forradas de pedras, colunas de grandes blocos tambm de pedra 
e tbuas largas no assoalho. Ali, puderam admirar muitos ornamentos de prata e a famosa imagem de So Francisco de Paula, obra do Aleijadinho. Tinha a cabea esculpida 
em pedra-sabo pintada, e roupa de veludo bordada em gales de prata. A par, uma coleo de crucifixos, turbulos, campainhas, mesas, cetros de irmandades, taas 
de prata, um grande Crucificado do sculo 18, obra tambm do Aleijadinho. E, antes de irem embora, estiveram visitando, em respeitoso silncio, o tmulo do grande 
artista barroco, debaixo do altar de Nossa Senhora da Boa Morte. Nele, entalhada na madeira, havia a seguinte inscrio: "Aqui jaz Antnio Francisco Lisboa, o Aleijadinho. 
1738(?) 1814".
      Em seguida, visitaram a igreja de Santa Ifignia, para conhecer as imagens negras do Chico Rei. Com isso, a manh voou.
       tarde, as quatro tornaram a sair para visitar a Prefeitura, o Centro de Estudos e o Morro da Forca.
      s quinze para as sete, depois da janta, Llia encontrou-se de novo com Dirceu, l no chafariz, na esquina da antiga rua das Flores com a praa Tiradentes. 
Aquela noite, ela sentia-se muito  vontade. Tanto que conseguiu fazer a pergunta que lhe estava presa na garganta. Foi  queima-roupa:
      - E aquela sua namorada de Belo Horizonte?
      Dirceu deu uma olhada. Ficou srio, mas logo caiu na risada:
      - Aposto que foi Tampinha quem andou batendo com a lngua nos dentes, no foi?
      - Bem, eu perguntei.
      Dirceu contou tudo. Sim, ele j tinha tido algumas namoradas, relacionamentos que no haviam durado muito tempo. Renata Cludia era a menina de Belo Horizonte.
      - Se quer saber a verdade, ela mudou-se para Caratinga. A gente nem se corresponde.
      Llia encolheu os ombros.
      - Agora, voc - pediu ele. - Quero saber tudo sobre os rapazes de sua vida.
      Llia no guardou segredo algum. Na verdade, no tinha tido muitos namorados. O ltimo havia sido Marcos Csar e... quando terminou o relatrio, notou certa 
apreenso no rosto de Dirceu.
      - O que sua me est achando deste seu passeio a Ouro Preto? - perguntou.
      Ela estremeceu.
      - Para dizer a verdade, no sei! Parece que est tudo muito bem, mas, s vezes, fico assustada, porque mame no  de desistir fcil. Estou achando muito estranho 
que ela nem tenha me telefonado para dizer como o Marcos Csar est sofrendo por minha causa!
      - Ora, vamos deixar esse careta e a sogra para l! - brincou Dirceu, procurando afugentar a tristeza. - Escute, por que voc no...
      Calou-se, porm, antes de terminar a frase.
      - Vamos, pergunte! O que voc ia dizendo? - insistiu ela.
      - Bem, por que voc no pede transferncia para estudar em Ouro Preto? Voc disse que quer fazer o magistrio, quer ser professora. Temos boas escolas e... 
      Os olhos dela brilharam.
      - Foi exatamente isso que pedi a papai, quando ele me telefonou. Mas, antes, ele acha que a gente deve conversar pessoalmente. Por isso, quando eu voltar a 
So Paulo, vamos discutir o assunto. Domingo est to perto! - suspirou. - Temos s a sexta e o sbado. Depois...
      - No fale do depois, Marlia! - pediu o rapaz. - Vamos deixar o depois para depois, t? Est uma noite to linda! Por que estragar tudo com preocupaes?
      - Est bem!
      - Agora, vamos at minha casa, que quero dar-lhe uma
lembrana.
      - Uma lembrana? Meu Deus, o que ser?
      Seguiram ambos pelas ruas conhecidas. Depois de descerem a Ladeira da Saudade, entraram no salo do teatrinho dos fantoches do Grupo da Pedra-Sabo. Luz acesa. 
Nos cmodos dos fundos, o rdio estava ligado.
      - O pessoal da prefeitura ainda no deu resposta se vai ajudar vocs? - perguntou ela, dirigindo-se aos fantoches.
      - Ainda no. Mas acho que  quase certo que vo - respondeu Dirceu, desaparecendo atrs do palquinho. Llia ficou olhando. Dali a pouco, escutou msica de 
flauta - gravao. Aquela mesma msica que ele havia tocado para ela na ponte de Marlia. Em seguida, apontou no palquinho o poeta Toms Antnio Gonzaga. Llia riu.
      Abrindo os braos, o poeta comeou a declamar:
      "Menina dos cabelos cor de vento,
      menina que tem a voz do luar;
menina dos olhos pretos como os morros da noite de minha terra! 
Marlia, a doce Marlia dos lbios-boto-de-rosa e sorriso da Virgem. 
No deixe o seu poeta sozinho nas brumas de Ouro Preto-saudade, Marlia!
Quando voltar para a garoenta terra dos bandeirantes, quero partir com voc, Marlia... 
      Leve-me nas asas do seu amor!"
      O fantoche estendeu-lhe a mozinha.
      Emocionada, Llia segurou-a.
      - No precisava pedir, meu querido pastor! - disse com ternura. - Marlia levar voc para a terra dos bandeirantes, mas Marlia promete que voltar um dia... 
Ela voltar porque... sem voc, meu poeta, no h motivos para Marlia existir!
      Erguendo-se na ponta dos ps, ela deu um beijo no fantoche.
      Detrs do palco, Dirceu sabia que aquele beijo era para ele. E a promessa de voltar tambm.

O sobrado ficou mais alegre
      O relgio da sala tiquetaqueava preguioso. Eram quase nove horas de uma deliciosa manh de sexta-feira, quando o telefone tocou. Tia Ninota pegou o fone e, 
depois de uma rpida conversa, desligou.
      - Oh, Deus do cu! - murmurou, caindo sentada numa cadeira.
      - O que foi, dona Ninota? - perguntou a Candinha, assustada com a expresso da patroa.
      - A prima Carminha. Lembra dela? Mulher do Juca Oliva, l de Sabar. Pois est hospitalizada em Belo Horizonte. Passando muito mal. Acham at que desta vez 
ela no escapa!
      Llia sentiu um aperto na boca do estmago.
      - Coitada! - murmurou Candinha. - Uma mulher to alegre! Gostava tanto de contar piadas sujas...
      - Candinha, no  hora de pensar nisso! - retrucou a tia, fazendo cara feia. - , me ajudem, eu preciso ir v-la. Coitada da Carminha!
      - Ajudamos sim, titia, ajudamos! - concordou Llia, segurando-a pelo brao e amparando-a at ao quarto. - Onde est a sua mala?
      Sentada na cama, a tia abanava-se nervosamente.
      - Llia, como vou deixar voc aqui sozinha? Se Carminha piorar, no sei quando poderei voltar e...
      - Titia, no sou nenhum nenezinho que precisa de mamadeira na boca! - respondeu a sobrinha. - Candinha est a, tudo bem! No se preocupe! Quais vestidos a 
senhora quer levar?
      Com os olhos vermelhos, a tia deu uma fungada.
      - Escuros. Voc no acha melhor eu ir prevenida?
      Apesar da expresso de tristeza da tia, Llia quase deu risada, pois tia Ninota fazia uma cara engraada.
      Estava Llia colocando as roupas na mala, quando escutou barulho de colherinha mexendo na xcara. Entrou Candinha com um ch de hortel cujo aroma perfumado 
logo inundou o quarto.
      - Tome um pouco, dona Ninota - recomendou. -  bom para os nervos.
      - Eu no estou nervosa, Candinha! - protestou a tia, com um olhar reprovador.
      Diante da carranca da empregada, ela s teve de apanhar a xcara e tomar a bebida. Depois, Candinha retirou-se e, talvez pelo efeito do ch, a tia retomou 
o controle.
      - Est bem! - disse, levantando-se. - Acho que j sou capaz de arrumar a minha prpria mala. Vejamos, quais vestidos voc colocou a?
      Como o nibus s sairia dentro de uma hora, tia Ninota teve tempo para um banho, vestiu um conjunto de algodo cinza e, vinte minutos depois, o carro de aluguel 
chegava ao sobrado.
      Candinha olhou pela janela e j foi empurrando a patroa para fora. Llia carregou a mala. Ela resolveu ir at  rodoviria com a tia.
       Uma vez no automvel, a tia ps a cabea para fora e comeou:
      - Cuide direitinho da casa, Candinha! Feche portas e janelas! No se esquea da comida para Llia. Se precisar de algum recado, telefone, o nmero do hospital 
est na caderneta, debaixo do vaso... - O motorista ficou olhando pelo retrovisor at que a tia ordenou que seguisse. Mal, porm, o carro havia arrancado, ela enfiou 
de novo a cabea pela janelinha e ainda ordenou: - Candinha, recolha a roupa do varal, que j deve estar seca!
      "Essa minha tia  o mximo!" - pensou Llia, observando a velha de bochechas vermelhas.
      O carro subiu contornando a cidade, passou em frente  Santa Casa e estacionou na ampla praa da rodoviria. Llia apeou, pegou a mala, e tia Ninota foi ao 
guich retirar a passagem. A rodoviria era acanhada. Uma bilheteria pequena, forro de trelia de taquara em tranado estreito. O nibus verde j estava estacionado 
em frente  loja de objetos de pedra-sabo anexa  rodoviria.
      - Se eu me atrasasse cinco minutos, perderia o nibus - disse a tia, enquanto o motorista colocava a mala no bagageiro. - S havia duas passagens!
      - Calma, tia, calma! - pediu Llia. - No se afobe, vai dar tudo certo!
      A tia respirou fundo e olhou para a sobrinha.
      - Llia, querida, acho que no preciso recomendar que voc... tenha cuidado, no ?
      A sobrinha fez que sim.
      - Pode deixar, titia. Sei que a senhora est pensando em mame. Prometo no fazer nada que mame possa jogar a culpa em suas costas.
      - Sei disso, querida! - a tia sorriu. - Antes de ir embora, queria dizer-lhe uma coisa...
      - Pois ento diga, titia!
      -  que gosto muito de voc! Estes dias com voc em casa, o sobrado ficou mais alegre. Sangue novo, entende? Sabe, l vivemos s eu e a Candinha, duas velhas. 
De repente, chegou voc, jovem... e parece que eu me senti mais jovem tambm. Obrigada, Llia!
      Llia sorriu com a confisso da tia. Quando poderia imaginar que a barulhenta e implicante mulher tinha um corao to mole, to terno? O por dentro de tia 
Ninota era uma coisa maravilhosa!
      - Eu tambm gosto muito da senhora, titia! - respondeu Llia, abraando-a. - Agradeo seu convite para esta viagem a Ouro Preto. Foi a coisa mais linda que 
poderia ter acontecido em minha vida!
      O motorista fez sinal para embarque. Novos abraos, novos beijos.
      - Llia, telefono amanh dando notcias. Vou dar um jeito de voltar no domingo para levar voc at ao aeroporto. No se preocupe!
      Em seguida, tia Ninota entrou, e o nibus foi embora. Llia ficou longamente olhando para o pico de Itacolomi. O sol iluminava toda a Ouro Preto. Automveis 
coloridos subiam e desciam pelas ladeiras como se fossem brinquedos de corda. Tudo era miniatura - Ouro Preto era uma cidade do faz-de-conta para ficar sempre guardada 
no corao.

Agora, este  um pas livre
      Na sexta-feira  noite, o grupo reuniu-se num barzinho para tomar sorvetes e refrigerantes. Pouco antes de se despedirem, Tampinha convidou Llia para almoar 
em sua casa, j que tia Ninota tinha ido viajar.
      No sbado de manh, a tia telefonou, informando sobre o estado de sade da prima. Ela s poderia regressar a Ouro Preto na manh do domingo.
      - Chegarei antes do meio-dia - disse. - Ajudo voc a preparar as coisas e voltaremos para Belo Horizonte. No se preocupe. Terei tempo de sobra para botar 
voc no avio para So Paulo. Como vai a Candinha?
      Depois de um animadssimo almoo em casa de Tampinha,  uma hora Llia encontrou-se com Dirceu. O passeio planejado era: conhecer o Museu da Inconfidncia.
      Havia muitos turistas na praa Tiradentes, onde se localizava o museu. Ele tinha a lateral voltada para os fundos da igreja do Carmo. Os dois jovens namorados 
subiram a escada de pedra do edifcio de dois andares, que tinha, ao centro, uma torre alta com um grande relgio. Antiga penitenciria, o museu possua paredes 
grossas e piso de lajes retangulares.
       esquerda, em uma arejada sala, viram uma coleo de peas de altares de antigas igrejas, colunas e imagens. Chamou a ateno de Llia um bloco de cedro onde 
o artista havia comeado a entalhar uma imagem. Tinha o corpo quase terminado. Sem as mos, que eram encaixadas depois. A cabea, entretanto, ainda no estava pronta. 
Era da autoria de um padre.
      - A morte pegou-o de surpresa, antes que pudesse terminar o seu trabalho - observou Dirceu, lendo as informaes ao p da obra.
      Naquele momento entrou um casal. O homem baixo e gordo, descendente de japons, usava culos escuros. A me, alta e molengona, abanava-se. Com eles, um menino 
de trs anos. O encapetado soprava desafinado uma flauta estridente. Os turistas comearam a olhar feio. A molengona falou:
      - Pra com isso, Maurinho! Aqui no  lugar disso!  falta de educao!
      Maurinho no ligou a mnima. Ao contrrio, tocou mais alto.
      Para fugirem do garoto, Dirceu e Llia subiram a escadaria de pedra e desembocaram no plano superior do museu. Salo de oito janeles abertos para a praa 
Tiradentes. Ao lado da porta da entrada, dois grandes quadros a leo: Suas Majestades D. Pedro II e a Imperatriz Teresa Cristina. Ele, elegante em farda azul-marinho, 
olhar tranqilo e firme.
      Ela, tambm de azul-marinho, vestido com babado cor de ouro, a tiara de diamantes, cachos e rosto oval. Morena. No mesmo salo eles viram, ainda, peas de 
um prespio incompleto talhado por Aleijadinho. Ali estava a famosa imagem de So Jorge com a cara do Z Romo! Viram, a mais, a planta da Capela de So Francisco 
de Assis, em So Joo del Rei, projeto do Mestre Lisboa. Protegido por um vidro, o desenho a nanquim e aquarela parecia haver sido feito na vspera. Impressionante!
      No salo seguinte, prespios de vrios tamanhos a par com imagens de incrvel beleza. No cmodo dos fundos estavam guarda-roupas, bancos, cmodas, camas, objetos 
de prata, retratos a leo que puderam examinar com ateno. At que, de repente... a flauta de Maurinho voltava  cena! Na porta apontava o casal e o endiabrado 
moleque, que tinha sete flegos!
      - Vamos embora daqui antes que eu engula esse capeta! - falou Dirceu, puxando Llia pela mo.
      Desceram para visitar as salas na parte de baixo do museu. Ali ficavam as antigas celas da priso, com janeles fechados por grossas grades de ferro. No cho 
de pedras, orifcios circulares: os sanitrios de antigamente. Tambm havia uma pia entalhada em pedra, num degrau a oitenta centmetros do cho e, ao lado, uma 
srie de sanitrios.
      Na sala anexa havia uma cadeirinha do sculo 18. Era presa, na parte de cima, a uma grande canga em cujas extremidades iam escravos carregando o sinh.
      - Esse era o "automvel" de nossos bisavs - brincou Dirceu.
      Havia tambm um esquife todo entalhado. Servia para transportar os mortos que, naquela poca, em vez de caixo, iam enrolados em lenis. Uma carruagem escura, 
quase negra, chamou-lhes a ateno. Estavam eles examinando-a atentamente, quando...
      - Maurinho, pare com essa flauta, menino! - ralhou a me, tentando tomar a flautinha do moleque.
      Sem parar de sopr-la, Maurinho sentou-se na cadeirinha, empoleirou no esquife e abriu um berreiro porque o pai no deixou que ele entrasse na "diligncia 
do Django".
      No salo dos fundos estavam objetos pessoais de Tiradentes. Em um quadro, sua sentena de morte. Ao centro do salo, em um vermelho anmico, sinistro, parte 
da trave da forca onde, no dia 21 de abril de 1792, Joaquim Jos havia sido enforcado no Rio de Janeiro.
      Llia estremeceu.
      - Parece mentira que tudo isso tenha sido verdade! - disse ela. - Quando estudei a histria da Inconfidncia, nunca senti a realidade assim... to de perto!
      Percebendo o quanto ela havia ficado emocionada, Dirceu saiu em direo  outra sala. Quando iam atravessando a porta, viram no cho, quase juntas  parede, 
duas lpides. Llia parou e leu os nomes: - Maria Dorota Joaquina de Seixas e Brbara Heliodora Guilhermina da Silveira Bueno. As mulheres da Inconfidncia?!
      Ele fez um movimento afirmativo com a cabea e respondeu:
      - Brbara Heliodora, a esposa de Incio Jos de Alvarenga Peixoto, o amigo de Gonzaga, o Alceu...
      - E Dorota, a Marlia de Dirceu! - ajuntou Llia, lembrando-se da pea do Teatro de Fantoches. Pela traio de Joaquim Silvrio dos Reis, todos os inconfidentes 
haviam sido presos por ordem da rainha, D. Maria I. Teria mesmo tudo acontecido pelo cime de Quitria Bernardina que, procurando vingar-se de Gonzaga, que a havia 
repudiado, aceitava casar-se com Silvrio dos Reis com a condio de que ele conseguisse, junto ao visconde de Barbacena, a priso do poeta Gonzaga e de seus companheiros 
inconfidentes? Em
meados de 1789, Silvrio dos Reis havia entregue ao visconde uma denncia, por escrito, delatando os inconfidentes. Depois, partia para Mariana para casar-se com 
Quitria Bernardina. Teriam, pois, dado certo os planos de Quitria?
      Certo ou errado, quando Marlia soube da ordem de priso de Gonzaga, desesperada, correu  casa do poeta. Era de noite, chovia tempestuosamente. Toda molhada, 
Marlia caiu nos braos do poeta, que a tranqilizou, fazendo com que Dorota voltasse para sua casa. Altas horas da madrugada, Gonzaga ouviu tropel de cavalos, 
rudo de espadas, vozes e coronhadas  porta. "Abram em nome da rainha!" - ordenavam. Procurando manter-se calmo, Gonzaga abriu a porta. Depois de o tenente-coronel 
haver lhe dado voz de priso, o poeta voltou-se para a escrava nh Tonica e pediu: "No vou me demorar. Fique aqui e tome conta da casa. Quando amanhecer, v at 
 Casa Grande e acalme a sinhazinha Dorota. Tenho certeza de que vou voltar logo..." Apanhando a rosa de um vaso, entregou-a  escrava: "Entregue-lhe esta rosa" 
- pediu. "Diga a ela que a guarde at a minha volta." Em seguida, ofereceu os pulsos para serem algemados. Fazendo um supremo esforo para no chorar, o poeta ergueu 
a cabea e seguiu em frente. Em pouco tempo, os drages do reino desapareciam levando o prisioneiro, enquanto a pobre escrava regava a rosa com suas prprias lgrimas. 
Isso aconteceu em meados de maio de 1789.
      A notcia da priso do poeta s,acudiu toda a Ouro Preto! Pouco depois, Cludio Manuel da Costa, o poeta-advogado, tambm era detido. Mais tarde, ele seria 
encontrado enforcado em sua cela. Suicdio ou assassinato? Afinal, um advogado, bom conhecedor das leis, sabia defender-se melhor do que um leigo, talvez pudesse 
escapar. Mas a verdade sobre sua morte jamais seria esclarecida.
      Foi Gonzaga interrogado quatro vezes: em 17 de novembro de 1789, em 3 de fevereiro de 1790 e em 1. e 4 de agosto de 1791. Finalmente, no dia 18 de abril de 
1792 foi ele conduzido ao oratrio da cadeia para, com os demais inconfidentes, ouvir a sentena final. Que choque aqueles homens se reverem! Entorpecidos, sofridos, 
exaustos, sombras do passado, desesperanados, verdadeiros mortos-vivos, que haviam passado anos em pores midos das cadeias de pedras. Quem eram eles agora? Foi 
Gonzaga condenado ao desterro perptuo, partindo para Moambique no dia 23 de maio de 1792. Nessa altura, Joaquim Jos da Silva Xavier, o Tiradentes, j havia sido 
enforcado, recaindo sobre ele toda a responsabilidade pelo movimento da Inconfidncia em Minas Gerais. E Dorota? Mudou-se para a fazenda do pai. Ali, fechou-se 
para o mundo. Suas maiores preciosidades eram as poesias de Gonzaga, que ela constantemente lia. Poesias escritas quando se encontravam, poesias que ele lhe mandava 
da distante frica.
      "Nas noites de sero nos sentaremos
      cos filhos, se os tivermos,  fogueira:
      entre as falsas histrias, que contares,
      lhes contars a minha, verdadeira.
      Pasmados te ouviro; eu, entretanto,
      ainda o rosto banharei de pranto.
      Quando passarmos juntos pela rua,        
      nos mostraro co dedo os mais pastores,        
      dizendo uns para os outros: - Olha os nossos
      exemplos da desgraa e so amores.
      Contentes viveremos desta sorte,
      at que chegue a um dos dois a morte."
      Assim, sem jamais ter realizado o grande amor de sua vida, Dorota envelheceu serenamente, guardando sua ltima relquia: a rosa - agora ressequida - que a 
escrava havia-lhe entregue dizendo: "Gonzaga prometeu que haveria de voltar!"
      Numa quinta-feira - 9 de fevereiro de 1853 - Dorota morreu. Vestiram-na de branco e puseram-lhe a grinalda de flores de laranjeira com a qual ela jamais entrou 
na igreja. Enquanto os sinos das igrejas de Antnio Dias e de So Francisco batiam tristes, levaram-lhe o corpo para ser enterrado na Matriz de Antnio Dias. Mais 
tarde, os restos mortais de Dorota foram trasladados para o Museu da Inconfidncia, onde, finalmente, descansaram em paz e para sempre junto a seu amado Gonzaga.
      Llia ficou muito emocionada. Estava vendo as lpides dos inconfidentes quando, de repente, estremeceu e segurou forte as mos de Dirceu. Suplicou:
      - Por favor, no deixe!
      - No deixe o qu? - perguntou o rapaz.
      - No deixe que eles levem voc embora... No deixe que eles nos separem como separaram Gonzaga e Dorota!
      Dirceu deu-lhe um beijo na testa. Depois, passando-lhe o brao sobre os ombros, puxou-a para junto do corpo.
      - No pense bobagens, bobinha! Faz muito tempo que essa triste histria aconteceu! Agora, este  um pas livre. Quem  que vai poder nos separar?
      Llia no respondeu. Silenciosa, deixou que ele a guiasse para fora, para a praa, para o sol. Estava uma bonita tarde de sbado. A confiana de Dirceu reconfortou-a. 
Ele tinha razo: quem seria capaz de separ-los?

O abrao no boneco de Gonzaga
      Despediram-se na esquina da rua da casa do poeta Gonzaga. Llia seguiu pela ladeira, e Dirceu, atravessando a praa, ainda acenou-lhe mais uma vez.
      Llia caminhou devagar, porque continuava pensando na histria de Dorota e Gonzaga. Como teriam sido os ltimos dias do poeta em Moambique? Ele havia-se 
casado com uma nativa de l. Poderia considerar isso infidelidade para com Dorota? Ele a havia amado at o fim pois, at sua morte, continuou escrevendo poemas 
de amor  garotinha de olhos e cabelos negros que vivia solitria na fazenda de seu pai, em algum lugar das Minas Gerais.
      Quando avistou o Beco da Lapa, Llia estranhou ao ver um automvel parado junto ao sobrado. Pensando na tia Ninota, subiu a ladeira quase correndo.
      - Titia! - chamou, entrando pelo jardim.
      Assim que entrou na sala, topou com a figura da me. Dona Flvia estava sentada no sof. Ao v-la, Llia levou o maior susto.
      - Mame! Voc...?!
      Dona Flvia levantou-se. Estava nervosa, mas fazia esforo para controlar-se.
      - Sim, eu mesma! - concordou. - Cheguei pouco depois das onze e at agora estou esperando voc. Incrvel, no acha?
      Llia ficou atrapalhada.
      - Bem,  que fui almoar com uma amiga, Tampinha...
      - E no avisou a Candinha?
      - Esqueci, mame, desculpe! E, depois do almoo, fui visitar o Museu da Inconfidncia.
      - Deve ser um museu muito grande para voc passar l quase a tarde inteirinha!
      - O que voc est querendo dizer, mame? - perguntou a menina s ento percebendo, perto da mesa, malas fechadas. - Por que essas malas esto a?
      - Porque ns vamos voltar hoje para So Paulo, Llia!
      Ouvindo aquilo, Llia sentiu o sangue fugindo-lhe do rosto.
      - Hoje, mame? Mas... por qu?
      Dona Flvia respirou fundo.
      - Quanto antes melhor! Chego aqui, topo com sua tia viajando e voc a o dia inteiro como se no tivesse casa para ficar! Partimos no avio das 8!
      Desesperada, nervosa, zangada, Llia deu um passo para trs.
      - Eu no vou!
      Dona Flvia mordeu os lbios.
      - Llia, voc nunca foi malcriada! Ser que o ar daqui a fez rebelde tambm?
      - Talvez sim, mame! Esta foi a terra de homens que lutaram para conquistar a liberdade! - respondeu Llia, j mais segura de si. - Eles no gostavam de ser 
escravos. Ningum gosta, mame!
      - As passagens esto compradas - informou dona Flvia sem mudar de tom.
      - Pois eu no vou hoje para So Paulo!
      - Vai! Voc  menor de idade, ainda no  dona de seu nariz. Se insistir, chamarei a polcia! Prefere que eu faa um escndalo?
      Ao ouvir aquilo, Llia ficou novamente insegura. A me estava falando srio e no era fcil vencer-lhe os argumentos. Por isso, Llia tentou mudar de ttica.
      - Mame, tenha d, s at amanh! Preciso despedir-me de meus amigos! Se eu for embora assim, de repente, sem avisar, o que eles vo dizer?
      - Voc quer despedir-se de seus amigos ou do seu amigo? - interrogou dona Flvia, olhando firme.
      Llia no respondeu. A me continuou, procurando ser menos agressiva:
      - Filha, por favor, no sou nenhum carrasco! Estou apenas pensando em voc e nesse rapaz chamado Dirceu!
      - Como a senhora soube? - perguntou Llia, zangada.
      - No quero fazer nenhum mistrio, mas esteve aqui, nesta mesma sala, uma garota chamada Tereca. Ela me contou tudo, tudo. Ela me disse que esse rapaz  dos 
tais que gostam de teatro - artista, enfim. Filha, o que os artistas ganham neste pas, hoje em dia? A maioria deles morre de fome, porque o brasileiro no d o 
menor valor  arte! Pensando nisso tudo, resolvi que o melhor para voc  ir embora hoje!
      Llia ficou to deprimida que at sentou-se.
      - Vamos - insistiu a me. - O carro est esperando.
      A filha abanou a cabea devagar.
      - Voc no est pensando na vida difcil dos artistas coisa nenhuma! Voc est fazendo assim, porque sabe que ele... tem sangue de negro nas veias!
      A, foi a vez de dona Flvia empalidecer.
      - No! Eu no sabia disso!
      - Sabia! - gritou Llia, dando um salto. - Sabia, sabia, sabia! Voc sempre sabe tudo a meu respeito, mais do que eu mesma! Voc vive me vigiando como se eu 
fosse de bero, no deixa que eu tenha nem meus prprios sentimentos! Voc  um carrasco, sim! Voc !
      Imperturbvel, dona Flvia ouviu todo o desabafo. Depois que a filha explodiu em lgrimas, sem mudar de expresso, a me perguntou:
      - Terminou a cena? Pois ento desa imediatamente para aquele carro - e, voltando-se para dentro, ordenou: 
      - Candinha, venha ajudar com as malas!
      - No mande a Candinha ajudar porque ela no  sua criada! - gritou Llia, furiosa. - Eu mesma cuido do que  meu!
      Dando meia-volta, correu at o quarto, onde apanhou o fantoche de Gonzaga que dona Flvia tinha deixado em cima da cama. Quando voltou  sala, Candinha j 
estava l. Assustada, torcia as mos, sem saber o que dizer.
      Morrendo de raiva, Llia atirou a mala dentro do automvel. Dona Flvia ordenou ao motorista que pusesse o carro em movimento. O assustado homem fez que sim 
e ligou a chave.
      O carro deslanchou poucos metros, e Llia escutou um grito que vinha l do comeo da ladeira:
      - Marlia!
      Seu corao disparou ao olhar para trs. Dirceu e Tampinha corriam com os braos erguidos, chamavam-na. Desesperada, Llia levantou-se, enfiou meio corpo fora 
da janela do carro e acenou:
      - Dirceu!
      - Toque depressa este automvel! - ordenou dona Flvia, irritadssima.
      O motorista imprimiu maior velocidade. As lgrimas rolavam aos borbotes do rosto de Llia  medida em que Dirceu ia ficando cada vez mais distante, pequeno, 
intocvel, seus gritos substitudos pelo ronco do automvel. Depois que ele desapareceu de vez, Llia afundou-se no banco, chorando, agarrada ao boneco de Gonzaga.

Os filhos pensam que os pais so quadrados
      Tera-feira  noite. Desde a chegada de Llia, a casa parecia um cemitrio. Ela havia-se trancado no quarto, no comia, no bebia, no falava com ningum. 
Ningum conseguia faz-la sair da cama. O pai tinha tentado vrias vezes. A filha ouvia, ouvia, silenciosa., imvel, agarrada ao boneco. Parecia morta-viva. A me 
tambm havia tentado explicar-se. Foi educada, imperativa, ameaadora - nada surtiu efeito. Marido e mulher tiveram uma longa conversa. Estavam at pensando em chamar 
um psiquiatra para ajudar. Mas, de que adiantaria? O problema no era dessa natureza. Dr. Rui havia pedido que a esposa no fosse buscar a filha daquele jeito. Havia 
sugerido que agisse com mais cautela. Ele tinha certeza de que, com o tempo, com uma conversa em particular com Llia, tudo estaria resolvido. No entanto, dona Flvia 
seguiu sua prpria cabea e tomou o avio sem ao menos avis-lo. Depois, apareceu trazendo a filha pelo pescoo. Muito bem, estava feito. E agora?
      Detrs da porta da sala, Alice escutou tudo.
      s nove e vinte a campainha tocou. Com olhos vermelhos de cansao, o mdico foi atender.
      L fora, empertigada em seu vestido escuro e segurando a maleta de viagem, tia Ninota. To grande foi a surpresa que, por alguns momentos, o mdico ficou sem 
ao.
      - No vai me convidar para entrar? - perguntou a tia, impaciente.
      - Claro que sim! - respondeu ele. - Por favor, titia, entre! Como vai?
      - To mal quanto voc - respondeu ela secamente.
      Dr. Rui fechou a porta. Tia Ninota foi direto ao assunto:
      - A casa est do jeitinho que eu esperava: com cara de velrio! Aposto que a menina deve estar de cama, enquanto a me, na sala, reclama que  a inconsolvel 
incompreendida!
      Tia Ninota era fogo! Pelo jeito de falar, apertando os olhos a cada palavra, era sinal de tempestade chegando. Deveria o mdico pedir que ela moderasse as 
palavras? Naturalmente que no! Ele simplesmente indicou a porta aberta da sala e disse:
      - Ela est l. Veja a senhora mesma!
      Deixando a maleta de viagem no corredor, a tia marchou decidida sala adentro. Cmodo espaoso, cortinas corridas, sofs de couro, dona Flvia perto do quebra-luz. 
Quando viu a tia, endireitou o corpo e colocou-se em posio de sentido.
      - Espero que voc esteja bem, depois do papelo que me fez! - comeou a tia, plantando-se de p em frente a ela.
      Ao ouvir aquilo, dona Flvia sentiu-se irritada.
      - Papelo? - perguntou. - Muito boa! A senhora sai, vai viajar, deixa a minha filha ao deus-dar e depois ainda vem me dizer que eu que fiz um papelo?
      - Pensei que pudssemos conversar como pessoas educadas e sem troca de gentilezas - respondeu a tia, sem se mover. - Primeiro de tudo, devo dizer-lhe que a 
prima Carminha faleceu domingo de manh e foi sepultada na segunda. Por esse motivo, no vim para c antes, pois estava em Belo Horizonte, no a passeio. Em segundo 
lugar, Flvia, quero que saiba que voc cometeu uma arbitrariedade em minha casa, levando a minha sobrinha embora! Os vizinhos chegaram at a pensar em rapto, sabia? 
Como v, apesar de toda a sua "classe", voc deixou um bonito carto de visitas para trs!
      O mdico sentou-se em uma poltrona. Em absoluto silncio, ficou assistindo a discusso.
      - Eu no precisaria ter feito o que fiz, se a senhora tivesse tomado conta da minha filha! - acusou dona Flvia, despejando fogo pelos olhos.
      - Oh! O bebezinho precisa de quem lhe troque as fraldas e passe talco no bumbum? - rebateu a tia. - Pois eu no sabia! A mim, sua filha me parece uma garota 
bastante consciente. Ela sabe muito bem o que quer e  capaz de tomar sozinha suas prprias decises!
      - A senhora est sendo cnica, tia Ninota!
      - No! Estou apenas colocando as coisas no plano em que voc mesma colocou. Voc me acusa de no haver tomado conta de sua filha, e isso  muito grave porque 
sou uma mulher responsvel! Escute uma coisa, Flvia: eu tomei conta de sua filha! Se se esqueceu, lembre-se que fui criada na mesma escola da sua sogra! E foi ela 
que criou o homem com quem voc se casou. Alguma reclamao?
      Dona Flvia no esperava aquela resposta. Olhou para o marido como se estivesse pedindo ajuda. Dr. Rui, porm, continuou imvel, pois no queria tomar partido. 
Percebendo que estava sozinha, dona Flvia procurou no perder a cabea.
      - timo! - disse. - Ento, vamos aos pontos que interessam: minha filha portou-se mal em Ouro Preto, beijando publicamente um namorado! E aqui no vai nenhuma 
falsa moral. O que eu quero dizer  que, depois de beijos... a senhora j sabe o que pode acontecer. Como se no bastasse, a senhora vira as costas, e minha filha 
fica, o dia inteirinho, a ss com um namorado que eu nem conheo!
      A tia olhou friamente para a sobrinha.
      - Uma pena, Flvia!
      - Uma pena o qu?
      - Que voc nunca tenha tido uma longa conversa amistosa com Llia! Porque, se tivesse conversado, conhece ria melhor a filha que tem. E, se a conhecesse melhor, 
no ia dizer uma besteira desse tamanho!
      - O que a senhora est querendo me dizer?
      - Estou dizendo que sua filha  sensata, adulta, sabe o que deve e o que no deve fazer. Em uma semana de contato, eu a conheo melhor do que voc! E fique 
sabendo mais: tivemos um longo papo sobre o amor e suas conseqncias. Llia entendeu o que eu disse. Tenho certeza de que sua filha jamais perderia a cabea por 
um impulso! Eu sei que ela herdou o bom senso da famlia do pai!
      - Oh! - e dona Flvia ps a mo no peito. - Rui, voc escutou? Agora ela est me ofendendo!
      - Eu tinha pedido para voc no buscar a nossa filha, no foi? - perguntou o mdico.
      Dona Flvia j estava comeando a perder o controle. Ento, partiu para a ignorncia:
      - J sei! Agora voc se omite, e a responsabilidade passa a ser toda minha! A me  sempre a culpada, o carrasco! Foi isso mesmo que a minha filha me atirou 
ao rosto!
      - Querida, isto no  cena de novela! - declarou tia Ninota. - Voc deveria ter previsto que a sua filha iria mesmo cham-la de carrasco pelo que voc lhe 
fez. Pior ainda: talvez, at, ela nunca a perdoe. J pensou nessa possibilidade?
      Outro choque! Dona Flvia estava em frangalhos. Mesmo assim, continuou de cabea erguida.
      - Estou lutando para fazer o melhor por ela! - respondeu.
      - E o melhor  tranc-la no quarto com o corao aos pedaos?
      - Isso h de passar.  para o bem dela!
      - Engraado como as pessoas tm certeza do que  melhor para os outros! - suspirou tia Ninota. - Todo mundo sabe resolver melhor os dramas de seu vizinho do 
que os seus prprios. No  assombroso?
      - Tia Ninota, seu cinismo est me irritando!
      - No, minha sobrinha, no  cinismo!  o desnimo que me faz reagir assim. Fico pasma ao ver sua segurana, dizendo que sabe o que  melhor ou pior para um 
corao que no  o seu! Flvia, escute: j  tempo de voc compreender que voc no  a sua filha! Llia nasceu de voc, mas  outro corpo, outra alma, outro ser, 
outra vontade, outra poca, outro mundo! Assim, como  que voc pode dizer to solene o que  melhor ou pior para ela?  a conscincia de cada um que julga o que 
lhe  bom ou mau!
      - Llia  uma jovem inexperiente, tem apenas dezesseis anos! - gritou dona Flvia. - E uma garota de dezesseis anos sabe l o que quer da vida?
      - Responda voc mesma - falou a tia, coando o nariz. - Quando voc estava com quinze, comeou o namoro com o meu sobrinho. Lembra-se de como a sua me no 
queria esse namoro? Meu sobrinho era pobre, ns sempre fomos pobres, graas a Deus! Mas o seu pai era gerente de banco, voc era filha nica, eles queriam um prncipe 
encantado para seu marido. Quanto  minha famlia, minha irm tambm, apesar de pobre, no queria o namoro de vocs, porque achava que voc ia estragar a vida do 
Rui. Ele
ainda tinha de fazer a faculdade de medicina - eram duas famlias cabeudas! E o que vocs fizeram? Teimaram, teimaram... e casaram-se! Naquela poca, voc tinha 
s quinze anos, Flvia. Um ano a menos do que a sua filha tem agora. E sua me tambm dizia que voc no sabia o que estava fazendo]
      Ouvindo aquilo, dona Flvia sentou-se.
      - E quem  que escondia o namoro de vocs? - continuou tia Ninota. - Quem  que fingia no ver os encontros de vocs no jardim da casa dela? Quem  que vivia 
sem saber mais quantas mentiras inventar tanto para a sua me quanto para a minha irm? Esquisito, queridinha! Sua memria pode ter-se esquecido dessas coisas, mas 
a minha no!
      O silncio continuava absoluto na sala. Atrs da porta, Alice at dava pulinhos ao ouvir a bronca que a patroa estava levando.
      - Naquele tempo voc achava que eu era a melhor tia do mundo - prosseguiu a tia. - Muito bem, naquele tempo eu pensava da mesma forma que penso hoje. E agora, 
passados apenas dezoito anos, voc j no me considera mais to maravilhosa e nem cuidadosa assim. Por qu? S porque estou tratando a sua filha do mesmo modo que 
tratei voc e porque acredito na responsabilidade dela?
      Mos sobre os joelhos, olhos para o cho, dona Flvia no respondia. Tia Ninota respirou fundo e colocou a mo no ombro da sobrinha.
      - Flvia, querida, os pais precisam ser fortes. Eles devem ser como pedreiros que vo ajudando, dia a dia, a colocar mais um tijolo na edificao da personalidade 
de seus filhos. No so atitudes como a sua que consertam o mundo. No v? Existe uma grita geral por a, dizendo que no h mais dilogo entre pais e filhos. Dialogar 
no  s perguntar como vai o corpo, a escola, o estudo, se est precisando de dinheiro ou de gasolina para o automvel. Dialogar  mais do que isso, Flvia... dialogar 
 a gente conversar com os olhos, com o corao. A, quando chega o momento certo,  que sabemos se o dilogo funcionou. Seu dilogo com a sua filha no funcionou. 
Alguma coisa est errada! No sei de quem  a culpa. Pode at nem haver culpa. Mas no ser com essa sua atitude radical que voc conseguir segurar o amor e o respeito 
de Llia!
      Retirando a mo, a tia voltou-se para o mdico:
      - Estou cansada, falei demais. Voc tem um quarto desocupado?  s por esta noite.
      - Claro, titia! - respondeu Dr. Rui, levantando-se e pegando-a pelo brao. - Pedirei a Alice para arranjar tudo para a senhora.
      Eles saram. Dona Flvia continuou sentada, imvel. A casa estava mergulhada no maior silncio. Os minutos voavam, enquanto ela ia fazendo uma retrospectiva 
de sua vida.
      At que, de repente, levantou-se decidida. Parecia outra mulher, pois o rosto j no estava amargurado. Ao contrrio, os olhos brilhavam como se seu corao 
de adolescente voltasse a pulsar. Com passos firmes, atravessou a sala, subiu a escada e, sem hesitar, entrou no quarto da filha.
      Segurando o fantoche de Gonzaga no colo, Llia estava recostada nos travesseiros. Uma grande ternura invadiu a alma de dona Flvia. Ela sentiu uma incrvel 
vontade de pegar a filha no colo como se fosse um bebezinho que precisasse de sua proteo. Tinha vontade de dizer-lhe muitas coisas. Porm, em vez disso, simplesmente 
se dirigiu ao guarda-roupa. Dali, retirou a mala de viagem que colocou sobre uma cadeira. Abrindo a gaveta da cmoda, comeou a tirar as roupas que foi acomodando 
na mala.
      Llia no estava entendendo nada. A me continuava dobrando roupas.
      - Me...
      - Que ?
      - O que voc est fazendo?
      A me encolheu os ombros.
      - Estive conversando com seu pai e sua tia Ninota. Chegamos  concluso de que voc deve voltar a Ouro Preto para fazer, l, o curso de magistrio.
      Ao ouvir isso, o rosto de Llia iluminou-se com o maior dos sorrisos.
      - Estudar l, m-mame? - e deu um salto. - Voc concordou?
      A, dona Flvia deu meia-volta e respondeu:
      - Os filhos pensam que os pais so quadrados e que no entendem nada. Mas eu entendo, filha. Custou, mas agora entendo!
      Estendendo os braos, convidou:
      - No quer me ajudar a preparar a sua mala? 

Em direo s terras das Minas Gerais
      O movimento no aeroporto de Cumbica, naquela manh de quarta-feira, era grande. A primeira a saltar do carro foi Llia - agarradssima ao boneco do poeta da 
Inconfidncia.
      As malas foram levadas pelo transportador, marcaram-se as passagens e, enquanto no chegava a hora do vo, Llia, ansiosa, caminhava de um lado para o outro. 
Estava linda em um vestido cor de areia, de algodo e rendas, sandlias e bolsa combinando.
      Finalmente, o vo foi anunciado. Eles dirigiram-se at a passagem para embarque, onde um funcionrio uniformizado conferia os passageiros. Tia Ninota despediu-se 
e seguiu vagarosamente pelo corredor de vidro. Depois foi a vez de Llia. Primeiro, ela dependurou-se no pescoo do pai e deu-lhe um beijo carinhoso.
      - No fique triste, papai! Vou telefonar todos os dias, prometo!
      Depois, voltou-se para a me. No sabia o que dizer. No era fcil conversar com ela. Desde pequena, no conseguia penetrar no mundo bonito que a me tinha 
por dentro.
      - Tambm vou telefonar para voc todos os dias, prometo! - e forou um sorriso. - No precisa ficar preocupada!
      Dona Flvia segurou a emoo. A filha afastou-se at  escada onde parou por alguns momentos. Olhando para trs, deu uma corrida e tambm dependurou-se no 
pescoo da me:
      - Oh, mame! Eu sempre gostei de voc igual gostava do papai! O diabo  que voc... nunca me deixava entrar no seu mundo!
      - Eu sei, eu sei! - murmurou dona Flvia, com o rosto afundado nos cabelos da menina. - Mas agora as coisas esto diferentes... e eu tambm quero conversar 
com voc todos os dias!
      Desligando-se dos pais, Llia deu outra corrida e desapareceu de vista.
      Naquele momento, dona Flvia sentiu a mo do marido amparando-a ternamente.
      Eles subiram at ao segundo pavimento do aeroporto, para verem o avio decolar. O nibus amarelo estava contornando a pista. Pouco depois, estacionava ao lado 
da aeronave. Os passageiros comearam a apear. O mdico e a esposa olharam ansiosos, at que viram as duas.
      Os passageiros foram subindo at a aeronave pela escadinha de ferro. Quando estava l no alto, Llia ainda olhou para trs, acenou com o fantoche e gritou:
      - Eu amo vocs dois! Amo muito mesmo!
      O vento no permitiu que os pais ouvissem aquela declarao. Mas o corao deles escutou.
      - Ns tambm amamos muito voc! - respondeu dona Flvia, atirando um beijo.
      Em seguida, a porta do avio foi fechada.
      Alguns minutos aps, o jato descrevia uma lenta curva na pista, distanciando-se. Com um estrondo, a ave prateada passou rpida como um meteoro em frente ao 
edifcio do aeroporto e levantou as rodas do solo. Em poucos minutos, desaparecia pelo cu azul, rumo ao sol, na direo das terras das Minas Gerais - a to querida 
Ouro Preto!
       
AUTOR E OBRA
                                                                       
Bem na hora do batizado o padre ameaou, enrgico: "Com nome de pago eu no batizo! S se juntarem Jos". Foi assim, sob presso, que Ganymdes passou a ser tambm 
Jos. Felizmente a imposio do vigrio junto  pia batismal no deixou seqelas, e o garoto pde seguir sua brilhante trajetria sem que o acrscimo fosse um peso. 
"Da eu virei substantivo composto", brincava ele.
      Ganymdes Jos nasceu em Casa Branca, no interior de So Paulo, em 15 de maio de 1936. Formou-se professor em sua cidade, fez direito na PUC de Campinas e 
cursou letras na Faculdade de So Jos do Rio Pardo. Desde cedo comeou a juntar coisas no corao: pedaos do mundo (sua cidade, por exemplo, cabia inteira), gente, 
muita gente, livros, msicas... "Gosto de paz, silncio, plantas, animais, amigos, honestidade, escrever, msica, alegria, fraternidade, compreenso...", escreveu 
certa vez.
      Quando ainda estava no grupo escolar, surpreendeu a professora ao afirmar que seria escritor. Retornando  sua cidade, depois de formado, o menino escritor 
deixou de ser menino. E no parou mais de escrever. Datilografava s com trs dedos, o que no o impediu de nos deixar mais de 150 obras.  livro para todos os gostos: 
mistrio, humor, histrico, romntico, infantil, juvenil... Em todos, o mesmo fio condutor, a mesma energia vital: o amor  juventude.
      Teve obras premiadas pela Associao Paulista de Crticos de Arte (1975, melhor Livro Infantil) e pela Prefeitura de Belo Horizonte (1982, Prmio Nacional 
de Literatura Infantil "Joo de Barro").
      No dia 9 de julho de 1990, quando Ganymdes se preparava para o lanamento de Uma luz no fim do tnel - mais uma grande prova de amor ao jovem -, seu corao, 
aquele cheio de pessoas e coisas bonitas, parou repentinamente de bater. E tudo quanto ele amava levou embora, dentro do peito. Mas tudo em que acreditava ele deixou 
aqui, em seus livros.
